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Vernant interroga o tema recorrendo à figura de Baubó, personagem obscura da mitologia grega, que ora se apresenta como um espectro noturno ou uma espécie de ogra assemelhada às divindades infernais, ora na pele de uma velhinha bondosa e engraçada. É sob esta feição que ela surge para atenuar o sofrimento de Deméter, em luto pela perda da filha: os gracejos e gestos indecentes de Baubó conseguem romper o jejum da deusa, provocando nela uma explosão de riso.

Vale observar que as representações plásticas do episódio mostram habitualmente um personagem feminino reduzido a um rosto, mas que é ao mesmo tempo um baixo ventre. Tal constante confere um significado inequívoco ao ato de Baubó, quando levanta o vestido para exibir sua intimidade: o que ela mostra a Deméter é “um sexo disfarçado de rosto, um rosto em forma de sexo; poderíamos dizer: o sexo feito máscara”.

Organizados de outra forma, embaralhando o enigma, é possível ver aí os elementos essenciais que estão presentes nos desenhos de “Minha Mãe Morrendo”: a velha, o rosto, o luto, o terror. Acrescente-se a isso a referência de que o nome de Baubó evoca o tema da maternidade, já que significa “ventre”, confirmando o fato de ter sido ela a ama de leite de Deméter.

Esses elementos, assim reunidos, nos autorizam a indagar a facialidade da Górgona sob um novo prisma e, para além de suas ambivalências manifestas, compreendê-la como a mais sinistra representação do feminino, em sua incontestável matriz. Tal é, por sinal, a conclusão categórica de Camille Dumoulié, ao analisar o mito: “Essa terrível mulher, paradigma de todas as mulheres, que o homem teme e busca ao mesmo tempo, para o qual a Medusa oferece a máscara, é a mãe”.


3.

A velha, o rosto, o luto, o terror. Ou, poderíamos dizer, a mãe, o sexo, a morte, o olhar. Seja como for, os temas que estão no centro das imagens aqui confrontadas, entrelaçados uns aos outros, compõem uma versão decididamente trágica do destino humano. As interpretações psicanalíticas dessa rede temática já insistiram o suficiente na aproximação entre a visão do sexo da mulher e o complexo de castração, sublinhando o papel fundamental que a pulsão escópica desempenha nessa relação.

Vale lembrar que, na origem de tais estudos, encontram-se justamente dois conhecidos ensaios freudianos, um sobre a cabeça da Medusa e o outro sobre o episódio do encontro de Baubó com Deméter. A tese central de Freud repousa na ideia de que o horror da castração tem sua principal motivação na visão dos genitais femininos, o que precipita as fantasias de despedaçamento do corpo –dentre as quais destaca-se a decapitação.

O pavor da castração, contudo, pode ser considerado uma atenuante diante de um terror primitivo, não motivado, ao qual Vernant alude como medo em estado puro, que traduz “o horror terrificante de uma alteridade radical”. É por essa razão que, do ponto de vista psicanalítico, as fantasias relacionadas à castração, por mais insólitas e assustadoras que sejam, tendem a ser interpretadas como roteiros que têm a função de estruturar a ansiedade, revelando o esforço humano de organizar o horror através de uma forma legível. No horizonte das representações do sinistro, haveria um “pavor do informe, daquilo que abole todas as categorias, isto é, da homogeneidade absoluta da morte”.

A figura de Medusa toca esse medo primordial e daí resulta sua força. Ainda que seja um monstro “representável, mas nunca apresentável”, como observa Dumoulié, o fascínio que ela nos provoca por certo decorre do fato de deixar em descoberto o próprio limite da representação. Poucos foram os artistas modernos que conseguiram dar forma a essas bordas intangíveis; entre eles, podemos lembrar o nome de Picasso, cuja “Tête de Femme Criant” (1903) estabelece um diálogo de fundo com os esboços de Flávio. Diante de uma obra como essa, com suas linhas marcantes que expressam o último combate contra a morte, o espectador se transforma num voyeur sombrio, fascinado pelo terror e pela repulsa que sempre suscitam as imagens fúnebres.

O mesmo ocorre com a visão da “Série Trágica”, somado ao fato de que, nesta, as figuras anônimas cedem lugar à mãe do próprio artista que, investido de estranha lucidez, aceita encarar o enigma da origem e do fim. O olhar que preside os retratos de “Minha Mãe Morrendo”, como que tocado pela ambiguidade das antigas máscaras trágicas, revisita o segredo que une o rosto ao sexo, a vida à morte, o filho à mãe. Eis, pois, o escândalo maior desses desenhos: tal qual um Perseu moderno, vivendo na São Paulo de meados do século XX, Flávio de Carvalho descobre a Medusa ali mesmo, dentro de casa –no quarto ao lado, na cabeceira da mãe.


Este artigo faz parte da publicação “Caderno Sesc Videobrasil 05 – Clio, Pátria”.


Lançamento e debate:

A quinta edição do “Caderno Sesc Videobrasil 05 – Clio, Pátria”, com curadoria da crítica Lisette Lagnado, será lançada no próximo dia 19/6, sábado. Na ocasião ocorrerá, às 17h, um debate com Solange Farkas, presidente do Videobrasil e curadora do MAM-BA, o curador Eduardo Brandão, a crítica literária Eliane Robert Moraes e do artista Lucas Bambozzi. A mesa será mediada por Lisette Lagnado. Na Sala de Leitura do Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195, 2º andar, tel. 11 3095 9400). Entrada gratuita.


Publicado em 15/6/2010

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Eliane Robert Moraes
É crítica literária e professora de estética e literatura na PUC-SP e pesquisadora do CNPq. Publicou, entre outros, "Sade - A Felicidade Libertina" (Imago), "O Corpo Impossível" (Iluminuras/Fapesp, 2002) e "Lições de Sade - Ensaios Sobre a Imaginação Libertina" (Iluminuras, 2006). Traduziu "História do Olho", de Georges Bataille (Cosac Naify).

1 - Id., ibid., p. 41.


2 - Conforme Jean-Pierre Rumen, “Triskell”, trad. Norberto Carlos Irusta, in “Dicionário de Psicanálise”, tomo I. Salvador: Ágalma, 1994, p. 202.


3 - Camille Dumoulié, “Medusa (a cabeça de)”, in Pierre Brunel, “Dicionário de Temas Literários”, trad. Carlos Sussekind e outros. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997, p. 623.


4 - São eles: “A cabeça da Medusa” e “Um paralelo mitológico com uma obsessão visual”. Remeto à “Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud”, Rio de Janeiro, Imago, volumes XVIII e XIV.


5 - Jean-Pierre Vernant, op. cit., pp. 50 e 155.


6 - Renato Mezan, “A medusa e o telescópio ou Vergasse 19”, in Adauto Novaes (org.), “O Olhar”. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 466.


7 - Camille Dumoulié, op. cit., p. 624.

 
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