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audiovisual
STAR SYSTEM

As fantasias de "Miss Tacuarembó"
Por Denise Mota


Cena do filme "Miss Tacuarembó", do uruguaio Martin Sastre
Divulgação

O videoartista uruguaio Martin Sastre busca o grande público com seu primeiro longa, uma fábula sobre o mundo das celebridades

Em sua “Trilogía Iberoamericana” (2001-2005), uma freira encapsulada no corpo de uma boneca Hello Kitty augurava ao videoartista Martin Sastre que o mundo, nada mais nada menos, seria seu. Agora que se lança no território do cinema, o multifacetado provocador uruguaio (convidado de bienais como as de Veneza, Havana e São Paulo) mantém a aposta, dessa vez por meio das fantasias da heroína de seu primeiro longa-metragem, “Miss Tacuarembó”.

O filme chegou às telas da Argentina em julho, depois de haver estreado duas semanas antes no Uruguai, com ampla campanha publicitária e bom desempenho nas bilheterias. Em setembro, foi lançado na Espanha, onde vive o artista, mais conhecido por seu trabalho em videoarte, mas que também possui obras em fotografia, escultura e desenho.

“´Miss Tacuarembó` está mais para ´Harry Potter` do que para ´Whisky`”, afirma o diretor a Trópico, em referência ao filme uruguaio de 2004 –até agora o exemplar mais destacado da cinematografia do país neste século-, a melancólica narrativa do encontro de dois irmãos, dirigida por Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella e premiada em festivais como os de Cannes e Gramado.

Diferentemente do que tem sido visto nas telas de Montevideu, o filme de Sastre parte de um princípio desolador -a frustrada vida de uma trintona que, quando criança, sonhava em ser uma celebridade- para desenvolver uma trama de narrativas de tom lúdico, acompanhadas de dança, música e efeitos kitsch decalcados da estética dos anos 1980, algumas das características mais marcantes da obra do agora cineasta.

“Não há uma única forma uruguaia de ser. Sou uruguaio e uso um moletom cor-de-rosa com estampa da Hello Kitty. Não tomo chimarrão, sou vegetariano… É importante que haja várias histórias muito diferentes e que o cinema uruguaio esteja aberto a contar muitas histórias de distintas formas. Gosto muito de ´Whisky`, é claro. Agora, creio, sim, que com ´Miss Tacuarembó` os uruguaios vão se surpreender. Não é o que esperam de um filme nacional”, diz.

Não por acaso, a produção estreou ao lado de lançamentos infanto-juvenis comerciais destinados a crianças e adolescentes em férias escolares, como “Shrek” e “Crepúsculo”. O embate voluntário nas salas de cinema com produções “mainstream” não deixa de lembrar um dos pilares essenciais da obra de Sastre, a reversão de noções de centro e periferia, e a representação da arte latino-americana como novo referencial padronizador de gostos.

“Sinto que esse filme é muito parecido com as coisas que fiz antes. A mim sempre me surpreendeu muitíssimo o fato de que as pessoas chegam às minhas obras de forma muito massiva. São trabalhos que sempre atraíram um público muito diverso: crianças, adultos, com formação ou não em arte contemporânea”, comenta. “Quando decidi fazer ´Miss Tacuarembó`, não o pensei como um produto comercial, e sim como um filme que me agradasse. Acho que isso também tem seu encanto do ponto de vista da chegada às massas, tem uma sensibilidade que, creio, vai gerar muita empatia com um público diverso.”

“Miss Tacuarembó” está baseado (de forma bastante livre) no livro homônimo de Dani Umpi, jovem escritor e performer uruguaio, bem conhecido nos circuitos alternativos do Rio da Prata. Em Buenos Aires, Umpi chegou a ser tema de um debate organizado pelo Centro Cultural Espanha, da capital argentina, em que o comparavam ao escritor Manuel Puig.

Na releitura proposta por Sastre, a história se centra na trajetória de uma garota de uma pequena cidade do interior (a Tacuarembó de que trata o título, localidade a 390 km de Montevidéu e reconhecidamente um lugar dos mais tediosos dentro da geografia uruguaia). Fascinada principalmente pelas novelas que acompanha cotidianamente, sonha ser uma estrela, mas sua vida adulta -como funcionária de um parque temático religioso na Argentina- é o extremo oposto de tudo o que desejou na infância.

Por conta de um reality show, a protagonista, Natália, tem a chance de tentar uma vez mais cumprir seu sonho e de quebra reencontrar a mãe, que não vê há dez anos.

O filme conta com um elenco de destaque dentro do “star system” do Rio da Prata. A protagonista, a também uruguaia Natalia Oreiro, é estrela recorrente das comédias românticas argentinas de maior audiência televisiva.

Mike Amigorena, outro ator de sucesso no país de Cristina Kirchner, interpreta Jesus Cristo, que na fábula de Sastre não só conversa com a personagem principal como canta e dança. A almodovariana Rossy de Palma também integra a produção, assim como grandes nomes do cinema argentino e uruguaio, como as atrizes Graciela Borges (de “O Pântano”, de Lucrecia Martel, entre outros) e Mirella Pascual (a desolada Marta de “Whisky”).

Atualmente, o diretor está mergulhado no projeto de um novo longa-metragem e diz ter adiado uma série de mostras em museus e galerias por conta de sua imberbe empreitada cinematográfica. De formação autodidata, Sastre se tornou conhecido no mundo das artes pelas criações bem-humoradas, e nunca desprovidas de crítica, que têm como referência ícones pop e celebridades contemporâneas como Madonna, Lady Di, Matthew Barney e Robbie Williams.


Publicado em 10/11/2010

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Denise Mota
É jornalista. Vive em Montevidéu.

 
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