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BIBLIOTECA VIRTUAL

Autopublique seu livro
Por Fábio Fujita

Novas editoras brasileiras se especializam na difusão de obras na internet e na publicação sob encomenda

Foi numa viagem em 2007 que Marcos Passos, então com 18 anos, teve o insight. Ao esquecer de incluir na bagagem o livro que estava lendo, se deu conta de que, se a obra estivesse disponível na internet, ele não precisaria comprar um novo exemplar: poderia continuar a leitura na tela de seu inseparável notebook.

Nascia, então, a ideia da Bookess, a princípio um site que se propunha a ser uma espécie de biblioteca virtual a disponibilizar gratuitamente conteúdos textuais diversos –produção literária de internautas, teses acadêmicas, obras clássicas de domínio público etc. A página começou a ter muitos acessos e logo pensou-se na possibilidade de transformar o site numa editora.

Um grupo de investidores chamado Floripa Angels deu o respaldo necessário e, em maio de 2009, a Bookess iniciou a operação de publicações impressas. No lugar da denominação “editora virtual”, os executivos da empresa preferem chamar a empreitada de “rede social que edita livros sob demanda”.

Tudo porque a dinâmica de funcionamento depende essencialmente dos internautas. “A gente incentiva a interação entre escritores, leitores e até editoras que queiram fazer parte desse ambiente”, explica Marcelo Cazado, diretor da Bookess. “A ideia é que o livro seja feito com a intervenção, as considerações e as opiniões dos próprios leitores”, completa.


Novos cenários

Embora seja uma coisa antiga, a autopublicação tem passado por profundas modificações na última década. As condições e ferramentas disponíveis hoje no mercado para um escritor aspirante produzir e lançar a própria obra são bem mais favoráveis.

A questão dos custos, outrora determinante, quando se pensava na (ou se desistia da) publicação autônoma, não assusta mais, hoje em dia. A chancela “on demand" ("sob demanda”, ou seja, publica-se o livro conforme o número de compradores) elimina a necessidade de se pagar por uma tiragem mínima. “Até pouco tempo, o autor iniciante poderia ser patrocinado por uma editora ou arcar com os custos da sua publicação em valores que variavam de R$ 5 mil a R$ 20 mil. Isso não fazia sentido para nós”, diz Ricardo Almeida, diretor do Clube de Autores, outra editora da área de autopublicação, criada em 2009.

Por “nós”, ele se refere aos outros sócios, todos autores, que enfrentavam a dificuldade de lançar um livro no mercado editorial brasileiro. “Em tempos de web e com tanto conteúdo sendo produzido, era inadmissível que a única maneira efetiva de ser publicado fosse com um alto custo”, afirma.

O Clube de Autores foi o primeiro site brasileiro a oferecer essa condição, permitindo que o serviço da publicação em si seja inteiramente gratuito. “Aqui, o autor não paga nada para publicar e, se não quiser, não precisa comprar um exemplar sequer do seu livro. E, se apenas uma pessoa comprar, produziremos um exemplar”, assegura Almeida, a respeito da produção "on demand".

Para usufruir dessa gratuidade, no entanto, é preciso que o material seja entregue à editora já devidamente paginado, pronto, em formato pdf.

Foi isso que atraiu o escritor de pseudônimo Rob Gordon –inspirado no protagonista do livro "Alta Fidelidade", do britânico Nick Hornby – a materializar uma seleção de suas pérolas blogueiras num livro físico, que batizou de "Anônimos e Urbanos". “A grande vantagem do sistema 'on demand' é não ter custo para o autor. Eu monto o livro e o site disponibiliza para venda, impressão e entrega. O processo funciona para cada cópia vendida, o que elimina o encalhe”, explica Rob. Mesmo não sendo exatamente um especialista na área de design gráfico –na verdade, é jornalista–, ele próprio paginou o livro e trabalhou em todo o acabamento, a partir de um 'template' semipronto (há muitos modelos disponíveis na internet). "Anônimos e Urbanos" é o primeiro livro publicado por Rob Gordon.

“Eu precisava de algo que pudesse ser feito de forma ágil e, principalmente, em horários também não tradicionais. Então, 80% do livro –e não me refiro apenas aos textos, mas ao processo todo– foi feito de madrugada. Ou seja, pude montar meus horários, meus prazos; isso contou muito”, conta. Mas, no caso de um autor que queira uma diagramação ou uma capa profissional, ou ainda um serviço especial, como revisão, tanto o Clube de Autores como a Bookess –que trabalham com sistemas similares– os oferecem à parte.


Fetiche do impresso

Num tempo em que muitos apocalípticos falam da morte iminente do livro, é curioso observar que o mercado da autopublicação segue bastante aquecido. E o espaço oferecido na internet pelos blogs para a aparição de novos escritores, como no caso de Rob Gordon, não parece ter diminuído a ambição de publicar pelas vias tradicionais.

Almeida, do Clube de Autores, lembra que, no mundo, a publicação de livros impressos sob encomenda cresce em ritmo superior ao de e-books. “Apenas em 2009, houve um crescimento de 181% no total de títulos impressos publicados sob demanda nos Estados Unidos. Atualmente, esses títulos representam 73% do mercado americano”, diz citando a agência americana Bowker.

Outro aspecto é que, para quem escreve, sempre há de existir o fetiche do texto impresso, como reconhece Rob Gordon. “Escrevo, primeiramente, porque gosto de ler, e fui criado lendo no papel. Ver o que você escreve ser impresso, ganhar o mundo do livro, é uma satisfação pessoal muito grande”, diz.

A carioca Singular Digital, que também atua com "self publishing" (autopublicação) _e tem como slogan: “livros esgotados e estoque nunca mais”– realizou em setembro a segunda edição do concurso BlogBooks. “Teve uma recepção grande na blogosfera brasileira: em dois dias, já havia mais de 400 inscritos”, conta Claudio Soares, e-publisher da empresa. Dezessete blogueiros vão passar da web para o papel, nas mais diversas categorias, que incluem: arte e cultura, ecologia, esportes, humor, gastronomia, religião, sexo, universo masculino e feminino.

O Clube de Autores também promoveu um concurso em julho, do qual só podiam concorrer obras lançadas pela editora. O vencedor, Aurélio Simões, autor do thriller "Sede de Vingança", recebeu 50 exemplares do livro e contou com lançamento na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty.

Entre os que mais recorrem à autopublicação, predominam, na Bookess, os escritores amadores entre 25 e 35 anos –Rob Gordon, por exemplo, encaixa-se aí: tem 35. Já no Clube de Autores, a diversidade é a marca. “Temos romancistas, poetas, homens e mulheres de negócios”, diz Almeida.

Os números são reveladores da alta procura. O Clube de Autores já publicou 5 mil títulos –com uma média de 15 a 20 novas obras por dia. A Bookess, por sua vez, já lançou 3 mil títulos, com uma média de 150 livros por mês, ou 5 por dia.


Liberdade vs. invisibilidade

O que também não pode ser ignorado é que, na autopublicação, o autor conta com uma autonomia sobre a obra que, numa editora convencional, talvez não tivesse.

Talita Nozomi, autora de "Os Óculos do Leão", livro infantil que traz o passo a passo de como fazer origami, chegou a procurar a Companhia das Letrinhas (braço infantil da Companhia das Letras), antes de fazer a opção pela publicação personalizada.

“Sempre acreditei muito no projeto desse livro, mas queria fazer do meu jeito. Não gostaria que ninguém falasse que deveria mudar o texto ou cortar a imagem que pensei para a cena x. Para isso acontecer, eu deveria ser não só autora, mas também dona do livro”, diz Talita, lembrando que as ilustrações são da tia dela, Juliana Kasuya.

Talita, no entanto, esquivou-se de fazer pelo sistema "on demand", porque queria que sua obra fosse comercializada em livrarias. Como um livro sobre origami necessariamente tem no aspecto visual o principal atrativo, ela encomendou o projeto gráfico a uma empresa especializada (Estúdio Mezanino) e pagou do próprio bolso uma tiragem de 2 mil exemplares.

Para ver os livros nas prateleiras, estabeleceu um acordo com a editora LCTE. “Mas ela não opinaria em nada quanto ao conteúdo ou à forma do livro”, afirma.

Talita diz ter ficado plenamente satisfeita com o resultado e que a única grande perda por não ter sido publicada por uma grande editora, como a Companhia das Letras, diz respeito à divulgação. “Ela teria sido muito maior, não tenho dúvida, se tivesse publicado por uma editora de prestígio. Mas acredito que, aos poucos, o boca a boca será muito bom também”, almeja.

Se tem liberdade, o autor entretanto padece da falta de visibilidade quando opta pela autopublicação, por não estar vinculado a uma grande editora e não contar com um forte aparato de divulgação. Sabendo disso, a Clube de Autores oferece cursos gratuitos de divulgação e parceria com o site Buscapé para a exposição das obras. O próprio site da editora traz resenhas dos títulos que lança e promove redes sociais, para a interação entre autores e leitores.

A Bookess segue na mesma direção. “Nesse modelo, o marketing cabe muito ao autor. Ele precisa interagir nas comunidades virtuais, para ter feedback, avaliações sobre o seu livro”, diz Cazado.

Caça-talentos

A Mesa do Editor segue uma linha de trabalho diferente. Ela não publica: opera como uma vitrine da produção escrita, de modo a aproximar os autores das editoras convencionais –do mercado brasileiro e também do exterior. Seu site agrega quase 28 mil textos, de mais de 20 mil autores cadastrados. “É como um ‘Google’ de obras inéditas”, define Pedro Drummond, administrador da Mesa. Para pescar talentos, agentes literários e editoras pesquisam no site através de palavras-chave, gêneros e currículo do autor, entre outras formas.

A empresa surgiu a partir de uma experiência pessoal de Drummond, que também é escritor. No segundo semestre de 2005, ao finalizar o thriller "Lemniscata – O Enigma do Rio", ele iniciou a labuta para publicar o livro e detectou, então, dois problemas.

“O primeiro foi que, por vezes, eu recebia de volta o livro que havia enviado à editora ainda fechado, no mesmo envelope em que o remetera, com uma carta de recusa. O segundo foi que a resposta das editoras demorava muito, entre 3 e 12 meses. Era clara a necessidade de uma ferramenta que trouxesse agilidade nesse relacionamento”, diz.

A Mesa do Editor já viabilizou que cerca de 800 obras saíssem das trevas das gavetas. O usuário paga uma taxa mensal para que seu (s) texto (s) fique (m) em permanente visibilidade para 5,4 mil editoras, de dez países diferentes (de língua portuguesa e espanhola). Em breve, editoras de língua inglesa também serão incorporadas. Curioso é que o livro de Drummond, "Lemniscata", acabou sendo aceito pela editora Objetiva, após 12 meses de espera, e foi publicado em 2007.


O futuro é digital

Quando a Bookess foi concebida, os investidores já projetavam que, a médio prazo, a leitura sofreria o impacto das novas tecnologias –e a empresa veio preparando o terreno para atuar, também, nas searas futuras. “No mercado da música, houve toda uma revolução em função da música digital, com o formato mp3. A mesma coisa ocorreu com os vídeos, com destaque para o Youtube. Já em relação ao livro, não havia ninguém atuando nesse mercado dos e-books (no Brasil)”, recorda Cazado.

Desde este mês, o cliente da Bookess já conta com a possibilidade de publicar em formato digital, se assim o preferir. O Clube de Autores também projeta atuar com a nova mídia dos e-books dentro dos próximos meses.

Ao que parece, o mercado livreiro ainda parece tatear no escuro em relação ao e-book, tal como as videolocadoras se comportaram num primeiro momento com a chegada do DVD. Mas, em geral, os executivos do setor sabem que, cedo ou tarde, todo o modelo de negócios será afetado.

Drummond, da Mesa do Editor, reconhece que o mercado do livro de papel vai perder força. “A conveniência de um leitor eletrônico não pode ser desprezada, pela portabilidade, capacidade de pesquisa e facilidade de aquisição de obras”, diz. A própria natureza dinâmica da tecnologia pode criar novas possibilidades na leitura: “Conteúdos animados, livros colaborativos, venda de capítulos isolados ou até mesmo o aluguel de livros”, imagina Cazado.

Soares, da Singular Digital, considera que as diferentes plataformas podem convergir e não se anular. “Se você compra um livro de papel, por que não pode levar o e-book de graça? Você compra um objeto ou compra o conteúdo, a informação?”, questiona. “O conceito de leitura está sendo redefinido.”

 
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