2

Diante da desordem das práticas discursivas contemporâneas sobre o vinho, o argumento regionalista se impõe como o último bastião do imaginário do vinho. Se na Exposição Universal de 1937 o discurso sobre o vinho apontava no sentido de reportar a uma “França verdadeira” dos "terroirs", num claro viés nacionalista de direita, hoje a ênfase no vinhateiro aparece como a última garantia de uma França rural, tradicional e autêntica, ao mesmo tempo em que bafejada pelos progressos técnicos e nova formação profissional.

Marion Demossier mostra como o geólogo e o enólogo se aliaram na edificação do sistema DOC para definir a ligação entre "terroir", qualidade dos solos e hierarquia de preços, iluminando as relações que haviam sido intuídas por Adam Smith há mais de 200 anos.

Beber e comer são atos de identificação, diferenciação e integração, projetando a homogeneidade e a heterogeneidade do “nacional” em vários planos da cultura. A analise dos discursos gastronômico e enológico mostra o apego da França ao que resta como objeto privilegiado de sua expressão identitária em torno da complexidade que é a relação nação/região, com especial destaque para o vinho.

No conjunto, temos que a gastronomia e a enologia se tornam um discurso “em si”, ligado a múltiplas práticas fragmentárias. Diante dos valores do nacionalismo, reforça a variedade de modos de identificação e de perenidade de um discurso em torno do ruralismo que ainda joga papel fundamental na definição da identidade cultural francesa.


Publicado em 12/9/2010

.

Carlos Alberto Dória
É doutor em sociologia, pesquisador-colaborador do IFCH-Unicamp, onde desenvolve estudo de pós-doutorado com bolsa da Capes. É autor de "Com Unhas, Dentes e Cuca" (em co-autoria com Alex Atala), "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros.

 


 
2