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entrevista
LITERATURA

Um esquimó na Paulicéia
Por Carolina Ferreira

O escritor Fabrício Corsaletti defende o humor como antídoto à cafonice e diz que não tem "preconceito contra a poesia engajada"

“O que eu vejo do mundo é o que eu escrevi e me permitiu ver. O que você escreve começa a determinar o que você é. Não como uma prisão, mas como uma libertação." É assim que Fabrício Corsaletti, considerado uma das principais vozes poéticas da nova geração, tenta definir o olhar que lança por meio de seus versos.

Neles, misturam-se melancolia, humor despretensioso, coloquialidade, ícones do mundo pop, como Bob Dylan e Eva Green, sua cidade natal (Santo Anastácio-SP), seus poetas favoritos (como Apollinaire e Angélica Freitas) e sua musa, que inspirou o poema “Seu Nome”, do seu novo livro, “Esquimó” (Companhia das Letras, R$ 31), escolhido o melhor deste ano pelo 6º Prêmio Bravo! Bradesco Prime de Cultura.

Sem ritual de trabalho para a poesia, Corsaletti tem uma rotina rigorosa quando o assunto é prosa. Acorda diariamente às 6h e escreve até a hora de ir à Editora 34, onde trabalha como editor-assistente. Nesse período em que o telefone não toca e os e-mails não chegam –o escritor não tem internet em casa–, a inspiração corre livremente. Ele escreve numa mesa de madeira, na companhia de Rimbaud, Bandeira, Raymond Carver e Dostoievski, que o observam em fotos na estante. Na parede da sala, cartazes típicos da arte urbana paulistana estão do lado de uma reprodução de um quadro de Bob Dylan.

O malabarismo entre os horários rígidos da prosa e a libertação da poesia rendeu os livros de poemas “Movediço” (2001), “O Sobrevivente” (2003), “Estudos Para o Seu Corpo” (2007), que reúne os dois primeiros livros e outros dois inéditos, e o mais recente “Esquimó” (2010). Corsaletti publicou, ainda, o livro de contos “King Kong e as Cervejas” (2008), o romance “Golpe de Ar” (2009), escrito numa temporada em Buenos Aires, e os livros infantis “Zoo” (2005) e “Zoo Zureta” (2010).

Trópico conversou com o poeta em seu apartamento, localizado numa rua charmosa de Pinheiros, em São Paulo. “No mundo em que a gente vive, em que a arte é impura e a fala é cheia de linguagens que se cruzam, acho que o humor ajuda a chegar numa coisa que de outro jeito soaria ultrapassado e cafona”, afirma o escritor na entrevista a seguir.

Ele também fala sobre o poema "Apedrejemos às Adúlteras", que escreveu recentemente em defesa da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada à morte por adultério. "Não tenho nenhum preconceito contra a poesia engajada", conta.

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Em “Esquimó”, há um poema chamado “Hoje Foi Minha Última Sessão”. Durante quanto tempo você fez análise? Que influência ela teve no seu processo criativo?

Fabrício Corsaletti: Fiz psicanálise por nove anos, com a mesma analista. Saí e escrevi esse poema. Fiquei um ano sem fazer e agora voltei. Não sei nada sobre psicanálise, mas sei que ela me ajuda a ficar mais livre para fazer as coisas que quero.


Como é o seu processo de criação em prosa e em poesia? Não acontece de criarem um curto-circuito?

Corsaletti: Sem romantizar ou falar que é inspiração, não tenho nenhuma disciplina com a poesia. Em geral, tem a ver com uma rotina, não com um horário. Quando viajo, acho difícil escrever, mas quando estou no trabalho sempre surgem ideias, versos ou coisas que consigo visualizar de forma literária. Aí, anoto e tento resolver um dia ou dois após.

Nem sempre dá certo. Tem períodos em que escrevo bem, outros em que escrevo mal. Quando estou bem, faço um poema; depois de dois dias, faço outro. Quando estou escrevendo mal, às vezes faço dez poemas, que, depois, jogarei fora. Se não jogar fora, não dá. A quantidade de coisa ruim que qualquer escritor faz é muito grande.

Quando estava fazendo a segunda versão do romance “Golpe de Ar”, fiquei muito tempo sem escrever poesia, por estar muito dentro do livro. Mas, depois, quando entendi o que queria e comecei a trabalhar num ritmo mais sossegado –durante três ou quatro dias da semana–, passou a ser mais fácil fazer poemas. Da mesma forma, quando estou fazendo muita poesia, fico muito tempo pensando apenas nos poemas e escrevo menos prosa.


Você prefere escrever prosa ou poesia?

Corsaletti: Tenho preferência pela poesia. Tenho mais intimidade com a poesia. A prosa tem alguns problemas de lógica, muito racionais, como: se usei aqui “para”, mas a frase agora ficou melhor com “pra”, será que devo padronizar o livro inteiro ou não? Se usei vírgula neste caso, no outro devo usar também, mesmo se o ritmo do texto é outro?

Tenho que pensar sobre essas coisas. Com o poema não, é um negócio pequeno, com uma página ou duas. Acho mais fácil lidar com poesia do que com prosa.


Um bom poeta pode ser um bom prosador, no sentido de ser um bom romancista ou contista? Não há muitos casos na história da literatura de gente com peso equivalente nos dois campos literários, como Victor Hugo, Borges e Oswald de Andrade...

Corsaletti: Acho que um bom contista pode ser também um bom poeta. Não vejo problema nenhum. Tenho alguns exemplos: o Raymond Carver é um grande contista e um puta poeta. Tem também o Mário e o Oswald de Andrade. Anton Tchekhov era um grande contista e um grande dramaturgo.


Como poeta, quais são suas influências decisivas? E como prosador?

Corsaletti: Tem autores de que gosto bastante, mas não posso dizer que sou influenciado por eles. Em poesia, os dois mais importantes da minha formação são Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Mas também tem Ferreira Gullar, Vinícius de Moraes, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Apollinaire, Cesar Vallejo, Pablo Neruda, Bob Dylan, Chico Buarque, Caetano Veloso e Rimbaud, que talvez seja meu poeta preferido.

Acho que o que me deu vontade de escrever prosa e me ajudou muito foi o Julio Cortázar. Outro que me ajudou por onde começar foi o Ernest Hemingway. Gosto também de Tchekhov, Dostoievski, Carver, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector _“Laços de Família” foi um livro importante para mim. Gosto ainda do Dylan Thomas e de seu livro “O Retrato do Artista Como Jovem Cão”.

Em geral, gosto muito dos russos do século XIX e dos americanos do século XX. Na prosa, não sei se é visível isso, mas quem me ajudou a escrever pelo menos um conto ou trechos do “Golpe de Ar” foi o cineasta Federico Fellini.


Qual é a sua avaliação da poesia brasileira atual? O que mais te entusiasma nela?

Corsaletti: Gostei muito de “Sanguínea”, de Fabiano Calixto, e “Dobradura”, de Alice Sant'anna, que achei um ótimo livro de estreia. Para mim, a melhor poeta de agora é Angélica Freitas. Acho que ela me influenciou. Tem alguns poemas que eu não teria feito se não tivesse lido a obra dela. Ficamos amigos depois que eu fiquei fã dela. Mandei o “King Kong e Cervejas”, livro de contos, quando ela estava morando na Holanda. Ela me escreveu agradecendo, e a gente começou a trocar e-mails por mais ou menos um ano até se conhecer pessoalmente. Toda vez que ela vem a São Paulo nos encontramos.


Os poemas que compõem "Esquimó" foram escritos ao longo de três anos. Em que momento você percebeu que eles tinham afinidade entre si para comporem um livro? O que apontaria como sendo um elemento comum a esses poemas?

Corsaletti: Em geral, eu vou escrevendo e começo a perceber uma semelhança de tom e temas que se repetem. Quando fecho o livro, tenho que tirar o que está muito isolado e que percebo estar destoando. Então tirei uns quatro ou cinco poemas quando fechei o “Esquimó”. Escrevo muita coisa que depois acabo jogando fora. Eu não guardo nada. Só guardo o que eu acho que está pronto.

Quando comecei a escrever os poemas de “Esquimó”, um foi puxando o outro. O livro tem uns 45 poemas e os últimos 20 que escrevi foram feitos em três meses. Tem isso também, quando começa a formar uma cara, saem alguns poemas de brinde.

Percebo que acabei um livro quando começa a me dar uma sensação de que aquela experiência se fechou, que aquilo já tem uma cara própria.

Em geral, quando termino um livro sempre sobram poemas. Não são os que eu não quero mais, porque esses eu jogo fora. São poemas que quero guardar, mas que vejo que não cabem mais no livro. Aí tenho a certeza que o atual trabalho se fechou.

Quando fechei o “Esquimó”, percebi que estava faltando o poema do nome (“Seu Nome”). Eu não queria acabar com o da Eva Green, porque achava que não era um bom final para o livro. Aí eu pensei: vou tentar escrever alguma coisa, e saiu o “Seu Nome”. Depois de pronto o livro, escrevi “Lígia e os Idiotas” e percebi que também cabia no livro.


Você abre "Esquimó" com o poema “Everything is Broken”, nome de uma canção de Bob Dylan. E o próprio título do livro faz referência a outra música dele –“Quinn the Eskimo”, que por sua vez é uma referência ao filme de Nicholas Ray, "The Savage Innocents", de 1961, com Anthony Quinn (no Brasil, o filme se chamou "Sangue Sobre a Neve"). Você chegou a ver o filme ou só ouviu a música? De que forma as letras das canções de Dylan influenciam seu trabalho?

Corsaletti: Nunca vi esse filme. Por uma série de razões pessoais, entrei em contato com umas letras de Bob Dylan e com o filme do Martin Scorsese, “No Direction Home”. Namoro uma mulher que gosta muito de Bob Dylan, então comecei a traduzir as letras, apesar de meu inglês ser escolar. Já faz uns cinco anos.

Fiquei uns três anos só ouvindo Bob Dylan. Parei de ouvir todo o resto. Agora até ouço outras coisas, mas pouco também. Já li três vezes a autobiografia dele. A biografia, eu li duas vezes. Acho tudo fascinante: a poesia, a música e a personalidade. Acaba me influenciando um pouco, mas não sei quanto. Ele não fecha muito as coisas nas letras. Ele começa de um jeito, depois pode ir para outro lado na mesma música. Isso me ajudou a repensar um monte de coisas.


Que outras compositores, inclusive brasileiros, te interessam e por quê?

Corsaletti: Ouvi muita música brasileira. Meu primeiro contato com literatura, com a palavra não banal, poética, foi através da música brasileira. Meu pai é compositor e dentista. Então, a vida inteira ouvimos muita música em casa. Ouvi Chico Buarque, Caetano Veloso e Vinicius de Moraes durante anos, assim como Geraldo Pereira, Luiz Gonzaga, Nelson do Cavaquinho e Cartola. Não tenho ouvido nada da música atual.


A música popular pode exercer uma boa influência sobre a poesia ou essa influência é em geral danosa?

Corsaletti: Acho que pode exercer uma influência boa por ser outra forma de poesia. Quando falo que Bob Dylan é um poeta, não quero dizer que é para tirar a melodia e ler só a letra. A mesma coisa acontece com “Anos Dourados”, de Chico Buarque. Aquelas palavras não foram feitas para serem lidas, mas para serem cantadas, ouvidas.

O ritmo dos poemas, por sua vez, é determinado pelas palavras, e não pela melodia. Às vezes, você vê um cara que é bom poeta e vai fazer letra de música e não dá certo. Ou vê gente que trabalha com música e que resolve publicar um livro de poesia, mas esta é horrível, porque ele erra o tom, erra o ritmo.


Sua poesia parece trabalhar uma recusa sistemática do "sublime", por exemplo, no poema "Cesar Vallejo", em que o tom elevado vai se transformando numa ladainha irônica. É impossível alcançar o sublime hoje na poesia?

Corsaletti: Não acho que é uma recusa do sublime. Acho que o artista moderno que mais alcançou o sublime foi Fellini e ele é muito engraçado. Tem humor em todos os filmes dele. Não sou deprimido o tempo inteiro. Tenho a sensação de que esse humor foi entrando no meu trabalho.

Meu poema preferido no momento é “Seu Nome” e ele tem um monte de coisa engraçada. Dá pra ler do jeito sério e dá pra ler como uma coisa cômica. Não acho que uma coisa exclui a outra. No mundo em que a gente vive, em que a arte é impura e a fala é cheia de linguagens que se cruzam, acho que o humor ajuda a chegar numa coisa que de outro jeito soaria ultrapassado e cafona.


Qual seu filme preferido do Fellini?

Corsaletti: Meu preferido é “Fellini Oito e Meio”. Acho que é o melhor filme que eu já vi.


Recentemente, você escreveu um poema de caráter, digamos, político, a partir do caso da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada à morte por adultério (o poema foi divulgado no blog de Antonio Prata e está reproduzido no final desta entrevista). O que te levou a fazer o poema? A poesia deve estar a postos para eventuais ações "políticas"?


Corsaletti:
Não tenho nenhum preconceito contra a poesia engajada, mas eu pessoalmente tenho dificuldade de fazê-la. Agora que estou conseguindo escrever poemas em que aparecem coisas externas, coisas que vejo na cidade. Então foi a primeira vez que consegui fazer um poema político. Fiquei uma semana tentando. O que me levou a escrever foi a revolta, porque acho que não dá para justificar culturalmente essa condenação.

 
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