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a.r.t.e.
ARGENTINA

Luz nas trevas
Por Denise Mota

Em Buenos Aires, o Teatro Ciego apresenta peças no escuro, encenadas por atores com deficiência visual

Em um casarão centenário do Abasto -um dos recantos mais tangueiros de Buenos Aires-, múltiplos “encontros às cegas” acontecem diariamente, e a expressão guarda muito mais surpresas do que se pode imaginar. A região histórica -onde se criou Carlos Gardel, por exemplo- abriga um espaço onde “enxergar” não tem nada a ver com o sentido tradicional do verbo, e onde a escuridão é a brecha para que outros sentidos venham à tona.

Dessa premissa partem todos os espetáculos e atividades docentes do Centro Argentino de Teatro Ciego. Ciclos de música, tango, canto, peças de teatro e até degustações são realizados com a mais absoluta ausência de luz e com um alto porcentagem de profissionais cegos envolvidos não só na produção e no desenvolvimento das propostas como em sua execução cotidiana.

O objetivo é “formar pessoas cegas ou que tenham comprometida sua capacidade visual em atuação, canto, perfumaria etc. e integrá-las ao trabalho lúdico de entretenimento que é o teatro cego”, define a Trópico Gerardo Bentatti, um dos fundadores do lugar, aberto há dois anos.

Não se pode esquecer que em Buenos Aires viveu um dos mais ilustres deficientes visuais do século 20, Jorge Luis Borges, que disse: "A cegueira não foi para mim uma desgraça total. Não deve ser encarada pateticamente. Trata-se de um outro modo de vida e de mais um dentre os tantos estilos de vida dos homens" (na conferência "A Cegueira", do livro "Sete Noites").

Além de obrigar seus espectadores videntes a desenferrujar outras habilidades sensoriais, o centro cultural elenca entre suas diretrizes fundamentais o compromisso de fomentar a igualdade entre todos. Por conta disso, os espetáculos são concebidos sempre de forma cooperativa. “No Teatro Cego se apagam as diferenças entre as pessoas, diferenças que são apenas aparentes, percebidas somente através da visão”, declaram os criadores na espécie de declaração de princípios da instituição, presente na página do espaço na internet (veja link ao final deste artigo).

Trabalhar sem ter de confiar nos olhos traz uma série de vantagens, segundo afirma Bentatti, também produtor geral do centro. “Como ator experimento com frequência momentos de muito relaxamento, tanto que às vezes até me esqueço de dizer minhas falas”, diz, entre risos. “Mais não posso contar, é necessário estar aqui para sentir. Se conto, sou como um mágico que mostra os truques”, brinca.

Bentatti trabalha com atores cegos desde 2001, quando criou a companhia Ojcuro. Depois de mais de sete anos ininterruptos em cartaz com “La Isla Desierta”, de Roberto Arlt, decidiu -ao lado de Martín Bondone, dramaturgo, ator e hoje diretor do espaço- alugar um local especificamente para desenvolver outras obras do estilo.

Uma das iniciativas do Teatro Ciego que mais vem chamando a atenção em Buenos Aires é o show-degustação “A Ciegas con Luz”. Às nove da noite de quintas, sextas e sábados, um espetáculo de piano e voz –classificado como “excelente” pelo diário argentino “La Nación”- passeia por distintos estilos musicais, enquanto a plateia se aventura por um cardápio elaborado especialmente para ser apreciado sem ser visto.

Os comensais entram no restaurante do teatro em grupos de quatro pessoas, em fila e unidas pelos ombros. Guias desse trem de “cegos de primeira viagem” -com espectadores prenhes de ansiedade e expectativa-, os funcionários do espaço descrevem, já nos primeiros momentos de escuridão, de que maneira está organizada a refeição e qual é a disposição dos pratos.

A explicação serve para diminuir o estranhamento dos minutos iniciais, mas as indicações se detêm ao essencial: “Vocês vão encontrar uma típica mesa quadrada de bar. O jantar estará servido: são cinco pratos, são cinco passos; o primeiro da esquerda é a entrada, e o último à direita é a sobremesa. Tudo é comestível, com exceção do copo que estará no centro, bem à frente de seus assentos. No centro da mesa também há um recipiente para pães. Tanto o recipiente como os pães são comestíveis. O garçom estará sempre perto de vocês, para o caso de desejarem pedir bebida ou algo mais”, dizem.

A partir daí, paladar, tato e olfato se exercitam à mesa, enquanto os ouvidos reconhecem o ruído de uma bicicleta, os acordes de “La Vie en Rose” e a jobiniana “Corcovado”. Os olhos descansam. “É uma ideia que tinha há muito tempo e que pudemos concretizar graças a esse espaço. O menu, o criamos entre todos e com um profissional da área, que é nosso chef”, afirma Bentatti.

O cardápio muda a cada seis meses porque o objetivo da proposta, comenta o produtor, é que não se perca a surpresa renovada a cada iguaria servida. “Trabalhamos para ter várias texturas e sabores que levem as pessoas a sensações distintas. O menu traz uma série de carnes e verduras com temperos que tentam confundir o espectador, já que não revelamos o que foi servido até que termine o show.”

Para o público vidente, o inusitado emerge a todo momento, e as reações são tão diversas quanto facilmente perceptíveis, segundo Bentatti. “O que acontece de mais imediato em quem vem aqui pela primeira vez é ficar mudo ou começar a rir sem parar. Entre o público cego nunca notei nenhuma reação extrema”, conta. “Acho que as pessoas riem por conta do momento lúdico que estão experimentando e pelo inusitado da proposta. Também porque sentem uma liberdade suprema e, sobretudo, porque estão descontraídos.”

Entre os novos projetos em preparação pelo centro estão um workshop de massagens, um ciclo de panificação e a criação de uma rádio, “já uma realidade”, comemora Bentatti. “Também estamos prestes a estrear ´El Crucero` (o cruzeiro), uma comédia de erros feita de música e desbunde, tudo em total escuridão, como é característico de nossas produções.” O cruzeiro dos visionários do Abasto zarpa em 15 de novembro.


link-se

Teatro Ciego - http://teatrociego.org


Publicado em 23/10/2010

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Denise Mota
É jornalista. Vive em Montevidéu.

 
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