2

Os "nonsites" espelham –através dos procedimentos de seleção, extração e realocação de fragmentos de material– o modo de prospecção e produção da mineração. Mas eles também reconstituem a mecânica de contenção –que a ciência analisa através da estática dos planos inclinados, do maior declive, dos meandros e turbulências– existente nas formações sedimentares, usada por essas operações industriais para dispor o material não consolidado.

A estratégia dos "sites-nonsites" possibilitou a Smithson postular, conceitualmente, dois princípios fundamentais para o desenvolvimento posterior do seu trabalho: o da contenção, base dos projetos com materiais não consolidados, e o dos processos intrínsecos de organização da matéria, do relevo terrestre, que lhe possibilitaria operar com grandes escalas geológicas.

Esse dispositivo de estruturação dos estratos é o que Deleuze chama de “agenciamento maquínico”. O limite regula as trocas entre o interior e o exterior, constituindo uma formação heterogênea. Máquina é uma articulação operativa de elementos heterogêneos. É um dispositivo que adquire consistência devido à capacidade que tem de integrar num conjunto materiais diferenciados. Extrai os elementos dos contextos originais e os converte em componentes de outros arranjos. "Maquínico" é a síntese de heterogêneos enquanto tal. Temos aqui o princípio operador da estratificação –entendida como um sistema distante do equilíbrio–, sem recurso a uma forma preestabelecida. Trata-se do conjunto de composição que corresponde aos agenciamentos mais complexos das formações geológicas.

Trata-se, então, de chegar à matéria em movimento, fora dos estratos. A desestratificação, um processo de intensificação que, na teoria dos sistemas dinâmicos, implica mover-se para longe do equilíbrio. Através desse processo, a matéria alcança a condição de não formada, o que libera potenciais de auto-organização para constituir novas configurações.

A maior contribuição da teoria dos sistemas dinâmicos está em demonstrar que esses fenômenos, que ocorrem em condições distantes do equilíbrio, longe de serem excepcionais –como faziam crer as abordagens científicas tradicionais–, são ao contrário o princípio básico dos processos físicos. É fora dos estratos que reside a possibilidade de experimentação. Detectar processos e potenciais existentes espontaneamente na natureza que não são segmentados e estratificados. Os estratos podem ser rompidos, a matéria pode fluir sem ser capturada e consolidada em estratos. No limite, a própria Terra só pode ser definida por um grau de desbalanceamento, de desequilíbrio.

O artista, como o artesão, é aquele que acompanha o fluxo da matéria – conduzindo-a a estados críticos, em que emergem seus potenciais. Ele se contrapõe à estratificação, buscando estados de variação contínua que atualizem sua capacidade de auto-organização. Essa postura com relação à matéria corresponderá a uma modalidade particular de ciência e de arte. Seguir o fluxo da matéria permite a artistas, como Smithson, aproveitar potenciais dos materiais e desenvolver procedimentos de estruturação inteiramente diversos daqueles padronizados pela indústria. Eles seriam decisivos em todos os seus projetos posteriores –as movimentações de terra ("earthworks") e as propostas para áreas de mineração–, centrados na constituição de agregados de materiais heterogêneos em condições de não equilíbrio, na reconfiguração dinâmica de paisagens afetadas por operações industriais.

A primeira referência, portanto, é a teoria dos sistemas dinâmicos. O movimento dos corpos, o cálculo das trajetórias, era abordado, na mecânica newtoniana, através de equações diferenciais, que dizem como um sistema evolui de um instante para outro posterior, infinitamente próximo. O espaço de fases é construído por eixos de coordenadas em que todos os estados possíveis de um sistema dinâmico são representados, cada um correspondendo a um único ponto no espaço. Os desenhos das trajetórias representam o comportamento do sistema. O estudo das curvas, das trajetórias, introduz uma abordagem qualitativa (topológica) das soluções.

Muitas vezes o sistema dinâmico observado descreve trajetórias que acabam por pairar em torno de uma configuração bem definida do espaço de fases. A curva pode, por exemplo, descrever uma espiral até chegar a um ciclo fechado e depois ficar permanentemente rodando em torno desse ciclo. Ocorrendo isso, o sistema possui um atrator, uma região do espaço de fases em direção à qual acabam se deslocando todos os pontos situados nas proximidades. A dinâmica de longo prazo de um sistema é governada pelos seus atratores e a forma do atrator determina o tipo de dinâmica que ele possui (Stewart, 1995, p. 127).

Os atratores representam padrões de estabilidade e emergência em sistemas dinâmicos, podendo ser detectados em diversos sistemas físicos reais. Um sistema dinâmico cujo comportamento é governado por esses estados estáveis gerados endogenamente se caracteriza por determinados parâmetros. O grau de intensidade desses parâmetros (temperatura, pressão, volume, velocidade, densidade) é que define os atratores disponíveis para o sistema e, portanto, o tipo de forma que ele pode engendrar (DeLanda, 2000, p. 263).

Nos sistemas em estado estacionário, existem diferentes possibilidades de as trajetórias se aproximarem, com o tempo, do ponto fixo. Mas em determinadas circunstâncias, o ponto não regressa a sua posição original, derivando de forma aparentemente errática no interior do espaço de fases, criando uma multiplicidade de trajetórias, que, de início, estão muito próximas e se afastam vertiginosamente. Essas órbitas, porém, acabam por se sobrepor umas às outras, confinadas no espaço de fases: configura-se um atrator estranho, indicando trajetórias num espaço de fases que geram padrões que não são idênticos nem se repetem periodicamente. O atrator estranho –relacionado aos regimes de turbulência– configura os sistemas dinâmicos em desequilíbrio.

Nos atratores estranhos, as linhas de fluxos dependem sensitivamente das condições iniciais. Pontos inicialmente próximos estarão, depois de um intervalo de tempo, macroscopicamente separados. Além disso, num sistema dinâmico dissipativo, o volume se contrai, de modo que a dinâmica tende a uma região delimitada do espaço de fases.

A única maneira pela qual soluções podem se contrair numa direção e se expandir noutra, permanecendo numa região finita, é por um processo de dobra na direção da contração. É o que dá o caráter topológico a essas configurações. Topologia é o estudo das propriedades que um objeto retém sob deformação – especificamente curvar, dobrar, esticar, apertar, mas não quebrar ou cortar. Essa combinação de esticar e dobrar, em operação no sistema de Lorenz, é a base da topologia –ciência da continuidade, da modulação. Esse é o princípio de processamento da matéria adotado por artistas como Smithson.

As questões relacionadas aos processos topológicos de consolidação de configurações heterogêneas são também tratadas, na mesma época, pela teoria dos fractais. A geometria fractal estuda os objetos que não são regulares, mas rugosos, porosos ou fragmentados, no mesmo grau em todas as escalas. Trata-se de uma geometria da natureza que descreve seus padrões irregulares e fragmentados. Outro aspecto relacionado à dimensão refere-se à capacidade –chamada de dimensão fractal–, que mede o quanto o conjunto considerado preenche o espaço em que está imerso. Os fractais ocupam o espaço –a dimensão fractal é um número que mede a capacidade de preencher o espaço.

A geometria dos fractais, embora desenvolvida em paralelo à teoria dos sistemas dinâmicos, origina-se do mesmo quadro de questões. Como compreender sistemas altamente complexos, resultantes de processos não lineares, intermitentes? Configurações altamente irregulares, instáveis, cujos padrões e estruturas não são perceptíveis à observação imediata. Não por acaso, a teoria dos fractais seria elaborada a partir da análise de dois fenômenos naturais caracterizados por suas interações dinâmicas e flutuações: os aglomerados (ilhas, lagos, montanhas, nuvens) e a turbulência.

Os fractais estão diretamente relacionados à questão do limite. O contorno da curva de Koch –modelo de linha costeira– é obtido como o limite de uma superfície cada vez mais recortada. Cada transformação acrescenta uma pequena área à parte interna da curva, mas a área total permanece finita, não muito maior do que o triângulo inicial. A curva em si, porém, é infinitamente longa. Engendra-se uma extensão infinita dentro de um espaço finito. É um fractal: uma curva de comprimento infinito que, embora contínua em todos os pontos, não é diferenciável em nenhum ponto.

O grau de irregularidade, a dimensão fracionada, corresponde à eficiência do objeto na ocupação do espaço. O contorno da curva de Koch, com sua extensão infinita comprimindo-se numa área finita, ocupa o espaço. Essa é a definição de contenção: algo com extensão infinita, mas concentrado numa área limitada. Corresponde à definição do atrator de um sistema dinâmico.

O conjunto dos trabalhos realizados no período 1969-1971 engendrou o repertório conceitual e operacional que Smithson aplicaria, em escala maior, nas suas "earthworks". Esses projetos funcionaram como laboratórios em que o artista elaborou os procedimentos que seriam desenvolvidos em todas as obras seguintes, incluindo as propostas para áreas mineradas. Eles abarcam dois tipos de abordagens, correspondendo a diferentes processos físicos e geológicos: as obras de fluxo, de deslocamento, e as obras de contenção, de consolidação.

As obras de deslocamento e dispersão remetem a falhas geológicas, placas tectônicas, terremotos, dobramentos, erupções vulcânicas, geleiras e enchentes. Tudo o que desarranja a disposição laminar dos estratos e a permanência do relevo. A série de derramamentos é composta por operações de escoamento. São as propostas de Smithson mais relacionadas com a mecânica dos fluidos.

Já as obras de aglutinação e consolidação, em contraposição aos processos de difusão e espalhamento, são projetos dominados por dinâmicas de atração, nucleação e aglomeração. O material dispersado, tornado heterogêneo, reúne-se em novas configurações, agora moleculares –distintas das estruturas rígidas, cristalinas, resultantes dos processos elementares de formação da matéria. Formam-se bacias sedimentares, taludes fluviais, ilhas, relevos metamórficos. Configurações feitas de materiais heterogêneos, desprovidas de coesão, instáveis.

Formações resultantes de dinâmicas intensivas suscitam o problema da estabilização. Como essas estruturas se estabilizam? Os projetos de ilhas –como "Meandering Island" (1971)– têm como ponto de partida a questão da demarcação da costa, da contenção de uma determinada massa em relação à água. Essa série é, conceitualmente, o oposto complementar das obras de fluxo, de escoamento e erosão. Aqui se trata do inverso: os dispositivos de retenção, a agregação de material não consolidado. Buscar mecanismos de estabilização.

Projetos como "Forking Jetty" e "Forking Island" (1971) consistem na criação de conjuntos de píers em formato de ramificações. Os desenhos dos cais retomam padrões da geomorfologia fluvial, como as redes das bacias de drenagem. Concebidos para regiões litorâneas ou lagoas, sem referências topográficas marcantes, é o próprio espraiamento dos píers, em sucessivas bifurcações, que configura a área –pelo meio, por entre ilhas existentes, fazendo emergir uma conformação agregada, sem dentro ou fora, sem limite. É um dispositivo que remete às configurações formadas por dendrites, mecanismo de constituição de agregados.

A resultante são estruturas que se ramificam, com dimensão fractal. É um mecanismo pelo qual essas formações naturais adquirem estabilidade, um modo de assegurar consistência e sustentação a agregados heterogêneos. Esse princípio de estruturação por prolongamento ramificado seria aplicado por Smithson nos projetos de cais para cavas e lagoas de rejeitos.

Outra série de projetos parte de meandros, uma morfologia recorrente em rios e lagoas. "Meandering Island" (1971) é um contínuo de canal e píer, formando uma única linha ondulante, em meandro. O limite entre terra e água torna-se muito mais complexo, não se tem mais delimitada a localização da costa, a separação entre o litoral e o interior. O princípio básico desse projeto –a conjunção de canal e píer, em formato circular ou meândrico– seria depois desenvolvido nas propostas para lagoas de rejeitos de mineração.

 
2