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Luciana Bezerra: Eu gosto muito de “Cidade de Deus”, é bonito, trouxe novidades em seus planos e há o fato de terem preparado não-atores para viverem os personagens, o que vai aproximar o seu tipo de atuação do Neo-realismo. Mas é um filme de extrema violência, e o Fernando Meirelles conseguiu colocar toques de humor nele. E isso é incrível. Também admiro o trabalho de roteiro, que transformou esse romance em filme e acertou, coisa rara. Há o fato de que, de dentro de todo o caos vivido por aquelas pessoas, o filme tem magia e amores, mesmo que crueis como o Paraíba, que mata e enterra a esposa, ou o Bené, que morre no dia que decide mudar de vida com seu amor. Isso me aproxima do filme.

Já o “Tropa de Elite” acho um filme frio, nada me aproxima do Capitão Nascimento e seus soldados, tão pouco os moradores da favela, sua ONG libertina ou os universitários maconheiros. Não gosto. Do ponto de vista do “agora por nós mesmos’, é claro que, quando se vive em um lugar, você tem propriedade e uma maneira sempre muito mais afetiva e relaxada para falar dele.

Mas acho que devemos fazer os filmes que nos impulsionam, não sou dona da favela ou tenho um selo que diga que só nós, moradores de favela, podemos ou sabemos fazer filmes neste espaço. Eu mesma desejo fazer filmes em muitos lugares e com todo tipo de personagem e posição social. Isso é um direito do cineasta, como artista e criador.

Luciano Vidigal: Acho os filmes tecnicamente muito bem feitos. Confesso que sou admirador do trabalho do Fernando Meirelles e do José Padilha. Esses filmes retratam um lado da favela que a própria favela não quer mais ver, e acredito que o Padilha e o Fernando também não querem mais abordar estes assuntos. A favela tem a sua riqueza e muitas histórias singulares. Nós, que somos “crias da favela”, estamos mostrando através do cinema...

Manaíra Carneiro: Cada filme é um filme. Por mais realistas que “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus” sejam, eles ainda são ficcionais, criam seus próprios universos, uma possibilidade que o cinema nos traz. Porém, não podemos ignorar que o cinema também é uma ferramenta de transformação social, sim, e que ele pode ser, se já não é, o espelho de um povo.

“Cidade de Deus” é sensacional e me influenciou muito cinematograficamente. Mas acho importante termos uma visão de dentro das favelas, pois nesse sentido o filme ganha outros valores. Além de ser uma obra de arte, ele é a expressão genuína de pessoas que gritam, mas não são ouvidas.

  Rodrigo Felha: São filmes históricos, muito bem feitos e que souberam traçar uma narrativa que transmitiu uma realidade vivida nas favelas, porém não vividas por seus diretores. Ambos têm todo o direito de contar as histórias que bem entendem, mas claro que, quando são feitas por pessoas que não estão olho do furacão, há detalhes morais e éticos que são expostos naturalmente.

Wagner Novais: Primeiramente, acho que toda e qualquer experiência cinematográfica é importante para o avanço do mercado cinematográfico do país. Mas não é só uma questão mercadológica: eles abrem um leque de temas e experiências variadas para nosso cinema. E, quanto mais filmes variados, melhor.

Ambos retratam as favelas cariocas, cada qual a sua maneira, com um olhar da classe média –sem preconceitos. O olhar destes filmes foca num tema comum a todos, a violência.

Em termos cinematográficos, são filmes importantíssimos, pois além de contarem com uma grande produção, tiveram um grande público –sendo um deles, “Cidade de Deus”, um marco da retomada do cinema nacional–, quebrando um pouco do estigma que as produções brasileira carregam.

Em termos morais, estes filmes têm como “protagonistas” –peço licença para chamar assim– a violência. Todos os personagens estão envoltos neste caos social, que os conduz. Com isso, não me sinto representado por nenhum dos filmes –apesar de achá-los bons filmes.

“5 x Favela - Agora Por Nós Mesmos” tem outras propostas. Os filmes não mostram apenas o caos social, revelam pessoas resistentes –com virtudes e defeitos–, que conduzem a narrativa, esta que também é variada e trata de amor, de amizade, de ética, de família... Todos os diretores se preocuparam muito com cada fragmento do filme, porque junto com a questão artística temos um compromisso moral com as pessoas que estamos representando. Em síntese, me sinto muito bem representado em todos os filmes.


Como avaliam a mudança de condições de produção que vocês tinham antes deste filme, quando faziam vídeos na comunidade, e, depois, quando lhes foram oferecidas condições da indústria profissional? O que mudou? Quais são os aspectos positivos e os negativos?

Cacau: O lado ruim é saber que poucos têm acesso a essa condição. Milhares de ótimos filmes poderiam ser produzidos no Brasil, mas não temos pernas para financiá-los. O lado bom é saber que apesar disso, “5 x Favela” é um exemplo para nossa geração. Acredito que ajudamos a afastar o pessimismo em relação ao cinema brasileiro, pois provamos que é possível fazermos um filme dentro dos moldes legais, se trabalharmos duro para isso.

Cadu: Ser produtor de cinema no Brasil é bem difícil. Vejo dezenas de filmes produzidos no país, de muita qualidade e com baixíssimo orçamento. É triste saber que poucos têm acesso a grandes condições tecnológicas para produzir seus filmes. Ao mesmo tempo, é bom saber que esse filme oxigena nossa geração, dando fôlego para não desistir da luta.

Luciana: Para mim, foi muito importante ter alguém tomando conta das finanças, o que muitas vezes, para uma curta-metragista como eu, que teve seus filmes feitos através de prêmios de edital, sendo diretora e produtora, é uma tarefa de enlouquecer. Principalmente quando chega na fase de pós-produção, em que sua equipe se foi e você precisa dar a luz àquele filme gerado de modo tão solitário. É uma boa coisa ter com quem dividir suas angústias, suas dúvidas e suas alegrias.

E, claro, sem falar na possibilidade de poder usar equipamentos que seria impossível utilizar para a realização de pequenos filmes. E também valeu a pena, no caso deste projeto, ter tido o momento preparatório com as oficinas que nos fizeram mergulhar profundamente no processo. Para mim, o ponto negativo foi o tamanho da equipe, que nos becos estreitos onde filmamos, era um fator complicador. Mas no fundo tinha tantos amigos ali que não podia pensar também em não tê-los.

Luciano: O que é bacana nesta diferença e o esquema “no amor”, sem dinheiro, é que são filmes feitos na raça, na parceria e com muito amor à arte, mas sempre com profissionalismo.. Nessa experiência do “5 x Favela”, tivemos uma maravilhosa estrutura para contar nossa história e ainda unificamos nossas organizações e grupos, que só se encontravam em festivais.

Manaíra: As condições de produção do “5 x Favela” contribuíram muito para que o filme tivesse uma qualidade técnica e assim fosse bem distribuído e alcançasse o maior número de pessoas. Pois esse filme tem um apelo popular muito grande e não faria sentido se ele fosse visto apenas por poucos. O meu objetivo principal é ver os espectadores se identificarem com aquela história, se sentirem representados nela.

A diferença entre os meus outros vídeos e esse filme que os primeiros não tiveram grande circulação por causa de grana e da qualidade técnica -eu tinha dinheiro para gravar, mas não tinha para mixar o som, ou vice-versa. Acho que fazer filme com as possibilidades que nos foram dadas em "5 x Favela" só tem aspectos positivos.

Rodrigo: Meus filmes não eram feitos somente dentro de comunidades; a qualidade sempre foi uma preocupação, independentemente de eles serem em digital ou não. O suporte que o Cacá ofereceu nos permitiu incluir nos planos de filmagens movimentos de câmera, de usar lentes às quais antes tínhamos acesso limitado, de discutir sobre que iluminação trabalhar, pensando sempre no melhor resultado, além de ter a possibilidade de escolher as cores das paredes, o figurino, os móveis e por aí vai. São detalhes que enriqueceriam todos nossos trabalhos anteriores.

Wagner: Ter uma produção profissional nos auxiliando foi maravilhoso, nos deu mais segurança. Essa mudança ajudou na nossa criação, pois tínhamos todo o suporte técnico necessário para realizá-la como gostaríamos. Diferentemente das produções que fazíamos “na raça” com os amigos –com o mesmo profissionalismo, porém com bem menos recursos–, nesta poucas vezes ouvi um “não dá pra fazer, tu vai te que adaptar a cena”.

Com isto, conseguimos manter –na maioria das vezes– nossa ideia original. O cinema é um processo de composição constante e algumas coisas acabaram mudando, mas tudo de acordo com o conceito do filme. Até hoje digo aos amigos: “Que saudade da produção do ‘5 x Favela’”. É claro que nem tudo foram flores no maravilhoso jardim que foi a produção, mas os aspectos negativos foram tão ínfimos!


O projeto original de “Cinco Vezes Favela” estava relacionado, naturalmente, com todo um engajamento político à esquerda, de seus diretores. Qual seria a “política” deste novo filme?

Cacau: Nada mudou. Acho que a verdadeira mudança aconteceu em 1962. É muito natural que eu, Felha, Manaíra, Wavá, Cadu, Luciana e Luciano busquemos uma voz. Não fazemos nada além de lutar por nosso direito e de nossos pares. O primeiro time de diretores buscou os interesses dos outros. Acho que isso foi uma iniciativa muito bacana. Nosso filme é a continuidade dessa história.

Cadu: Na base, vejo um engajamento do Cacá, quando ele percebeu que nessas comunidades já se fazia cinema há muito tempo e com muita qualidade. Ter essa percepção de que algo novo acontecia já foi algo revolucionário. Nós estamos lutando por algo que é nosso, o direito de falarmos de nós mesmos usando o cinema como canal.

Luciana: A política do acesso!

Luciano: Mostrar um novo ponto de vistas das favelas e dos seres humanos para o mundo...

Manaíra: Acho que é a pluralização das vozes, a democratização dos meios de difusão de comunicação. É também a busca pela solidariedade, a conquista pela compreensão de nossa diversidade cultural.

Não tenho pretensão de erguer nenhuma bandeira, mas acho que é uma responsabilidade inerente a nós, que viemos das favelas e somos atores sociais, ajudar os hipócritas a compreender a existência da fome, da miséria, da solidariedade, do respeito, da honestidade e da alegria que há nesses lugares e chamar a responsabilidade para eles também. Não adianta jogar a “sujeira” para debaixo do tapete, pois a cidade é uma só. Como disse Glauber Rocha, em sua estética da fome, nós temos fome é de compreensão, e é essa fome que preciso matar. Por isso, escolhi o cinema como ferramenta.

Rodrigo: A política de mostrar que agora temos voz ativa, que há uma cultura deslumbrante sendo descoberta nas favelas, que é o cinema.

Wagner: Seria uma política, que vai além do partido, da moral e da ideologia. Uma política mais humana, que aplica seus pensamentos de forma factual nas ações e relações humanas.


Coloco a vocês uma das perguntas que fiz a Cacá Diegues. É inevitável que o filme seja avaliado para além do estatuto de obra cinematográfica, por conta da experiência social e educativa envolvida no processo. Com a pluralidade e a saturação audiovisual num mundo que se acelera em degradação (não só ambiental), vocês acreditam que o cinema tenha que reajustar seus parâmetros em função de alguma esfera sociocultural para “justificar” sua existência?

Cacau: Não necessariamente. O cinema, como arte, por si só já é maravilhoso. Se ele se adequar à nova forma de enxergar o mundo é um "plus". O que vale pra mim é o cinema assistido na tela. Se ele teve um processo diferenciado, respeitou relações sociais e éticas, que isso se reflita na obra. Por mais que nosso projeto tenha assistido centenas de jovens, estes fizeram por onde e transformaram o filme, na tela, em uma coisa nova, do ponto de vista estético.

Cadu: O cinema é uma arte, e isso está acima de qualquer coisa. Questões sociais aparecem, e é bom que aparecem e se tornem um algo a mais. Ainda que esse filme contenha toda a questão da inclusão social, ele será avaliado, adorado ou odiado por sua estética e sua qualidade, o que foi considerado desde sua origem. Queremos receber aplausos pelo bom filme que ele é e não pelas “n” questões envolvidas nele.

Luciana: Não acho que arte nenhuma tenha que justificar sua existência. Ela é expressão e reflexo do mundo que vivemos.

 
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