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LIVROS

O berço inglês da modernidade
Por Mario Gioia

O crítico Lorenzo Mammi analisa os ensaios de Giulio Carlos Argan reunidos no livro "A Arte Moderna na Europa"

Nem as verdejantes paisagens de Constable, nem os altivos retratados de Gainsborough. Para o italiano Giulio Carlo Argan, a arte inglesa é peça-chave no desenvolvimento da modernidade na Europa com outros temas e nomes: as historietas morais de Hogarth, os retratos acadêmicos de Reynolds e as figuras shakesperianas de Fuseli.

Além de valorizar a arte inglesa, em geral vista como lateral na evolução da arte na Europa, o olhar do prestigiado crítico e político italiano, autor de livros-referência como “Arte Moderna” e “Clássico Anticlássico” (lançados aqui pela Companhia das Letras), também surpreende pela valorização de outros nomes menos incensados, como o escultor italiano Antonio Canova (1757-1822), e pelo diálogo que encontra entre, por exemplo, a cadeira Wassily, de Marcel Breuer (1902-1981), figura menos celebrada da Bauhaus alemã, e os desenhos do bem mais famoso Paul Klee (1879-1940).

“A Arte Moderna na Europa – De Hogarth a Picasso”, também lançado pela Companhia das Letras, foi traduzido pelo crítico de arte e curador Lorenzo Mammì, professor da USP (Universidade de São Paulo) e ex-diretor do Centro Universitário Maria Antonia. A seguir, Mammì destaca a leitura incomum de Argan a respeito da arte europeia, nos 40 ensaios do livro, compilados por um ex-aluno, Bruno Contardi, que abarcam da modernidade das pinturas de William Turner (1775-1851) à velocidade da estética futurista de Umberto Boccioni (1882-1916)

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Um dos pontos mais particulares de Argan em “A Arte Moderna na Europa” é a valorização de Hogarth, Reynolds e Fuseli e, por extensão, da arte inglesa dentro do desenvolvimento da arte europeia. Por quê?

Lorenzo Mammì: Acredito que o que interessava Argan, mais do que as personalidades singulares, era a maneira em que o ambiente da arte inglesa foi se definindo, a partir de meados do século 18: sem poder contar com uma tradição própria, sem se apoiar nos princípios religiosos que eram próprios da arte barroca continental e surgindo em um ambiente cultural fundamentalmente empirista.

Hogarth, Reynolds e os outros artistas da Royal Academy defendiam a comparação dos estilos e dos procedimentos de todos os grandes mestres do passado para que o aluno aprendesse a escolher. O estilo pessoal surgia dessas escolhas. Isso introduz um procedimento crítico no ensino da arte. A tese de Argan é que a arte moderna é essencialmente crítica, por isso julgou que a arte inglesa do século 18 fosse a primeira a se fundar em princípios “modernos”.

 
Num ensaio sobre Reynolds, Argan escreve: “Em síntese, pretende conferir ao gosto inglês um endereço clássico e ao mesmo tempo moderno, livre da subserviência às regras e derivado, ao contrário, de uma clara avaliação crítica. Nesse sentido, Reynolds foi o primeiro a intuir e a declarar que a arte é em primeiro lugar um fato cultural”. É um olhar bastante generoso e novo sobre o artista, que em geral é lido apenas por sua produção de retratos e por sua atuação à frente da Royal Academy of Arts, não? E o conceito de poética vem em Argan a partir do estudo do artista?

Mammì: Acho que Reynolds interessa a Argan sobretudo como teórico e educador. Como artistas, Argan parece admirar mais Gainsborough e Constable do que Hogarth e Reynolds. Mas Hogarth e Reynolds foram mais determinantes na elaboração dos conceitos que determinaram o surgimento da cultura artística moderna, que era a questão que interessava Argan na época. O conceito de poética é fundamental em Argan, mas não sei se surgiu durante o estudo de Reynolds ou simplesmente foi utilizado nele.

 
Mesmo com a valorização de nomes como Hogarth e Reynolds, Argan dá ao posterior Turner um papel mais crucial dentro das artes. “Chuva, Vapor e Velocidade” (1844) é realmente o ponto de partida da modernidade? Outros teóricos também compartilham tal ideia?

Mammì: No ensaio, Argan tenta reconduzir Turner às poéticas inglesas do sublime. É uma posição um pouco diferente das de quem quer fazer de Turner um antecessor do impressionismo. Tenho a impressão de que, se Argan tivesse de escolher um ponto de partida da modernidade do ponto de vista do resultado artístico (deixando do lado a importância cultural do movimento inglês como um todo), este seria Goya, e não Turner.


A obra de Antonio Canova é analisada por Argan em um grande ensaio do livro. Ele relaciona sua obra ao barroco de Bernini, também tema de texto em “Imagem e Persuasão”. O barroco era um período caro a Argan, assim como a obra de Canova? Por quê?

Mammì: Na juventude de Argan, tanto o barroco quanto o neoclassicismo eram muito mal avaliados na Itália, sobretudo por influência do filósofo Benedetto Croce, que considerava fundamento da arte a intuição pura. A retórica barroca e o intelectualismo neoclássico seriam, então, procedimentos estranhos à arte.

Argan, ao contrário, sempre se preocupou com a transição entre experiência estética e valores culturais mais gerais (daí seu interesse pelas poéticas) e esses períodos, em que a arte encarna mais explicitamente valores, são seu terreno privilegiado de pesquisa. Os textos sobre neoclassicismo, em particular, são quase todos do fim da década de 1960, um período em que as relações entre arte e política eram especialmente atuais.


O único ensaio sobre o impressionismo é o que aborda a obra de Manet. Qual a razão disto? Existem textos sobre artistas mais recentes feitos por Argan que ainda não foram compilados e publicados?

Mammì: “A Arte Moderna na Europa” é uma antologia de ensaios escritos no decorrer dos anos, dependendo das ocasiões. Não é um livro projetado para ser exaustivo. No caso do impressionismo, é preciso lembrar que Argan ministrava em Roma os cursos de arte moderna, do século 18 até o romantismo e o realismo, enquanto os de arte contemporânea, do impressionismo em diante, eram ministrados por Nello Ponente.

Uma parte desses ensaios deriva de suas pesquisas universitárias. Os outros, sobre artistas mais recentes, são de caráter polêmico ou militante, e o impressionismo já não era uma questão candente. Além disso, o impressionismo fora o tema central de seu mestre, Lionello Venturi. É natural que o discípulo considerasse a questão mais ou menos resolvida e procurasse outros assuntos.

Quanto aos textos sobre artistas recentes, Bruno Contardi projetou uma publicação em vários volumes dos textos de Argan a respeito dos contemporâneos, mas o projeto nunca chegou a ser realizado, e esses textos continuam dispersos, em sua maioria.


Por que você considera que a relação encontrada entre o desenho de Klee e o mobiliário de Breuer é um dos achados de Argan nesta publicação?

Mammì: Estamos acostumados a considerar a poltrona Wassily apenas como uma genial solução técnica. Acho admirável a maneira como Argan consegue mostrar que ela carrega significados culturais complexos e que Breuer, aparentemente o mais pacífico e integrado dos artistas da Bauhaus, é na verdade o que melhor compreendeu a lição de Klee, o mais inquieto e inquietante dos mestres da escola.


Outro ensaio, de 1974, condena o que Argan conceitua como “revival”. Poucos anos depois, outro teórico italiano de peso, Achille Bonito Oliva, vai fazer o elogio da transvanguarda, que justamente tem neste “revival” um de seus pontos-chave. Argan, então, não simpatizava com a transvanguarda italiana nem com as correntes pós-modernistas que também utilizavam tal conceito?

Mammì: Evidentemente, Argan não nutria nenhuma simpatia pelas poéticas da transvanguarda, que contradiziam sua ideia de história. Isso transparece não apenas no ensaio sobre o “revival”, como na sua apresentação e na introdução de Bruno Contardi. Curiosamente, porém, quando se tratou de escrever a continuação de seu volume sobre “Arte Moderna”, convidou justamente Bonito Oliva para a tarefa. Sinal que, embora não concordasse, julgava que as teses de Oliva diziam algo de verdadeiro sobre a situação contemporânea.


Crítico de arquitetura famoso, Argan também vê Gropius como um dos seus ícones na área, em detrimento de Le Corbusier, por exemplo. Isso mudou com o tempo?

Mammì: Argan foi amigo de Gropius. Escreveu sobre o arquiteto alemão depois da guerra, durante o período de reconstrução das cidades italianas. Era questão de escolher um partido urbanístico, e Argan preferia a metodologia de Gropius, que considerava mais respeitosa do processo histórico, do que a planificação de Le Corbusier, que lhe parecia pressupor uma idéia atemporal de funcionalidade. Os textos dessa época são polêmicos. Com o tempo suavizou sua posição e reconheceu a grandeza do adversário. Mas acho que nunca mudou de ideia.

  
No Brasil, Argan é conhecido por seus estudos de arte, mas na Itália sua atuação política é bastante destacada. Qual a avaliação geral da atuação de Argan à frente da Prefeitura de Roma e como senador?

Mammì: Argan assumiu a Prefeitura de Roma esperando poder aplicar suas ideias urbanísticas e pôr em prática seu longo engajamento para a valorização e a democratização do enorme patrimônio cultural da cidade. Ficou no poder por apenas dois anos e não se pode dizer que tenha realizado seu projeto.

Conseguiu, é verdade, evitar alguns estragos. Mas acho que sua breve administração representou uma virada: foi o primeiro prefeito eleito em Roma pela esquerda e o primeiro a colocar questões de racionalização urbanísticas e de patrimônio em primeiro plano. É verdade que, nos últimos tempos, as prioridades mudaram de novo.


O livro:

"A Arte Moderna na Europa - De Hogarth a Picasso", de Giulio Carlo Argan. Tradução: Lorenzo Mammì. Ed. Companhia das Letras, 744 págs., R$ 89.


Publicado em 14/8/2010

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Mario Gioia

É jornalista, crítico de artes e curador independente.



 
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