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Estar ou não na moda não era bem o que norteava o interesse de Mário Pedrosa pelos artistas russos. Para ele o exercício da linguagem é que se constitui em política, ou seja, dessa forma, a arte é política. Daí entendemos Pedrosa ter insistido tanto no valor revolucionário da arte das vanguardas, em contraposição ao trabalho do realismo socialista e também as motivações que o levaram a deslocar-se do Brasil à Moscou para trazer as obras dos russos para a 6ª Bienal.

Alguns possíveis desdobramentos do pensamento de Pedrosa parecem ter-se ocultado com o tempo, talvez pela sombra das mídias, cujo foco geopolítico tem iluminado outros espaços. Mas essa pode ser apenas uma parte da resposta.

Quando sublinho a ausência dos russos na 29ª, sequer me refiro aos artistas russos históricos (das assim nomeadas vanguardas, que mereceram em 2009 uma mostra exemplar no Centro Cultural Banco do Brasil, em três capitais do país). Refiro-me à arte contemporânea realizada por artistas russos que iniciaram seus movimentos no período soviético. E aqui remeto a um dos acontecimentos posteriores a Mário Pedrosa, citado no início deste texto: o de que os artistas soviéticos deixaram de se agrupar sob essa denominação.

Com a ausência dos russos entre os artistas na 29ª, ficamos aqui, no Brasil, sem saber o que tem a dizer -articulando sua própria linguagem- essa geração diretamente conectada com a “grande utopia", a distopia, o realismo socialista e a pós-utopia que atravessaram, em um único século, o seu país!

E, mais, perdemos a oportunidade de repensar essa linguagem (política) em relação ao passado e ainda, privados de perceber o diálogo que suas obras estabeleceriam com as que estão na mostra, o que seria bastante fértil para identificar as instâncias de abordagem do biopoder, da memória da história recente, do belicismo e da criminalização da arte, elementos que demonstram-se fortes na 29ª Bienal.

Dos artistas russos contemporâneos, um dos mais velhos, nascido em 1933, havia sido anteriormente anunciado como participante dessa Bienal, mas não veio. Trata-se de Ilya Kabakov, que já comparecera na 23ª mostra, em 1996, com a instalação "It Will Happen Tomorrow (The Life in the Closet)", tendo retornado para participar da 5ª Bienal do Mercosul, em 2005, junto coma Emilia Kabakov, quando montaram a instalação "O Museu Vazio".

O casal Kabakov, como outros artistas de sua geração, deixou a Rússia depois de ativa participação na criação de grupos de arte não-oficial nos subterrâneos da arte oficial soviética, em Moscou, entre 1970 e 1980. O movimento Sots-Art, do qual Kabakov fez parte, surgiu, neste contexto, como um tipo de arte underground russa, em resposta ao realismo socialista, mas também à pop art, de onde retirou o seu nome "sots" (de "sotsialístskii", que é socialismo, em russo).

Outros artistas -pertencentes a uma geração mais jovem, nascida no final dos anos 1950, mas que também inaugurou suas atividades artísticas no mesmo veio subterrâneo da arte não-oficial moscovita- fazem parte do coletivo AES+F. Criado em 1987, mas ainda assim pautado pelo espírito e práxis da Sots-Art, o AES+F é formado por Tatiana Arzámasova, Liév Iêvzovitch, Evguiêny Sviátski e Vladímir Fridkes.

Em mostra concomitante à Bienal, de 12 de setembro a 7 de novembro, no Paço das Artes de São Paulo, esse coletivo baseado em Moscou, tem um de seus trabalhos expostos. Trata-se de "Last-Riot", ou "O Último Motim", videoinstalação de 2007. O trabalho do AES+F tem percorrido o mundo, e "Last-Riot" foi mostrado na Bienal de Veneza, em 2007.

O grupo se destaca por uma produção que transita por várias competências no campo da imagem: desenhos, esculturas, instalações, performances, fotografias e uma crescente produção audiovisual. Mesmo "Last-Riot" não se restringe apenas a esta videoinstalação, pois é composto de um grande conjunto de esculturas, fotografias de grande formato e desenhos. A exemplo dos artistas mais antigos da Sots-art, o AES+F constituiu-se não somente como força de resistência, mas como reação à opressão interna -russa e soviética- e como instância de reflexão, também reativa, da arte externa.

Ainda que não mostrado no espaço expositivo da 29ª Bienal, a presença do AES+F na cidade, em período semelhante, permite que o público atento afine e complemente sua percepção entre construções artísticas de distintas esferas culturais e geopolíticas, em torno da arte contemporânea.

Ressalte-se ainda que as acusações de patologia e de possíveis crimes, dos quais tem sido alvo a arte realizada em nosso tempo, possui precursores bem recentes. Hitler e Stalin foram mestres em apontar desvios patológicos em obras de arte e, invariavelmente, criminalizavam e puniam seus autores.

Aparentemente esse é um comportamento que não atinge apenas os senhores de poderes totalitários e também não se restringe ao passado. Boa parte das obras da 29ª Bienal parecem bons "captadores" e propositores dessa problemática. Os trabalhos do AES+F, por sua vez, sugerem, na articulação política inerente a sua construção, que, se há crime, a arte não se defende no espaço dos tribunais: o seu exercício de poder continua se dando no tempo.

Para concluir, refaço agora a provocação inicial, em outros termos: se Pedrosa forjou o conceito de arte pós-moderna, por perceber que não era mais possível aplicar à arte do final dos anos 1970 os mesmos parâmetros utilizados para distinguir a arte moderna, quais seriam os possíveis desdobramentos de seu pensamento, hoje, depois que as últimas bienais nos demonstram que os dados por ele lançados sobre o futuro do artista continuam em jogo?


Publicado em 3/11/2010

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Neide Jallageas
É doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, com tese sobre o cinema de Andriêi Tarkóvski, e pós-doutoranda (Fapesp) junto ao Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura Russa (FFLCH/USP).  Entre suas pesquisas, investiga diálogos e reverberações entre as artes russa e brasileira, principalmente conexões entre a produção de Hélio Oiticica e as vanguardas soviéticas , junto ao Grupo de Pesquisa HO e o Programa Ambiental, da Faculdade Santa Marcelina.

 
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