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audiovisual
HISTÓRIA

Ajuste pronominal
Por Carlos Adriano


Cena do filme "5 x Favela - Agora Por Nós Mesmos"
Divulgação

"5 x Favela - Agora Por Nós Mesmos" na visão de Cacá Diegues e dos sete diretores do filme

Em 1962, cinco jovens diretores, provenientes da classe-média universitária, se reuniram em torno de um longa-metragem em episódios que marcaria época e se constituiria num dos filmes seminais do Cinema Novo, movimento que trouxe a modernidade cinematográfica ao Brasil e buscava revelar o país aos brasileiros.

“Cinco Vezes Favela” (1962), produzido pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE), foi composto pelo filmes: “Couro de Gato”, de Joaquim Pedro de Andrade; “Um Favelado”, de Marcos Faria; “Escola de Samba Alegria de Viver”, de Carlos Diegues; “Zé da Cachorra”, de Miguel Borges; e “Pedreira de São Diogo”, de Leon Hirszman.

Mais de quatro décadas depois, Carlos Diegues e Renata Almeida Magalhães reuniram sete jovens diretores, moradores de favelas da cidade do Rio de Janeiro, deram-lhes condições industriais de excelência técnica e produziram “5 x Favela - Agora Por Nós Mesmos”, em cartaz em São Paulo.

O casal de produtores construiu um projeto em que os bastidores de feitura do filme atraem tanto interesse quanto as próprias histórias narradas na tela. Não é à toa que um livro e um documentário registram essa história da produção e aguardam a ocasião de um lançamento.

Cacá e Renata organizaram oficinas de roteiro, fotografia, montagem, produção e direção em distintas favelas, criando uma dinâmica coletiva em que os autores dos argumentos selecionados podiam discutir o tratamento de suas histórias e se beneficiarem da orientação de profissionais do cinema.

Os episódios de “5 x Favela - Agora Por Nós Mesmos” são: “Fonte de Rendimentos”, de Manaíra Carneiro e Wagner Novais; “Arroz e Feijão”, de Rodrigo Felha e Cacau Amaral; “Concerto para Violino”, de Luciano Vidigal; “Deixa Voar”, de Cadu Barcelos; e “Acende a Luz”, de Luciana Bezerra.

O filme é dedicado à memória de Leon Hirszman (1938-1987), idealizador do filme dos anos 60 e diretor de obras-primas do cinema brasileiro, como “A Falecida” (1965), “São Bernardo” (1971) e “Imagens do Inconsciente” (1987).

Trópico entrevistou os dois produtores e os sete diretores de “5 x Favela" a respeito das questões técnicas, estéticas e éticas do filme, bem como do quadro político que emoldura as duas produções e a apropriação do imaginário das favelas por diferentes classes sociais, o que pode ou não justificar a existência do cinema.

"Este novo filme tem a angústia do registro nunca registrado, esses jovens cineastas não têm propriamente um programa político, mas uma ânsia de afirmar suas aspirações ignoradas", afirma Diegues. Ele também conta por que decidiu trocar o pronome do primeiro título ("Agora Por Eles Mesmos") pensado para o filme. "Ao dar ao filme o título de 'por eles mesmos', eu estava mais uma vez me situando fora daquele mundo", justifica.

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"É UMA INVASÃO DO CENTRO PELA MARGEM", DEFINE CACÁ DIEGUES

Quais traços paralelos, comparativos e disjuntivos, você poderia fazer entre o filme de 1962 e o filme de 2010, em termos estéticos e éticos?

Carlos Diegues: A diferença mais importante é que agora o documento é registrado por eles mesmos. Ou seja, enquanto nós éramos cinco jovens universitários de classe média, generosamente tomados pela questão social brasileira e ávidos pela invenção de um novo cinema para o país, agora se trata de jovens cineastas moradores de favelas, porta-vozes portanto deles mesmos e de suas aspirações. Uma espécie de invasão do centro pela margem, um assalto ao estabelecido que, espero, contribua para a atualização e evolução de nosso cinema.


O projeto original de “Cinco Vezes Favela” estava relacionado, naturalmente, com todo um engajamento político à esquerda, de corte marxista e comunista, de seus diretores. Uma vez que há todo um discurso decretando o fim do comunismo e das utopias, o que pode se dizer do filme feito 48 anos depois, do ponto de vista político? Qual seria a “política” deste novo filme?

Diegues: Este novo filme tem a angústia do registro nunca registrado, esses jovens cineastas não têm propriamente um programa político, mas uma ânsia de afirmar suas aspirações ignoradas. Talvez por isso mesmo seja muito mais um documento antropológico, de um modo de viver e sentir as coisas do mundo real e da imaginação deles.

Uma busca de identidade no cinema, em todos os seus sentidos: identidade pessoal, identidade comunitária, identidade cinematográfica. São sete vozes a gritar: "Olha eu aqui e o que eu penso de meu instrumento de vida". Uma das coisas que mais me emociona no filme é o rigor ético de todos os episódios, a reflexão deles sobre os limites entre o legal e o moral.


Inicialmente, o filme chamava-se “5 x Favela - Agora Por Eles Mesmos”; depois, ficou “5 x Favela - Agora Por Nós Mesmos”. A partir dessa mudança “pronominal”, como você analisa e avalia o processo de reapropriação da imagem deles mesmos, após uma década em que essa imagem foi por vezes “expropriada”?

  Diegues: Foram os próprios diretores que me alertaram para o equívoco pronominal. Na origem do processo, ao dar ao filme o título de “por eles mesmos”, eu estava mais uma vez me situando fora daquele mundo, como um espectador dele me substituindo a eles. Numas de nossas reuniões preparatórias, um dos diretores fez a observação: se o filme é nosso, se nós vamos fazê-lo com inteira liberdade, fazendo exatamente o que quisermos, não será então “por nós mesmos”? Ele tinha toda razão.


Como você avalia o fato de que um filme dessa natureza não tenha conseguido patrocínio dos fundos públicos e tenha conseguido patrocínio de fontes privados?

Diegues: É claro que as formas de fomento cinematográfico no Brasil estão um tanto emperradas e pouco atualizadas. O mundo se movimenta mais rápido que os burocratas, o Brasil também.

Só há duas hipóteses para a falta de interesse dos editais públicos com o filme: a falta de confiança num projeto de favelados (eles podem ser bambas com a bola e o pandeiro, mas cinema é coisa de gente grande) ou sou eu que sou persona non grata para eles. Não tenho uma resposta para isso, nem estou preocupado em descobri-la.


É inevitável que o filme seja avaliado para além do estatuto de obra cinematográfica, por conta da experiência social e educativa envolvida no processo. Com a pluralidade e a saturação audiovisual num mundo que se acelera em degradação (não só ambiental), você acredita que o cinema tenha que reajustar seus parâmetros em função de alguma esfera sociocultural para “justificar” sua existência?

Diegues: Foi François Truffaut quem primeiro usou, por duas vezes, a expressão “esse filme justifica a existência do cinema”. A primeira vez, em relação a um filme japonês do qual não me recordo o título; a segunda, em relação a “Vidas Secas”.

E é isso mesmo: só o filme pode justificar a existência do cinema, nada fora dele pode justificá-la. Instrumentalizar o filme, pô-lo a serviço de alguma coisa fora do cinema que não seja a própria vida, é decretar o seu fracasso e a sua desimportância.

Mas também não vejo “5 x Favela - Agora Por Nós Mesmos” como um manifesto daquilo que deve ser feito. Esse filme é apenas uma alternativa, em meio a tantas outras já existentes ou que podem vir por aí.

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PARA PRODUTORA RENATA ALMEIDA MAGALHÃES, CINEMA NOVO NÃO SOBREVIVERIA HOJE

Na sua opinião, por que seu filme não obteve patrocínio dos fundos públicos e sim de fontes privados? É possível entrever aí alguma metáfora sobre as formas de fomento no Brasil?

Renata Almeida Magalhães: Não vejo metáfora, vejo uma politização crescente na aplicação dos recursos, que, de alguma forma, são controlados pelo Estado. E aqui estamos falando especificamente dos recursos que vêm das estatais e dos fundos públicos, esses últimos controlados unicamente pela Ancine e pela Finep.

Detesto paranóia, mas não consigo deixar de ver algum tipo de retaliação quando um projeto como o “5 x Favela”, praticamente um protótipo do que o Governo Lula, mais especificamente sua Secretaria de Comunicação, queria obrigar a cultura a se transformar –projetos com contrapartida social clara–, não ganha nenhum edital de estatais e tem enorme dificuldade junto ao Fundo Setorial Público.

Para ser bastante clara e justa, tenho que dizer que, após sermos recusados no edital de 2008, o BNDES, no ano seguinte, contemplou o “5 x Favela” com a menor de suas cotas de patrocínio. O Fundo Setorial, que achei que seria o mecanismo ideal, capaz de compreender a importância de um tipo de filme como este, viabilizando a última parcela necessária para completar sua produção (já filmada), entendeu, depois de analisar o “mercado”, que era melhor dar metade da cota.

Mas não quero ficar politizando o “5 x Favela”. Só quero finalizar dizendo que todas essas dificuldades nos fizeram valorizar ainda mais e estreitar nossas relações com nossos parceiros -aqueles que, como a gente, acreditam que existem artistas incríveis nas favelas brasileiras, cheios de coisas para dizer, loucos por uma oportunidade.


Não lembro de haver muitas logos de patrocinadores nos créditos do filme. Foram usadas as chamadas leis de incentivo?

Renata: Tem logos sim. Não é um macacão de Fórmula 1, mas estão lá. E sou muito orgulhosa de cada uma das logos que estão lá. O filme foi feito com os artigos 1 e 1A da Lei do Audiovisual, recursos vindos dos incentivos do ISS e ICMS do Rio, recursos não incentivados e coprodução com serviços.

E, como você deve ter visto, é praticamente tudo privado (OGX, MMX, AmBev, Light, Linhas Amarelas). E, defendendo o time das estatais, tem o BNDES e o Fundo Setorial, que, diga-se de passagem, é um empréstimo que colateraliza todas as receitas da produtora junto à Ancine (PAR etc.).


Vendo em retroprojeção: nos anos 60 até começo dos 70, o Cinema Novo estava empenhando numa ruptura (linguagem, política); em meados dos 70 até 80, o foco desloca-se para uma tentativa de diálogo com o público e o mercado. Nessa perspectiva, como você avalia os potenciais mercados para este filme, tanto no plano comercial como num circuito “alternativo” (das próprias ONGs de favelas etc.)?

Renata: Essa é uma pergunta que pode dar um tratado. O mercado hoje está em plena modificação. Há uma inflação enorme de filmes para as telas existentes e um mercado paralelo (internet e suas ramificações) que ainda não está pronto.

Não é a toa que vemos no mundo inteiro um mesmo discurso, que aponta para a presença excessiva dos blockbusters em detrimento do cinema independente, Agora ainda tem o 3D. Muito provavelmente o Neo-realismo, a Nouvelle Vague e o Cinema Novo hoje não sobreviveriam. Mas não sou pessimista e acho que todos os tipos de cinema poderão conviver.

Quanto ao “5 x Favela”, uma dos pilares do projeto era o de tirar esses maravilhosos cineastas do “gueto”, fazê-los “tomarem o centro de assalto”! Se fosse para ficar no circuito alternativo, nosso trabalho não seria necessário. O filme é  para estar nas telas mais importante do país e percorrer o caminho formal do cinema brasileiro –lançamento em vídeo, TV a cabo, TV Globo. É para estar em Cannes e no mundo inteiro!

Mas o que eu queria mesmo é inventar uma maneira de levar a periferia ao cinema para assistir o “5 x Favela”! Aí é que está o desafio. Quem sabe algum exibidor não se anima e faz algumas sessões com preços populares. Tenho certeza de que as salas vão lotar!

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"5 x FAVELA" POR SEUS SETE DIRETORES

O que vocês acham da representação, em termos cinematográficos e morais, que filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” fazem sobre a vida nas favelas? Do ponto de vista do “agora por nós mesmos”, qual a crítica que vocês fazem a tais filmes?

Cacau Amaral: Acho que os dois são ótimos filmes, principalmente o “Cidade de Deus”. Tecnologicamente me agradou, mas a construção das personagens peca, pois é bem estereotipada; apesar de não acreditar que todo diretor tenha, necessariamente, que se preocupar com isso.

Cadu Barcelos: “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” são grandes filmes, com os seus aspectos e singularidades, mas são filmes de pessoas que observam as favelas, o primeiro com os traficantes em foco, o segundo com a polícia. “5 x Favela" tem o diferencial de ser “agora por nós mesmos”, uma oportunidade de a favela expor, falar e mostrar um pouco dela, do modo dela.

 
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