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política
OCIDENTE/ORIENTE

A nova multipolaridade
Por Alvaro Machado

Fórum organizado por Gilberto Gil e Laymert Garcia dos Santos discute em SP a geopolítica da cultura e da tecnologia

Não se contam nem 20 anos da revolução informacional no planeta, com parâmetros ditados ao mundo pela hegemonia tecnológica do Ocidente, e já aparecem questionamentos fortes a este processo: “A atual crise financeira global –aliada a uma crise ambiental em escala semelhante– não está a nos mostrar justamente os limites da perspectiva cultural com a qual europeus e norte-americanos tentam sustentar seu modelo de desenvolvimento tecnocientífico?”

A pergunta acima foi formulada pelo pensamento conjunto de Gilberto Gil e Laymert Garcia dos Santos, parceria que vem se dando há quase dois anos e que agora se torna pública.

O compositor e ex-ministro e o professor de sociologia assinam a curadoria do fórum internacional “Geopolítica da Cultura e da Tecnologia”, encampado pela Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura e que será apresentado entre os dias 11 e 13 de novembro na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. O evento é aberto ao público.

Na programação, três sequências de comunicações, seguidas de debates, com 16 pensadores da questão cultural e da tecnologia, da Ásia, da Europa e da América Latina.

Entre eles, participam o filósofo francês François Jullien (autor de livros como “Tratado da Eficácia” e “Figuras da Imanência”, pela Ed. 34), o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro (autor de “A Inconstância da Alma Selvagem”, ed. Cosac Naify), o filósofo David Lapoujade, um dos principais herdeiros do pensamento de Gilles Deleuze, o pensador grego Konstantinos Karachalios, autoridade em propriedade intelectual, hoje atuando no Escritório Europeu de Patentes, e o atual ministro da Cultura do Paraguai, o crítico e curador Tício Escobar. Também falarão, na abertura do fórum (quinta, dia 11, às 18h) o ministro da Cultura, Juca Ferreira, e o ministro de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães.

O processo de dois anos de trabalho para o lançamento do fórum incluiu lances surpreendentes de alianças intelectuais, como num encontro entre Gil, Laymert, o produtor cultural Claudio Prado e o filósofo francês Pierre Lévy, quando se cogitou em criar um movimento que reivindicasse o ciberespaço como patrimônio da humanidade. O episódio está narrado pelo assistente de curadoria e sociólogo Francisco Caminati, no site oficial do evento (veja link no final deste artigo).

Além de texto de apresentação assinado por Gil e Laymert, o endereço virtual traz perfis de todos os palestrantes e um blog com posts que abordam questões como: um novo desenho de mapa-múndi, proposto pelo arquiteto e pensador americano Buckminster-Fuller (utilizado como identidade do próprio site) e a morte do conceito de “multiculturalismo”, a partir da experiência política europeia recente.

"O jogo geopolítico deixou de ter como referência única e central o chamado Ocidente", diz Laymert, que é também crítico e curador de arte, na entrevista a seguir.

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O conceito de “multipolaridade”, aplicado atualmente por muitos pensadores à atual conformação político-econômica global, parece ser fundamental na discussão proposta pelo fórum. Poderia explicitar esse conceito?

Laymert Garcia dos Santos: Nós não vivemos mais, como há dez anos, num mundo cuja geopolítica se estabelece a partir de um único polo; por exemplo, a partir da hegemonia da economia euro-americana. Não existe mais, hoje, no mundo, um único centro, mas vários polos, que podem ser ao mesmo tempo competidores e complementares.

Se antes havia, sobretudo, o polo euro-americano, tudo se modificou com a entrada de Índia, China, Brasil e outros países no cenário mundial, ou seja, com o advento dos Brics. Por exemplo, a Ásia está se tornando um polo do qual participam não apenas Coréia e China, mas surpreendentemente também o Japão, que antes se encontrava na órbita euro-americana, mas agora passa a integrar o polo geopolítico asiático.

De outro lado, mesmo Europa e EUA mantêm suas alianças tradicionais em determinados campos de interesses comuns, mas não quanto a todos os temas. Passaram a coexistir, com frequência, três polos, que defendem interesses às vezes próprios e em outras vezes explicitam alianças ocasionais, ou seja, o jogo geopolítico deixou de ter como referência única e central o chamado Ocidente.

Assim, temos países grandes, de dimensões continentais, entrando inapelavelmente como jogadores decisivos na partida mundial: Brasil, Índia, China e Rússia. Por tudo o que acabei de expor, existe claramente, portanto, uma nova distribuição de poder, porque é preciso reconhecer que os emergentes emergiram!


Nesse contexto da multipolaridade, a primeira mesa do fórum propõe examinar os conhecimentos antigos, ou tradicionais, dos países emergentes, face à cultura, à arte e à tecnologia contemporâneas. Como se passa de uma coisa a outra?

Laymert: Ora, vários desses países emergentes não conheceram a arte moderna no sentido como nós a entendemos no Ocidente, pois esse conceito é, de fato, uma invenção puramente ocidental. Assim, nesses países, a produção “saltou” diretamente da arte tradicional para a arte contemporânea, sem conhecer a arte moderna.

O Brasil teve, sim, uma “arte moderna”, porém nossa experiência nunca foi reconhecida como “moderna de primeiro nível”, mas como linha auxiliar da experiência ocidental, que ditava os padrões estéticos. Portanto, hoje, se por um lado a cultura contemporânea revela-se fundamental na arquitetura de poder da sociedade do conhecimento, por outro, essa cultura passou a exibir, nos países emergentes, contornos que não são unicamente euro-americanos, mas uma mistura destes a conceitos próprios, que seguem lógicas de suas culturas tradicionais.

De certa maneira, é como se estivéssemos vivendo uma espécie de segunda globalização, na qual as culturas emergentes dizem: “Nós também somos contemporâneos e temos arte e cultura contemporâneas”.

E como é que se dá, no interior desses países, a relação entre cultura contemporânea e culturas tradicionais? Se olharmos a questão da China (e François Jullien está na nossa programação para falar disso), percebe-se que os chineses jogam suas fichas não apenas na lógica da cultura ocidental, mas também na lógica de sua cultura tradicional. Eles desenvolvem essa mistura ou atualização. Na Índia dá-se o mesmo, e por isso convidamos Lawrence Liang.


Como se configura, no Brasil, essa dualidade?

Laymert: O Brasil está experimentando esse mesmo processo, mas de uma maneira particular, colocando também a questão da riqueza de sua diversidade cultural. E, se hoje existem três polos – Ásia, Europa e Estados Unidos –, o Brasil é um país que almeja uma quarta posição, de autonomia relativa em relação aos grandes polos, mas construída em conjunto com outros países da América do Sul.

Essa tem sido a linha-mestra da estratégia diplomática do governo Lula desde o seu início, em 2003: configurar, através de bases comuns a outros países, uma aliança continental, para passar a gozar de uma autonomia relativa, não mais obrigando-se a alinhamentos compulsórios com norte-americanos, asiáticos ou europeus.

A construção de uma autonomia relativa passa pelo reconhecimento de que o Brasil só poderá fazer isso junto com os outros países da América do Sul: sem tentar colonizá-los, mas potencializando e fortalecendo os traços culturais que temos em comum, o nosso destino compartilhado. E respeitando-se e valorizando a cultura desses povos, que hoje continua sendo um misto de matrizes tradicionais com os valores ocidentais.

Não somos, no Brasil, apenas ocidentais: temos a forte presença das culturas africana e indígena. Nessa situação, há uma reavaliação do que significam as culturas tradicionais e de que maneira estas comparecem na nova lógica, porque antes elas eram consideradas inferiores ou arcaicas, utilizando-se, para essa classificação, as balizas das culturas norte-americana e europeia modernas.


Estaria emergindo uma atualização do panamericanismo latino dos anos 1960?

Laymert: Eu não chamaria latino porque não podemos considerar o México, que está sob a influência econômica dos EUA, mas falaria, sobretudo, de um movimento próprio da América do Sul, mais do que da América Latina. Existe uma política brasileira voltada especificamente para a América do Sul.

O que interessa é saber, agora, de que maneira os países emergentes estão lidando com a questão da contemporaneidade e, dentro dela, com a questão da cultura e da tecnologia.

Assim, a proposta do fórum foi encampada por ministros do atual governo brasileiro, alguns deles presentes em mesas, tendo em vista a coincidência com a política externa do país nos últimos oito anos: esse pensamento geopolítico que estamos desenvolvendo por aqui. E juntos percebemos que era urgente debater as descentralizações também em relação à cultura. Gil e eu percebemos, ainda, que era importante incluir a tecnologia nesse debate, porque hoje não se pode pensar cultura sem pensar sua articulação com a dimensão digital.

A centralidade da cultura na economia e no desenvolvimento da sociedade contemporânea está se convertendo numa arma na competição entre os diferentes polos, que está sendo usada de maneiras diferentes pelos diferentes atores.

Por exemplo, se tomarmos a questão da propriedade intelectual, inventada pelo mundo euro-americano para manter sua hegemonia, fechando-se, com ela, o acesso à invenção e à inovação em matéria de tecnologia: esse desenho foi criado para eternizar a dependência do restante do mundo, mantendo-se fechadas a chave as tecnologias de ponta, ou cobrando-se por seu acesso.

Esse é o desenho da primeira globalização, que agora passa a ser questionado, pois a China começa a discutir internacionalmente não só a questão da propriedade intelectual, mas os parâmetros da estandardização tecnológica, isto é, a definição dos padrões pelos quais a tecnologia se dissemina na vida social. Quando se define “padrão” também se define por esta ou aquela opção tecnológica. A Índia entrou nessa discussão e logo os brasileiros terão de fazer a mesma coisa.


Poderia citar um exemplo?

Laymert: Há um exemplo muito claro: ultimamente, temos visto representantes de países europeus, sobretudo ingleses, sugerindo que temos um potencial cultural e artístico bastante grande etc., mas que “não sabemos como valorizá-lo internacionalmente”. E então eles se propõem a “embalar” as coisas convenientemente. Como se dissessem: “Nós fazemos o design para que vocês possam conseguir a valorização da matéria-prima”. Como se não fossemos capazes de perceber que a valorização é tudo, e que nessa valorização o design, a tomada de forma, a configuração, são essenciais.

É até mesmo espantoso o modo como costumam vir aqui para nos dizer que sabem como estabelecer o que temos ou não de bom! Mas tira-se do outro, assim, a capacidade de beneficiar a matéria-prima, como sempre se fez e se faz com as commodities tradicionais. E muita gente por aqui ainda fica deslumbrada quando essas propostas são feitas...

Geralmente, esse comportamento parte de pessoas com cabeças colonizadas, que só consideram bom o que vem de fora, do “Primeiro Mundo”, e ficam embevecidas quando algo de nossa cultura tradicional é reconhecido como digno de ser aceito pela cultura ocidental oficial.

Para essas pessoas, a cultura tradicional de um país jamais poderia ser vista como cultura contemporânea. Eu pergunto: como ainda se pode pensar dessa maneira num mundo de tantos deslocamentos das culturas hegemônicas, num panorama multipolar? Quando nós pagamos para o outro valorizar o que temos, quem ganha é o outro, que transforma nossa invenção em sua propriedade intelectual.


Poderia citar um exemplo concreto no campo cultural?

Laymert: Recentemente, o Museu de Houston publicou o catalogue raisonné de Helio Oiticica, realizou exposições importantes sobre o artista, comprou obras e coleções para o seu acervo. Fez tudo isso com a expertise de especialistas brasileiros e, parcialmente, com dinheiro até da Fapesp.

No entanto, foi explicitado, nesse processo, um empreendimento de valorização de artistas brasileiros e da arte latino-americana que institui o próprio museu norte-americano e suas conexões com o circuito internacional do mercado de arte como a principal referência global sobre o que é ou não é bom na produção da América Latina.

Por que eu considero isso uma operação emblemática da situação atual? Porque, de um lado, vejo nela uma tentativa de reeditar no campo da arte um controle colonial ou neocolonial, para manter, nas ex-metrópoles, as rédeas do processo de valorização, que começa a escapar de suas mãos.

 
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