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Como você definiria a sua “voz poética”? Qual é a importância da linguagem coloquial para a sua poesia? Que tipo de olhar você lança sobre o mundo e sobre as coisas, por meio da poesia?

Corsaletti: Eu não teria escrito nenhuma linha, se eu não tivesse lido os modernistas. Foi o que me deu vontade de escrever. Em alguns momentos, pensei que fosse caminhar para outros lados, escrever coisas mais herméticas, mais difíceis de entender. É o que eu sou. Não consigo ver as coisas de outro jeito. Minha visão de mundo passa para a minha linguagem. Tento chegar à verdade da coisa.

O que eu vejo do mundo é o que eu escrevi e me permitiu ver. Não só para pessoas, mas para mim também. O que você escreve começa a determinar o que você é. Não como uma prisão, mas como uma libertação. Faço um poema e depois vejo o que estou pensando. De certa forma, é um espelho mental.


Qual é o desafio mais difícil para um poeta hoje, em particular no Brasil?

Corsaletti: O mais difícil é se sustentar, porque é ilusão achar que se ganha dinheiro com poesia. Então, você tem que trabalhar e dar conta dos compromissos. Mas, para escrever poesia, precisa dos momentos de ócio. Por isso escrevo de manhã e trabalho à tarde.


Em seus poemas, você sempre evoca sua cidade natal, Santo Anastácio, e sua família. Em determinado poema de "Esquimó", você diz que sua família pediu para não ser citada nos poemas. Isso ocorreu de fato? Poderia dizer por quê?

Corsaletti: Aconteceu, mas exagerei no poema. Não foi nada grave. Não sei exatamente como as pessoas se sentem quando elas se reconhecem num texto meu. Não posso me preocupar com isso, porque seria o fim da minha literatura. É tudo ficção. Mesmo que eu cite o nome da pessoa, não é ela, mas o personagem que eu criei.


Você vive em São Paulo desde 1997. O que pensa da cidade? Você se sente “em casa”?

Corsaletti: Adoro São Paulo. Toda vez que saio daqui fico com saudades. Acho muito legal as relações que criei. Meus melhores amigos estão aqui. Todo dia conheço gente interessante, embora a rotina seja estressante e o trânsito, infernal.


Que autores gosta de ler atualmente? O que está lendo?

Corsaletti: Agora estou lendo os contos de Raymond Carver, de quem gosto muito. Acabei de ler os poemas novos da Angélica Freitas, que são ainda melhores do que os anteriores.


Você trabalha também como editor-assistente na Editora 34. No que consiste esse trabalho? O fato de editar livros interfere de alguma maneira no que você escreve?

Corsaletti: Faz cinco anos que trabalho na Editora 34 com pessoas que sabem muito bem o português. Entre eles, Alberto Martins, que é poeta, editor e dramaturgo. Virou meu parceiro. Tudo que escrevo eu passo para ele. Ele me ajudou em tudo para fechar o “Esquimó”. Tanto ele, quando Cid Knipel, revisaram meus outros livros, como o “King Kong e Cervejas”, que nem li antes de publicar.

Acho que o livro morre quando você publica, mas tem o lado bom, porque você é obrigado a fazer outras coisas com as quais se identifique. A prosa é ruim de ler porque é uma coisa imperfeita e daria para modificar de muitas maneiras, tirar uma frase, trocar os adjetivos, alterar a pontuação. Mesmo quando pego um defeito num poema antigo, não sei arrumar. Eu olho e penso que não faria mais dessa forma, mas não sei como resolver, porque é algo muito curto, são três ou quatro frases combinadas de um certo jeito.

Essa função me permite criar um distanciamento crítico do meu texto. No primeiro ano, tinha hora em que não conseguia escrever, porque parecia que tudo que eu ia fazer era ler e revisar. Hoje, já não confundo mais as coisas. Isso me ajuda a reler o texto e achar problemas com mais facilidade.


Quanto tempo você dedica à sua própria literatura? Você trabalha diariamente nela?

Corsaletti: Com a poesia, não tenho nenhum ritual. Já com a prosa sou muito disciplinado: só escrevo de manhã, das seis às oito. Não sei escrever prosa durante o resto do dia. Funciono melhor de manhã. Geralmente não estou preocupado com nada, ninguém liga. Eu não tenho internet em casa por isso também. Hoje, por exemplo, cheguei ao trabalho e tinha dois emails que acabaram com meu humor. Se eu tivesse que escrever depois disso, não escreveria. Então, eu acordo, escrevo e vou trabalhar.


O que está escrevendo no momento?

Corsaletti: Estou escrevendo crônicas que saem quinzenalmente na “Folha de S.Paulo”. Levo de três a quatro dias para fazer cada uma. Estou também na metade de um livro de contos e fazendo um livro de poemas. Ainda não têm previsão para sair. Vou começar a fechar esses livros daqui um ano ou dois.


Se você fosse salvar três poetas do século 20 de um naufrágio, quais deles colocaria no seu barco?

Corsaletti: Manuel Bandeira, Apollinaire e Maiakovski.


Você publicou, ainda, dois livros infantis –“Zoo” (2005) e “Zoo Zureta” (2010). Como surgiu o projeto para essas obras? Tem interesse em continuar escrevendo para o público infantil?

Corsaletti: O primeiro, “Zoo”, fiz como uma brincadeira para o filho de uma ex-namorada. Entreguei a ele o manuscrito. Depois, escrevi mais uns poemas e resolvi publicar. No ano passado, nasceu minha sobrinha, que é a primeira criança da família, e fiz um livro pra ela com a mesma estrutura –são 30 poemas, com três versos cada um. Cada um é sobre um bicho.

É uma delícia escrever para criança, o compromisso é dar risada, conquistar a criança. Mas não quero fazer livro infantil só para ganhar dinheiro.


APEDREJEMOS AS ADÚLTERAS
Poema de Fabrício Corsaletti

vamos sequestrar as mulheres do Irã
enquanto seus maridos dormem bêbados
depois da última noitada
vamos nos casar com as mulheres do Irã
e criar seus filhos —
vamos deixar os homens do Irã sozinhos
batendo punhetas nervosas
ou fodendo uns aos outros —
vamos amar as mulheres do Irã
vamos ser traídos pelas mulheres do Irã
vamos perdoar as mulheres do Irã
e ser felizes com as mulheres do Irã

vamos sequestrar as mulheres do Brasil


Publicado em 22/10/2010

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Carolina Ferreira
É jornalista.

 
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