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LANÇAMENTO

O olho e o olhar
Por Humberto Pereira da Silva


Cena do filme "Solaris", de Andrei Tarkovski
Divulgação

“Lacrimae Rerum” traz ensaios do filósofo Slavoj Zizek sobre o cinema de Hitchcock, Lynch, Kieslovski e Tarkovski

O filósofo esloveno Slavoj Zizek é uma das presenças mais destacadas da linha de frente do debate filosófico, político e cultural das décadas recentes. A ressonância de seu pensamento se faz sentir da teoria da ideologia à crítica da subjetividade, e suas intervenções têm provocado controvérsias tanto quanto estimulam reflexões.

Fortemente influenciado por Hegel, Schelling, Marx e Lacan, a partir principalmente dos pressupostos deste último, as posições teóricas que defende apontam para uma crítica aos diversos caminhos da cultura e da política sustentados pelos pós-modernistas.

Característica da estilística de Zizek é o movimento pendular: seus escritos oscilam entre uma mescla de abstrações conceituais, extraídas de autores que sedimentam suas ideias e questões suscitadas pelo universo da cultura pop.

Em suas intervenções, pode-se observar preocupação que visa a articular elementos da cultura erudita e a cultura de consumo de massa, criada pela indústria do entretenimento. Demonstração dessa preocupação está presente em seus ensaios sobre cinema moderno, colididos no livro “Lacrimae Rerum” (Boitempo Editorial, 180 págs.).

O título do livro alude à passagem da “Eneida”, de Virgílio: “sum lacrimae rerum et mentem mortalia tangunt” (“há lagrimas pelas façanhas e os destinos dos mortais tocam o coração). Em “Lacrimae Rerum”, a alusão à sentença de Virgílio se insere no contexto de exposição da trilogia das cores, de Krzystof Kieslowski: nos planos finais de “A Liberdade É Azul”, “A Igualdade É Branca” e “A Fraternidade É Vermelha”, o personagem principal está chorando. Mas, observa Zizek, suas lagrimas são ficcionais (“lacrimae rerum”), vertidas em público justamente quando não há lamento; dessa forma, não se expressam espontaneamente, e sim como encenação.


Objeto de fascínio

O que se tem com o título (aparentemente estranho num livro sobre cinema) é uma chave para o leitor ficar atento à visão de cinema de Zizek: há lagrimas pelas façanhas, por aquilo que se mostra (no caso do cinema, por meio da tela), mas essas lágrimas são inadvertidamente encenadas na encenação. Não se trata de um choro “real”, como não é “real” o sentimento do espectador. Este, como o ator nas sequências finais da trilogia, expressa o que convém e é seguro em público.

Esse é um dado que permite ao leitor acompanhar os argumentos de Zizek nos cinco ensaios de “Lacrimae Rerum”: “A teologia materialista de Krizystof Kieslowski”, “Alfred Hitchcock ou haverá uma maneira de fazer um ‘remake’ de um filme?”, “Andrei Tarkovski ou a Coisa vinda do espaço interior”, “David Lynch ou a arte do sublime ridículo” e “Matrix ou os dois lados da perversão”.

A partir da ideia de que os sentimentos expressos são seguros em público, o que Zizek oferece é uma perspectiva na qual o cinema se mostra como um espelho em que se possa estabelecer cumplicidade entre os sentimentos dos personagens na tela e os do espectador, naquilo que há de explícito e no que convém manter numa zona abscôndita.

Da cumplicidade entre o que se passa na tela e os sentimentos do espectador, deriva outra chave para a apreensão dos ensaios de “Lacrimae Rerum”, a questão do “olhar ausente”. Esta é tratada no segundo ensaio, sobre Hitchcock. Em oposição aos críticos cognitivistas da teoria psicanalista de cinema, Zizek se apoia na antinomia lacaniana entre o olho e o olhar: o olho vê o objeto e o objeto de algum modo devolve o olhar.

O olhar está do lado do objeto; ele representa o ponto cego no campo visual a partir do qual a imagem “fotografa o espectador”. Uma vez que o sujeito não pode ver diretamente o verdadeiro objeto de fascínio, ele realiza uma espécie de “reflexão acerca de si” através do qual o objeto que fascina se torna o próprio olhar.

O que é crucial na perspectiva de cinema de Zizek é que ela envolve a inversão da relação entre sujeito e objeto. A cena mais elementar não é a que existe para ser olhada, mas a ideia de que se está sendo observado pela câmara.

Num sentido mais amplo, o que importa não é a percepção “real” do que se passa: a fantasia não está na cena que atrai o olhar, mas no olhar imaginado que a observa. A ação, encenada ou não, se torna um “objeto-fetiche”. O que Zizek procura mostrar é que o sujeito precisa do olhar da câmara como uma espécie de garantia ontológica de sua existência.

Nesse sentido, o espectador do filme está na posição de quem é olhado, tanto quanto os personagens do filme. Essa é a perspectiva aberta por filmes como “Janela Indiscreta” e “Um Corpo Que Cai”, que são examinados por Zizek. E que pode ser adotada para o exame de filmes que ele aborda em outros ensaios de “Lacrimae Rerum”, como “A Estrada Perdida”, de David Lynch, e “Solaris”, de Tarkovski.

Esses filmes também se oferecem para a discussão da antinomia entre o olho e o olhar. Em “A Estrada Perdida”, um personagem misterioso carrega uma câmara e filma o interior da casa do casal principal; em “Solaris”, o planeta misterioso enxerga o que se passa na mente dos tripulantes da nave que tentam desvendar seu mistério.


Multiplicidade de fantasias

Nos dois ensaios iniciais do livro, Zizek apresenta elementos para que se possa apreender sua visão de cinema, a relação que se estabelece entre o espectador e o filme, tendo ao fundo os pressupostos da psicanálise lacaniana.

A se tomar as chaves que Zizek oferece para a incursão no cinema, decorre que um filme, por mais banal que seja, entrelaça espectador e imagem numa teia em que o “real” e o “simbólico” se interpenetram sem setas de aviso. Já nos ensaios seguintes, sobre David Lynch e Tarkovski, a preocupação do filósofo é menos com uma visão de cinema e da relação entre o filme e o espectador do que com o espaço diegético da narrativa.

A narrativa de “A Estrada Perdida” é examinada pelo eixo da diferença sexual: há duas versões do personagem masculino vividas por atores diferentes e duas versões da mesma mulher vividas pela mesma atriz.

Zizek gira a discussão sobre “A Estrada Perdida” em torno da questão do “sentido de realidade”. A “realidade” não é sustentada numa única fantasia, mas numa multiplicidade inconsistente de fantasias, e essa multiplicidade gera o efeito de densidade impenetrável que experimentamos como “realidade”.

Contra os defensores do discurso da “realidade múltipla”, ele advoga que o suporte fantasmático da realidade em “A Estrada Perdida” é necessariamente múltiplo e inconsistente. O desafio que se apresenta a David Lynch é: como, com o espaço diegético da narrativa, passar ao espectador a impenetrabilidade e inconstância da realidade? No ensaio, Zizek mostra como isso foi feito por ele.

Trabalho similar de exame é feito com “Solaris”, de Tarkovski. O planeta misterioso Solaris também fornece a Zizek elementos para uma incursão sobre o “sentido de realidade”. Os cientistas na nave tentam se comunicar com algo que se encontre no planeta, mas sempre falham: Solaris é um Outro impenetrável, sem comunicação. Mas, aparentemente, Solaris é um grande cérebro, que lê a mente dos tripulantes da nave, que sabe de seus desejos e fantasias traumáticos. E, por isso, enlouquece os cientistas, que são acometidos de alucinações. Solaris materializa na realidade um suplemento de fantasia que o sujeito nunca reconhece, embora o acosse o tempo todo.

O que se tem é a ideia de que a viagem exterior em “Solaris” é apenas a exteriorização ou a projeção da viagem iniciática interior para as profundezas da psique. Aqui, novamente, Zizek mostra como, com espaço diegético da narrativa, a Coisa vem do “espaço interior”.


Inconsistências de “Matrix” e de Zizek

No conjunto de ensaios de “Lacrimae Rerum”, o que trata de “Matrix” está solto. E, nele, notam-se alguns dos problemas da leitura de cinema proposta por Zizek. Sobre Kieślowski, Hitchcock, David Lynch e Tarkovski, embora não explicite, ele tem em vista o pressuposto da autoria.

O diretor responde pelo filme, pelas questões que suscita, pelos temas que aborde, por uma determinada visão de mundo, de concepção de arte, da relação entre razão e fé, entre realidade e fantasia, entre sacrifício e felicidade. Em “Matrix”, como deixa subentendido, não há autor (os irmãos Wachowski são citados numa nota no início do ensaio e nos parágrafos finais).

O exame de “Matrix” realizado pelo filósofo consiste basicamente em apontar as diversas inconsistências que a narrativa revela. Mas esse procedimento adotado por Zizek gera objeção: quem responde pelas inconsistências? Ao tratar de “Matrix”, ele se afasta dos pressupostos da autoria e, logo, de certa maneira de se entender o sentido de uma obra cinematográfica, como expressa nos ensaios anteriores.

Essa objeção se torna mais aguda à medida que Zizek realça que as inconsistências na narrativa de “Matrix” seriam a causa do insucesso da sequência (“Matrix Reloaded” e “Matrix Revolutions”). O que é razoável, mas isso não foi feito por ele, é que “Matrix” pode ser examinado como fábula para consumo de massas criado pela indústria do entretenimento. O insucesso de “Matrix Reloaded” e de “Matrix Revolutions” pode ser creditado aos magnatas da indústria.

Outro aspecto que gera objeção em “Lacrimae Rerum” -e que também se encontra no ensaio sobre “Matrix”- é que Zizek afirma preferir “uma imersão ingênua em contraste com as leituras intelectualistas pseudossofisticadas que projetam no filme filosofias refinadas ou distinções conceituais”.

O que Zizek tem em vista é que “Matrix” se prestaria à projeção de “filosofias sofisticadas”, como a da separação entre mundo inteligível e sensível, de Platão, ou o argumento do sonho, de Descartes. Mas “Matrix”, acentua o filósofo, é coberto por inconsistências para se permitir a projeção de filosofias.

O problema é que Zizek esmiúça as inconsistências de “Matrix” como se esmiuçasse as de um tratado filosófico, como se uma obra de arte -se assim “Matrix” for entendido- devesse dar respostas a inconsistências que apresenta.

Ocorre que a uma obra de arte, ou a um produto para entretenimento, não cabe extrair seu valor do exame minucioso de sua coerência interna. E, ainda, como que a entrar em choque com sua própria afirmação, Zizek cai na armadilha em que cairiam os que projetam filosofias no filme e identifica a derradeira “Matrix” ao Deus ocasionalista de Malebranche.

A afirmação de Zizek gera problema por conta de sua estilística, que se desloca de abstrações conceituais para aspectos da cultura pop. Com ela, o leitor pode ser induzido a ver na projeção de filosofias para análise de filmes uma armadilha. Contudo, ao longo do livro ele não faz senão temperar suas análises ora com Hegel, ora com Schelling, ora com Adorno, ora com Malebranche, ora com Otto Weininger.

Na primeira página do ensaio sobre Kieslowski, Hegel, da “Fenomenologia do Espírito”, é aproximado do filme “Decálogo 10”. Na primeira página do ensaio sobre Hitchcock, Shakespeare é invocado para tratar da dificuldade que um tradutor tem para tornar um clássico “acessível a todos”.

Na primeira página do ensaio sobre Tarkovski, é apresentada a definição de arte adotada por Lacan. Na primeira página do ensaio sobre David Lynch, uma frase de Lênin é citada para sublinhar que muitas vezes obtemos conhecimentos sobre nossas fraquezas a partir da percepção de inimigos inteligentes.


Contraponto ao hábito

Apesar das objeções destacadas, cabe realçar que a leitura proposta por Zizek oferece chaves que enriquecessem a compreensão de filmes e de diretores que ele examina. Igualmente importante é que ele instiga o leitor a procurar nos filmes examinados as referências por ele apontadas (até para descobrir seus lapsos de memória, como na descrição equivocada que faz dos planos iniciais de “Persona”, de Ingmar Bergman).

A leitura de “Lacrimae Rerum” incita o leitor a refletir sobre o que significa “ver um filme”, em contraponto ao hábito que leva o espectador a vê-lo como um fluxo continuo, com uma história que deve ser “bem contada” para não oferecer problemas de interrupção durante a projeção.

Mesmo que esse seja o caso, Zizek convida o leitor a ver e rever filmes, destacar cenas, sequências que elucidem o caráter simbólico das imagens. Da perspectiva adotada pelo filósofo em “Lacrimae Rerum”, há nítida separação entre ver um filme em seu fluxo contínuo e com destaque para as diversas possibilidades simbólicas que um fragmento possa suscitar.


Publicado em 8/5/2010

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Humberto Pereira da Silva
É professor de filosofia e sociologia no ensino superior e crítico de cinema, autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).



 
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