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política
DIREITOS HUMANOS

A tragédia de Sakineh Ashtiani
Por Fernando Masini


Cena do filme "O Apedrejamento de Soraya M.", de Cyrus Nowrasteh
Divulgação

Diretor de um longa sobre apedrejamento de mulheres, Cyrus Nowrasteh critica a justiça iraniana

O caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani ultrapassou as fronteiras do Irã e virou exemplo de violação dos direitos humanos no resto do mundo. Acusada de adultério e forçada a confessar a participação no assassinato do marido, essa mulher de 43 anos foi condenada à morte por apedrejamento, uma punição severa e humilhante que encontra respaldo na lei sharia, em vigor no país desde a Revolução Islâmica de 1979.

A sentença é usada em casos de “crimes morais” cometidos principalmente por mulheres. Entende-se com isso trair o parceiro, prostituir-se etc. A vítima é enterrada até a metade do corpo e alvejada por pedras arremessadas pelos próprios familiares e pela comunidade. Alguns casos ocorrem em praça pública.

Um dos críticos mais contumazes dessa prática é o cineasta Cyrus Nowrasteh, filho de pais iranianos, que dirigiu em 2008 o filme “O Apedrejamento de Soraya M.”, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo.

Baseado no livro do jornalista francês Freidoune Sahebjam, o longa retrata a dolorosa jornada de uma mulher perseguida pelo marido, vítima de uma conspiração que a leva a ser apedrejada até a morte.

O filme de Nowsrasteh é perturbador e contém cenas que mostram as pedras atingindo o rosto de Soraya (interpretada pela atriz Mozhan Marn), numa longa sequência que deixa o espectador estarrecido. Na entrevista a seguir, o diretor conta que optou pelo estilo documental depois de ver cópias ilegais de apedrejamentos reais. “O processo real é devastador, muito mais cruel do que é mostrado no filme. Queria que o público sentisse como essa condenação é brutal”, diz.

Nowsrasteh, que mora nos EUA, exalta a postura do governo brasileiro de interferir no destino de Sakineh, oferecendo-lhe asilo. E critica o presidente americano Barack Obama, por sua omissão: “Gostaria que o governo americano tivesse mostrado a mesma coragem. No entanto, ficou em silêncio. É uma vergonha”.

O cineasta morou quatro anos no Irã antes de ir para os EUA e foi alvo de uma polêmica ao escrever e produzir a minissérie “The Path to 9/11”, exibida em 2006 pela emissora de televisão ABC. A trama mostra o despreparo e a indecisão de agentes da FBI e da CIA na perseguição a terroristas, desde uma explosão que ocorreu em fevereiro de 1993 no World Trade Center até o ataque às torres em 2001.

Confira a seguir como o diretor Cyrus Nowrasteh analisa o caso de Sakineh e a prática do apedrejamento no Irã.

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Você morou no Irã?

Cyrus Nowrasteh: Quando era criança, morei por quatro anos no Irã. Aos cinco anos, retornei aos EUA, onde nasci. Fiquei até 1977 sem visitar o país, e só voltei durante minhas férias na Universidade da Califórnia do Sul. Nessa época, o Irã era comandado por um xá (Reza Pahlevi), não se tratava de uma república islâmica.


Quais as suas recordações desse período?

Nowrasteh: Encaro minha infância no Irã com grande afeto. Do tempo em que morei lá, guardo uma boa impressão do povo iraniano e da cultura, que é muito rica. Aprendi a ter um sentimento de orgulho da minha herança.

Mais tarde, ao visitar o país de novo, na adolescência, esse sentimento foi reforçado. Tive a oportunidade de viajar pelo interior, o que me deu uma boa percepção da extensão do território.


O que mudou a partir de 1979, quando o Irã tornou-se uma república islâmica?

  Nowrasteh: A primeira mudança foi a instalação de uma república baseada na lei sharia. Punições severas, como o apedrejamento, tornaram-se parte do código penal. Os direitos das mulheres foram suspensos.

Elas foram obrigadas a usar o xador (traje feminino que cobre todo o corpo) e não tinham permissão de trabalhar sem o consentimento do marido. A suspensão desses direitos e a consolidação de um regime totalitário fizeram com que muitas pessoas deixassem o país.


Como surgiu a ideia de filmar “O Apedrejamento de Soraya M.”?

Nowrasteh: Li o livro do Freidoune Sahebjam quando ele foi publicado nos EUA, em 1995. Foi uma experiência muito forte. O autor faz uma acusação séria sobre uma prática bárbara que foi retomada pela República Islâmica do Irã.

Hoje em dia, essa prática integra o código penal do Irã. Ao ler a obra, fiquei convencido de que havia um grande material ali para rodar um filme. Mas, na época, não fui atrás disso porque seria difícil conseguir financiamento para a produção e para a distribuição.

Cerca de dez anos depois, numa fase melhor da minha carreira, senti que valeria a pena transformar o livro em um longa-metragem. Consegui o apoio da produtora Mpower Pictures, e tivemos sorte ao encontrar um financiador para o filme e uma distribuidora, a Lionsgate.

O grande impulso foi poder contar com a renomada atriz iraniana Shohreh Aghdashloo, que aceitou de imediato entrar no projeto.


Como foi a negociação com ela, já que se tratava de uma questão muito delicada?

Nowrasteh: A discussão foi simples: ela leu o roteiro, gostou e topou fazer o filme. Shohreh partilhava do drama que seria retratado na tela e também discordava desse tipo de punição.


Houve uma tentativa para lançar o filme no Irã?

Nowrasteh: O filme foi banido e condenado no Irã. Apesar disso, há mais de 20 mil cópias ilegais de DVD circulando pelo país. As pessoas ao redor do mundo estão espalhando cópias para amigos e familiares. Esse fenômeno foi recentemente reportado pela BBC e se tornou um constrangimento muito grande para o regime iraniano.


As cenas do apedrejamento são muito pesadas. Você já testemunhou uma punição como essa?

Nowrasteh: Acompanhei apedrejamentos reais em cópias ilegais de DVD, que foram gravadas por pessoas que querem o fim desse tipo de punição. O processo real é devastador, muito mais cruel do que é mostrado no filme. Queria que o público sentisse como essa condenação é brutal e bárbara.


Esse tipo de sentença é aplicada apenas em mulheres?

Nowrasteh: Homens também já foram apedrejados até a morte no Irã, mas é mais raro. Trata-se de uma punição direcionada às mulheres que cometem “crimes morais”, ou seja, adultério, prostituição etc.


Durante o processo, os filhos da vítima são obrigados a assistir à punição, assim como é mostrado no filme?

Nowrasteh: O relato do apedrejamento no filme é exatamente como foi descrito pelo jornalista Freidoune Sahebjam (autor do livro). As crianças e a família participam do apedrejamento a fim de “purificar” suas almas da mácula causada pelo crime.


O ato ocorre em que local?

Nowrasteh: Ocorre numa praça pública.

 
E quanto tempo dura?

Nowrasteh: Pode levar horas ou a vítima morrer rapidamente. No caso de Soraya M., primeiro a família jogou pedras no corpo da vítima, depois foi a vez do mullah; em seguida, dos moradores da vila. Não sei se é sempre assim que ocorre, mas, nesse caso, seguiu essa ordem.


Não é curioso que haja no Irã tão bons cineastas, inclusive mulheres, como Samira Makhmalbaf, tendo em vista o caráter repressor do regime atual? O cinema no Irã serve como um meio de protesto?

Nowrasteh: De fato há bons cineastas no Irã, mas nenhum deles chegou perto de tocar no tema do apedrejamento. Acho que o cinema no país é uma forma de protesto, mas bem mais restrita do que era no passado.


Para nós, ocidentais, não é fácil assimilar esse tipo de condenação. Como ela é legitimada?

Nowrasteh: A lei sharia, que é uma lei islâmica, justifica o ato. Poucos países continuam a seguir o rigor da sharia, mas no Irã ainda é assim. A punição é justificada pelos clérigos como se fosse sancionada por Deus. Não se submeter à punição pode ser considerado uma violação das leis de Deus.


É uma distorção do Alcorão ou uma interpretação fiel?

  Nowrasteh: O apedrejamento não é mencionado no Alcorão, mas faz parte dos “hadiths”, que são os dizeres de Maomé. Com isso, foram codificados na lei sharia.


O que você acha do caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada a morte por apedrejamento?

Nowrasteh: É uma tragédia e uma inversão da justiça. Essa mulher foi forçada a aceitar a acusação de adultério depois de receber cem chibatadas. Agora fizeram ela aparecer na TV iraniana admitindo ter assassinado seu marido –sendo que muitos suspeitam que ela foi torturada durante essa confissão.


O que você acha que vai acontecer com Sakineh?

Nowrasteh: Infelizmente eu temo que o destino dela não será nada bom. A sua última “confissão” em rede nacional faz parte do circo armado pelo governo iraniano. É trágico.


Ela está sendo condenada pelo adultério ou acusada de participar do assassinato do marido?

Nowrasteh: Sakineh foi originalmente acusada de adultério –baseado na “intuição” dos juízes, não em evidências. Essa “intuição” também foi usada para acusá-la de assassinato, o que justificaria matá-la com uma execução brutal.

Sou grato à população e ao governo brasileiros, que estão tentando salvar a vida dessa mulher. Vocês mostraram muita coragem para protestar. Gostaria que o governo americano e o presidente Obama tivessem mostrado a mesma coragem. No entanto, ficaram em silêncio. É uma vergonha. Essa omissão permite a ação bárbara desses perpetradores.


Algumas pessoas veem a atitude do presidente Lula como uma interferência à soberania nacional iraniana.

Nowrasteh: Eu exalto a postura do governo brasileiro. Direitos humanos são um assunto importante, especialmente quando sua violação é tão óbvia. É triste que ninguém do governo americano tenha se manifestado, nem o nosso presidente Obama. A redução do seu índice de aprovação nos EUA indica um sentimento entre os americanos de que o Obama é fraco e confuso no tratamento com ditadores.


Publicado em 4/9/2010

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Fernando Masini
É jornalista e trabalha na "Folha de S.Paulo". 

 
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