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Lembro-me no dia da abertura antecipada da Bienal, logo após a apresentação lotada do artista albanês Anri Sala, no dia 10 de março: estávamos todos no bar em frente ao teatro (um epicentro de vértices formando uma espécie de triângulo isósceles; situação geográfica em perfeita consonância com a intenção do Capacete de promover encontros dos mais diversos, comuns, no tecido da cidade).

O bar, que hoje está sendo reformado para se tornar uma agência do Banco do Brasil, acomodava imigrantes nigerianos, a elite intelectual paulistana e de outras capacidades, artistas e curadores nacionais e internacionais, putas e garçons.

Em dado momento –como dita a tradição nesta cidade– o diretor do programa foi abordado na eminência da estratificação do grupo para que fossem jantar num lugar “mais apropriado para os convidados VIPS e internacionais”.

A resposta veio pronta e imediata: “Mas nem todos presentes podem pagar 100 paus por um jantar... Vamos aqui mesmo no restaurante da Praça Roosevelt que deu a todos um voucher com desconto de 20%. E olhe para os artistas, para as pessoas: estão todos felizes!”.

Estávamos felizes, e isso bastava. Qualquer baliza que ultrapassasse o paradigma da troca horizontal e fácil, do inusitado e do bem-estar comum entre todos os presentes –não-importasse-quem- era naturalmente alienígena àquela situação. O grande lance é o encontro, o contato, a conversa. Sem hierarquias; ou com elas, para aqueles que escolhessem adotá-las numa escala pessoal, contanto que fosse naquele lugar.

Tudo bem. Somos só seres humanos, recortados e limitados; ambiciosos para o bem ou para o mal (quando é que conseguiremos sair do binário católico-digital, ex-dicotomia, ex-dialética? A matemática, há milênios, nos mostra o padrão do infinito, a curva do π (pi), apenas o provável da probabilidade quântica, o caos, mas, no entanto, nas humanidades, ainda adotamos a “arte e política”, “a riqueza e a oportunidade”, a direita e a esquerda, o passado e o futuro... e o presente? O presente, acredito, está na escala pontual e diminuta das conversas no café da manhã na Casa da Denise; na fazenda dos meninos; no sabático; no assistir canais de TV aberta; na busca por um coco gelado no Parque do Ibirapuera e, de repente, perceber que a 29ª Bienal está em cartaz, adentrá-la e, ignorantes de sua proposta curatorial, percorrê-la sem um objetivo definido, apenas senti-la, gozá-la, sem ter a demanda de olhá-la com uma defesa crítica para depois cumprir o dever de escrever um texto a seu respeito...).

Assim, não é com honra, pois –como diz meu amigo, também amigo da minha amiga que me pediu o texto acima– a honra sempre carrega um resquício de poder e portanto pode ser imerecida; é com Alegria que em nome do Capacete agradeço a Agnaldo Farias, Moacir dos Anjos e a toda a equipe curatorial, editorial e de produção da 29a Bienal de São Paulo, e sobretudo à administração do Teatro de Arena, pela oportunidade de poder ter gerado entendimentos, aproximações, constrangimentos, faíscas, lançamentos, debates, performances, tédios e amizades nesse percurso entre erros, acertos e acertos. A Alegria é, por definição, sempre política.


Publicado em 3/11/2010

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Daniela Castro
É escritora e curadora. Colabora com o Programa do Capacete para a 29ª Bienal.



 
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