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dossiê
LITERATURA

Escrito sobre o corpo
Por Christina Stephano de Queiroz

Premiado escritor espanhol, Marcos Giralt Torrente descreve a difícil relação que teve com o pai em seu novo livro, "Tiempo de Vida"

A complexa relação que manteve com seu pai, o pintor Juan Giralt, é o tema de "Tiempo de Vida" (ed. Anagrama), o novo livro do escritor Marcos Giralt Torrente, lançado neste ano na Espanha. O livro causou longas discussões no país, devido ao fato de não se tratar de uma obra de ficção, mas de um relato pessoal, em que o autor descreve com franqueza os detalhes de seu relacionamento com o pai e os sentimentos que nutria por ele, inclusive os de aversão, rivalidade e incompreensão.

"Tiempo de Vida" começou a ser feito pouco antes do nascimento do primeiro filho do escritor e um ano após a morte de seu pai, em 2007, aos 67 anos. Juan Giralt era um dos nomes mais prestigiados da pintura espanhola contemporânea. "Meu pai não morreu para mim até que eu terminei de escrever o livro", diz o escritor.

O livro, porém, almeja a conciliação _com o pai e consigo mesmo. "Se em sua novela anterior ele matava a figura paterna, em 'Tiempo de Vida' devolve a vida ao pai já morto. Tal é o poder alquímico da escrita", escreveu a crítica do jornal "El País".

Na entrevista a seguir, o escritor explica porque resolveu expor sua intimidade em "Tiempo de Vida", que está sendo negociado por editoras brasileiras. "Acredito que livros sobre a dor são assim: o corpo pede para eles serem escritos", afirma.

Nascido em Madri, em 1968, Marcos Giralt Torrent estudou filosofia, é crítico literário de "El País" e autor dos livros “Paris” (Prêmio Herralde de novela) e “Os Seres Felizes”, ambos traduzidas para o português pela editora Teorema.

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Por que o sr. decidiu levar à literatura uma experiência tão íntima?

Marcos Giralt Torrente: Mais do que uma decisão, o livro surgiu de uma absoluta necessidade interna. Nem sempre ocorre assim, pois muitos autores escrevem por convenção e porque o ofício exige publicar pelo menos duas vezes por ano. Meu novo trabalho resultou da necessidade de retratar a experiência da realidade por meio da escrita. Acredito que livros sobre a dor são assim: o corpo pede para eles serem escritos. “Tempo de vida” foi produzido em razão da necessidade que eu tinha de organizar e esclarecer a experiência vital da dor. Meu pai não morreu para mim até que eu terminei de escrever o livro.


Em algum momento teve dúvidas se deveria publicá-lo?

Giralt Torrente: Nunca. Eu sempre soube que, ao retratar uma experiência pessoal, intimidaria outras pessoas, como, por exemplo, a minha família e outros personagens secundários do livro. Desde que comecei a escrevê-lo, tinha consciência de que mostraria a intimidade alheia e, para ser justo, resolvi também expor a minha, que, aliás, acaba por sobressair. Mostrar também minha intimidade foi a única forma de eu continuar sendo digno ao expor a vida dos outros.


Seu novo livro foi considerado um ato de coragem. Como avalia a recepção da crítica?

Giralt Torrente: Acho surpreendente que, em teoria, países católicos, como Espanha ou Brasil, sejam mais liberais com relação a sexo e outros temas, se comparados a países anglo-saxões. No entanto, livros como o meu, que retratam a experiência intima entre pai e filho são muito comuns na Inglaterra ou nos Estados Unidos. Alguns exemplos importantes são “A Invenção da Solidão”, de Paul Auster, e “Patrimônio”, de Philip Roth. Portanto, fiquei surpreso quando na Espanha as pessoas se chocaram com o conteúdo pessoal da minha obra, ao passo que em lugares considerados mais puritanos tratar da relação entre pai e filho na primeira pessoa é algo recorrente.

Minha narrativa parte de uma ótica particular, mas é uma história universal. Fala de um desencontro que, de forma inesperada e dramática, se soluciona por meio do amor e da desistência. A história obedece a uma realidade, mas poderia ter sido inventada. Quero dizer que a narrativa molda a realidade à literatura, mas os fatos são reais, os personagens são reais.

Criei um ritmo e uma tensão narrativa, mas todo o resto corresponde à realidade. E o fato de que a história seja baseada em acontecimentos reais não deveria interferir no leitor. A trama também está muito ligada à história da Espanha nos últimos 30 anos. Talvez isso não fique claro para um leitor estrangeiro, mas para um espanhol sim.


Como sua família recebeu o livro?

Giralt Torrente: Sempre que eu escrevia algo, comunicava à família, para que ela não fosse surpreendida com a publicação. Não posso dizer que o livro é autobiográfico, pois mostra somente parte da minha vida que está relacionada com meu pai. Dos personagens secundários, somente conto uma parte da história essencialmente necessária para explicar minha relação com ele. De todo modo, revelar minha intimidade está sendo uma experiência estranha e chocante. Mas, repito, foi um livro escrito sob a força da necessidade.


Qual é sua motivação primordial quando escreve?

Giralt Torrente: Minha grande motivação é descobrir facetas da realidade. Além disso, como leitor, tenho um juízo estético e, como escritor, gosto de colocá-lo em prática, pois, antes de ser autor, o escritor é leitor. A literatura muda os homens de forma individual. Talvez até possa mudar o mundo, mas aí é ir longe demais... Só escritores primários escrevem apenas para entreter.


Qual o tema político que mais preocupa o sr. atualmente?

Giralt Torrente: O maior problema para mim são as mentiras inventadas pelos políticos. Os grandes problemas do mundo estão relacionados com a miséria, e a coisa mais obscena que existe é alguém morrer de fome. Em vez de se centrarem em assuntos importantes, os políticos discutem questões totalmente secundárias, como a flutuação dos mercados e a reforma da bolsa.


Que escritores espanhóis contemporâneos admira?

Giralt Torrente: Enrique Villa-Matas, Ignacio Martínez de Pisón, Ray Loriga... Dos brasileiros, um livro clássico que me impressionou muito foi “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.


Qual é o seu novo projeto?

Giralt Torrente: Estou trabalhando em um volume de contos totalmente ficcionais, mas que estão conectados com minhas preocupações vitais sobre a realidade.


Publicado em 14/8/2010

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Christina Stephano de Queiroz
É jornalista e faz doutorado na Universidade de Barcelona, na cadeira Construção e Representação de Identidades Culturais.

 
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