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prosa.poesia

O peso do vazio
Por Carlos Adriano

esse
oco
(desabrigo sob o domo pálido do palíndromo)
de pedra depredado

como soco, sufoca
como foco, desconforto
como faca, sufraga
como solo, desconsola

meu monumento eu
momento memento (morri)
memo mó

espesso desespero esparso
descanso escasso
(pouco espero)

a graça que se esgarça
ex nihilo ex idílio exílio

sem porto nem fulcro sou um morto
que ainda não repousa no sepulcro

torpor tordor pordor

não há gazua nem
graal apaziguador

o que não cabe
nem acaba

a presença de lembrança
não compensa
a ausência da pele, pulsa

a estaca do tempo não estanca
que parta a aorta sem órbita
aura que mora na memória (pó e sua)

com a metade que me falta
af(o)(a)go o findo desejo
no meio fio
de cá por diante

dor
avante
carrego
o peso do vazio

.

Carlos Adriano
É diretor de cinema e doutor em ciências da comunicação pela USP, realizador de "Remanescências" (coleção New York Public Library), "A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha" (melhor curta documentário Chicago Film Festival) e "Militância", entre outros filmes. Com Bernardo Vorobow, é autor do livro "Peter Kubelka: A Essência do Cinema" e organizador de "Julio Bressane: CinePoética".

 
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