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De outro, temos os países emergentes negociando de modos diferenciados e em posições diferenciadas, para ver como farão valer, no tabuleiro, as suas diferenças. O nosso objetivo, no fórum, é perceber como anda esse processo de reconfiguração, como está, enfim, o acesso à cultura e à tecnologia num mundo sob transformação tão intensa.


O Brasil continua suscitando grande interesse nos círculos mais informados do exterior...

Laymert: Estamos juntando pessoas de diferentes continentes para uma primeira rodada de conversas, mas pretendemos dar prosseguimento a esse debate posteriormente, em novas edições do fórum. Com esses mesmos convidados e com outros.

Quanto ao interesse, sei, por exemplo, que o Ministério da Cultura recebeu nos últimos anos cerca de 30 convites para realizar o “Ano do Brasil” nos mais diversos países, do Japão à Bélgica, passando por Índia e China. Todo mundo quer saber que país é esse, que povo é esse que conseguiu entrar na cena mundial, e que cultura é essa que permitiu tal feito.

É fundamental começar a discutir aqui os pontos propostos pelo fórum, pois essa reflexão está acontecendo lá fora, mas não ainda nos termos em que estamos colocando aqui.

De certa maneira, pode-se dizer, também, que existe uma ressonância dos temas do fórum com o que foi proposto pelo curador Moacir dos Anjos para a 29ª Bienal Internacional de São Paulo (Laymert Garcia foi, de setembro de 2009 a junho de 2010, diretor da Fundação Bienal de São Paulo).

A mostra procurou reavaliar a arte brasileira e a do Terceiro Mundo como “arte periférica”, cuja complexidade e atualidade não ficam nada a dever ao que se consagrou no circuito euro-americano como o melhor da arte contemporânea. No entanto, apesar de qualidade equivalente, essa arte não é valorizada nos mesmos termos. Por quê? Fica evidente que não se trata de uma questão de qualidade, nem de uma lacuna na detecção das formulações ou criações.

Então, qual seria a questão? Se passarmos a enxergar o movimento da arte contemporânea não mais com a visão do “circuito Elizabeth Arden”, percebemos que aqueles que estão ingressando agora forçam uma reconfiguração do circuito: “Esperem um pouco. Por que são vocês que podem dizer o que é bom nessa distribuição de valores e papéis?”.


A primeira mesa discute o Brasil e o panorama latino-americano...

Laymert: Nas falas de abertura, com Gilberto Gil, e os ministros Juca Ferreira e Samuel Pinheiro Guimarães, atual ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, teremos considerações sobre a inserção do Brasil na situação global. Depois, na primeira mesa, enfocamos a América Latina. Nas mesas dos dias seguintes abrimos a interlocução com outros continentes.


Poderia situar de maneira breve os convidados dessa primeira mesa?

Laymert: Na primeira mesa está Ticio Escobar, importante curador e crítico de arte, criador do Museu do Barro, em Assunção, que colocou a cultura tradicional local em outro patamar. Atualmente é ministro da Cultura do Paraguai e escreve textos muito interessantes sobre como a cultura tradicional pode ser considerada contemporânea.

Está na mesa também Catherine Walsh, norte-americana radicada no Equador. Ela trabalha com geopolítica da cultura, notadamente a articulação entre as culturas afro e andinas. Ela vem analisando o processo de transformação que aquele país está registrando: o Equador está gerando uma discussão interessantíssima, suscitada na própria Constituição do país, que estabeleceu uma relação direta entre valorização da cultura tradicional e valorização da cultura digital, via agenciamento da livre circulação das culturas indígenas com a livre circulação de sofware livres.

Amarrou-se, assim, uma ponta à outra, os modos do saber fazer e do compartilhamento do saber: ou seja, do tradicional e daquilo que foi inventado pelo Ocidente, mas que também poderia ser trabalhado como tecnologia a serviço de outras culturas e que deve ser articulado num modo de livre circulação e não de apropriação. Trata-se de algo bastante ousado.

Outro nome da mesa é o líder indígena peruano Saul Puerta Peña, que está engajado na valorização das culturas amazônicas e faz parte da campanha de Alberto Pizando à presidência do Peru. Se este for eleito, a consolidação das alianças de povos indígenas nos países andinos vai mudar de patamar e trazer com força o papel dessas culturas, que estão sempre vinculadas à terra, ao ambiente, a populações resistentes, sempre menosprezadas como periféricas e “arcaicas”.


Será que tende a ser afirmativa a resposta à questão colocada por essa primeira mesa: “Podem os conhecimentos tradicionais serem entendidos como cultura contemporânea num mundo multipolar?”

Laymert: Sim, mas queremos ver de que maneira isso pode se dar e de que forma esses convidados pensam tais articulações. Pois é claro que um brasileiro não pensa uma questão da mesma maneira que os seus vizinhos. Eu acho que, em nosso caso, e isso será abordado nas mesas seguintes, a diferença está no “blend”, na mistura que fazemos, pois o Brasil promove isso de um modo muito diferente das outras culturas da América Latina.


link-se

http://geopoliticadacultura.org.br


Publicado em 9/11/2010

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Alvaro Machado
É jornalista, organizador de "Abbas Kiarostami", "Aleksandr Sokúrov", "Amos Gitai - Percursos" e "Manoel de Oliveira" (ed. Cosac & Naify) e autor de "Yanomami, La Danse des Images - Claudia Andujar" (ed. Marval, Paris), entre outros. É editor-responsável da Opera Prima Cultural.

 
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