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a.r.t.e.
DISTÃNCIAS

Saudades do sertão
Por Henry Burnett

Numa cultura jovem, diariamente renovada, fica cada vez mais difícil lidar com a música tradicional

Tem muito de Jeff Lebowski em Bad Blake. O primeiro é o personagem central de “O Grande Lebowski” (“The Big Lebowski”, 1998, de. Joel Cohen), também protagonizado por Jeff Bridges. Em “Coração Louco” (“Crazy Heart”, 2009, de Scott Cooper), Bridges vive um conturbado cantor country, Blake, que guarda a displicência e a porra-louquice do seu duplo Lebowski, só que em registro suicida.

O que chama atenção no filme que deu o Oscar a Bridges é que ele também pode ser visto como uma refinada crítica a respeito da situação social da música nos Estados Unidos, que, por sua vez, espelha os países influenciados por sua cultura pop. Surpreende perceber o quanto a música country permaneceu íntegra como uma representação musical de um determinado estrato social naquele país –onde se imaginava há muito dizimada.

Embora o tema do alcoolismo esteja o tempo todo sendo lembrado no filme –Blake quase perde a vida em função do uísque–, é a música tradicional que está em xeque, simbolizada na vida turbulenta do seu cantor-símbolo decadente. Dessa decadência muito se pode supor.

Blake já não canta com a mesma compostura de antes –se é que a teve algum dia. Seu público se resume aos ouvintes da velha guarda, todos de sua geração. Todos decadentes. Por conhecer seu passado, quem ainda o admira é Jean (Maggie Gyllenhaal), uma jovem jornalista que trabalha num diário de interior e por quem ele se apaixonará algumas sequências depois; vale dizer que Jean é a única que não respira decadência no filme.

Musicalmente, Blake está para os norte-americanos como Renato Teixeira está para nós. A diferença é que Blake está cansado, não se interessa mais em compor, acha que os sucessos do passado dão conta de sua perenidade nos boliches e bares sujos por onde excursiona, e basta.

Até que a reaproximação, quase forçada pela carência, com o bonitão Tommy Sweet (Colin Farrell) –uma sombra opaca daquele que ele mesmo chama de seu mentor, Blake– oferece-lhe a chance de voltar a compor, já que as músicas novas que Sweet ouve não lhe interessam. Blake hesita, pois se considera incapaz de criar novos temas.

A presença de Blake no palco não é mais atrativa. Mesmo que suas músicas tenham “consistência”, ele não seduz mais. É Sweet quem as revela, mas o público não ouve Sweet, só o vê, e também não ouve Blake, e o que é pior, nem o quer ver. O máximo de sucesso àquela altura é abrir o show para Sweet.

Farrel está péssimo no filme, mas faz o que é preciso: parecer bonito –impossível não pensar na “formosura” de algumas das nossas mais recentes revelações musicais sertanejas...


Paralelos

Vale dizer que são muitas as possibilidades de aproximação entre a música sertaneja estadunidense e a nossa.

A se acreditar apenas no instantâneo fornecido pelo filme, o cenário parece idêntico: compositores mais tradicionais sendo substituídos por figuras bem apessoadas, sem rastro e lastro, a não ser uma leve referência ao passado interiorano que precisa ser atualizada, ou seja, empobrecida, caso ambicionem consagração comercial.

Em São Paulo, podemos, felizmente, medir isso com elementos muito presentes –e com isso talvez perceber as diferenças entre as duas experiências– graças à programação dedicada ao estilo em dois programas de televisão, “Viola, Minha Viola”, apresentado por Inezita Barroso, e “Sr. Brasil”, tocado por Rolando Boldrin.

Nem de longe os programas são refúgio de um estilo à beira da extinção. Ao contrário, a grade nos mostra o que segue sendo consumido numa imensa região que cobre parte de São Paulo, Rio, Minas, Paraná e se desdobra para inúmeras regiões culturais país afora.

Duplas sertanejas na casa dos 70, em pleno vigor, são constantes no programa de Inezita –ela própria uma das mais longevas intérpretes do gênero. Essas duplas têm ao que parece quase um modelo, Tonico e Tinoco, que são uma referência enviesada para grande parte das duplas “modernas”, que surgiram nas décadas de 80, principalmente a primeira delas, até hoje em atividade, Chitãozinho & Chororó.

Enviesado, porque, se o figurino e o comportamento de palco remetem ao universo country americano, as origens e a permanência de alguns desses artistas no Brasil escapa ao modelo americano, pois estão ancoradas em um lastro de difícil dissipação, a música de raiz.

As semelhanças acabam aí. Não há nada entre Saulo Laranjeira e Bob Dylan. Por isso quando o estilo foi massificado nacionalmente, isso significou também uma cesura em sua história.

Sem entrar no movediço terreno do julgamento de valores, não precisamos de muito para perceber que o que sobrevive à moda forçada é sempre aquilo que já existia antes que inventassem moda. Não precisamos de uma pesquisa radiofônica para saber que Chitãozinho & Chororó não são mais executados como antes. Nem que existe uma distância –sutil, talvez– entre eles e Victor & Leo.

Mas essas diferenças culturais entre países podem estar ligadas aos processos comerciais, à implantação do capitalismo lá e cá. O material musical veiculado no “Sr. Brasil” só permanece com tanta força porque o sertão ainda é sertão.

Isso o filme não tinha obrigação de nos mostrar. Não sabemos se o Sul dos Estados Unidos guarda algo que se assemelhe ao sertão de Minas Gerais. A discussão é menos de ordem qualitativa do que de ordem cultural. O Brasil não sabe bem o que fazer com sua tradição.

Hora parece algo vigoroso, motivo de orgulho, mas constantemente é apenas coisa de velho, de avô. E é. Daí a dificuldade de se lidar com isso numa cultura da juventude diariamente renovada. Ocorre que em alguns momentos uma dupla sertaneja pode ser tão importante para a compreensão do lugar da cultura brasileira como um artista consagrado em Nova York; penso aqui em Pena Branca & Xavantinho e em Tom Jobim. Tão distantes aos ouvidos do espectador, eles são emblemas do país.

De Tom muito se fala, pouco se ouve. Da dupla nem uma coisa nem outra. A não ser os velhos ouvintes. Poderíamos tomar apenas um exemplo, a versão que eles fizeram para “Canto do Povo de um Lugar”, de Caetano Veloso. A canção já havia sido gravada por Caetano em um álbum de 1975, “Joia”. O instrumental do arranjo é todo amparado em cordas de aço, inclusive com a viola caipira; a gravação ficou a encargo do grupo Bendengó (Gereba, Capenga, Zeca e Vermelho). Aqui a letra:

Todo dia o sol se levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia

Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde

Quando a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite

Se ouvirmos o álbum histórico, aparentemente a canção estava esgotada pelo belo arranjo e pelo canto de Caetano. A regravação de Pena Branca e Xavantinho poderia ser apenas uma “ruralização” do tema. Ao contrário, a gravação transformou-se numa interpretação para além do sentido musical. Um extravasamento do sentido oculto do poema.

Uma crítica tosca permite ver no texto o ciclo de nascimento e morte, simbolizados pelo amanhecer, o entardecer e o anoitecer. Mas, se na voz de Caetano ouvimos esse vínculo simbólico de modo claro, e se nos pareceu sempre uma canção da cepa de “Cajuína”, isto é, uma canção de cunho metafísico, quando ouvimos novamente pela primeira vez o tema com a dupla, já outra dimensão da existência se apresenta.

Nas vozes de Pena Branca & Xavantinho, o vínculo com a terra é restaurado. A canção renasce dando acesso à experiência do lavrador, do plantio, da colheita, e menos da existência no sentido filosófico original imposto pelo autor –embora estejamos a falar da mesmíssima coisa. Mas a poesia agora é o vínculo com algo que determina um marco temporal, um retrato da vida dos dois, uma intensa devoção ao chão que se pisa.

Para dar a essa aproximação a medida exata, precisamos pensar em um poeta que representou esse cenário que descrevemos em outras cores e dentro de outro espaço-tempo –talvez próximo ao lugar a que nos conduz a dupla: o poeta Matsuo Bashô.

Em “Trilha Estreita ao Confim” (Iluminuras, 1997), o poeta percorre estradas num caminho cujo único fim é “ver a lua cheia nascendo sobre as montanhas do santuário de Kashima” (p. 21); durante a viagem a pé, Bashô escreve e recolhe haicais.

colheita no arrozal
pousa a cegonha
outono na aldeia

Tosei

colheita noturna
sob a lua clara
ajudo os camponeses

Soha

amigos pardais
façam desta palha seca
seu ninho

Jijun


O sem sentido do caminho era observado pelo próprio poeta: “Era realmente espantoso o fato de termos vindo de tão longe apenas para observar o espectro tênue da lua, mas consolei-me lembrando a estória da poetisa que retornou de uma caminhada longa que fez para ouvir o canto do cuco, sem compor um único verso” (p. 23).

Quando Xavantinho morreu, era estranhamente incômodo ouvir Pena Branca só. Ele poderia ter musicado o poema que Bashô escreveu quando morreu seu melhor amigo, Sengin:

quantas memórias
me trazem à mente
cerejeiras em flor
Bashô


Depois disso, qualquer tentativa de mostrar a diferença entre um artista cuja vida é um sopro da obra e um sujeito que pensa em como vai se comportar na gravação do DVD é vã. Resta voltar ao nosso herói.


O heroi resignado

A presença cênica de Bridges é de fato magnífica, ele canta (dubla?) e toca uma velha guitarra Gretsch surrada com igual maestria. Se for de mentira o Oscar foi merecido pela dublagem, se é de verdade idem pela completude. Não fiquei sabendo, mas arrisco dizer que ele fez tudo, como só um grande ator faria. Farrel nem chega perto nesse quesito; para ficarmos apenas na dublagem.

O quadro final é de tristeza. Os mais jovens idolatram Sweet, mas desconhecem Blake, totalmente conformado. É quando a entrada da jornalista faz a reviravolta do filme. Blake vê nela a renovação de promessas perdidas do passado: no filho de quatro anos que ela cria sozinha a imagem do seu rebento, que não vê há décadas. Será Jean quem renovará Blake até o limite. Mas o alcoolismo retorna sempre, destruidor, e até ela se afastará de um impotente e ex-viril grande artista.

Com um dado que só se explica ao final, é dessa pancada sentimental que sai a nova safra de canções do velho. Temas melancólicos, tensos, arrastados, são então compostos em profusão. Numa das tomadas finais de uma performance de Sweet, ele está sentado e canta um tema escrito por Blake para a perda de Jean. É quando vemos que nem a graciosidade comercial do cantor jovem pode fazer frente ao triste fim da música de Blake, ou melhor, da música tradicional. Não basta ser bonito, é preciso ter sofrido.

Parece claro a todos que o que Blake encarna é um passado digno. Mas para que tanta dignidade, perguntaria um jovem fã de Sweet, bêbado, num rodeio que poderia ser em Barretos? É aí que o espectador não deve confundir os efeitos do álcool com falta de nobreza. Blake se revela em todo seu encantamento quando joga o “charme caubói” sobre Jane, numa das cenas de sedução mais bem feitas dos últimos tempos. Então, sua dignidade inicia a subida à superfície.

Espero não estar enganado quanto à mensagem, mas não é na saída do alcoolismo que está a chave de seu pleno renascimento. Antes, em seu renovado fôlego autoral. Na cena com seu agente, em que ele ouve o novo tema sendo cantado por Sweet, nota-se que está vivamente feliz, até que o gordo cheque lhe cai nas mãos e ele se desliga da própria sublimidade e retorna ao drama.

A fotografia tantas vezes exposta das paisagens intocáveis do sertão de lá, tão próxima daquela música plena de experiências simples, não dá conta de mantê-la viva. O tempo, a beleza opressora da juventude, o álcool, a finitude quase ocultam a paisagem, que só vai ser elogiada na última cena filme, por um herói redimido.

O núcleo do filme pode ser resumido em uma só frase, e é dado de brinde ao espectador em uma das respostas ditas à jornalista Jean, na metade do filme. Uma pergunta que ele responde de forma tão lacônica, que decerto engana a maioria, que talvez nem se lembre dela quando a sessão acaba.

Jean pergunta: “– De onde vêm as suas músicas?”. Ele então nos explica tudo: “– Da vida, infelizmente”.


Publicado em 14/8/2010

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Henry Burnett
É doutor em filosofia pela Unicamp e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo. http://www.myspace.com/henryburnett

 
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