1
audiovisual
INTERVIEW PROJECT

Lynch leva vidas comuns à internet
Por Denise Mota

Diretor de “A Estrada Perdida” percorre 37 mil km para entrevistar anônimos no interior dos Estados Unidos

David Lynch propõe na internet o que talvez seja sua empreitada mais simples e, ao mesmo tempo, mais intrigante: uma série de 121 entrevistas curtas com figuras anônimas que apareceram em seu caminho ao longo dos 70 dias em que cruzou os Estados Unidos.

O percurso de 37 mil km foi a única diretriz palpável seguida por “Interview Project”, iniciativa que, como o próprio Lynch explica na pequena introdução que faz de seu projeto na web, “é uma viagem em que pessoas foram encontradas e entrevistadas. Não houve realmente nenhum plano. Encontramos pessoas dirigindo ao longo da estrada, indo a bares, a diferentes lugares”.

O acaso desempenha, assim, papel de roteirista para um mosaico de personalidades díspares que respondem à equipe do diretor de “A Estrada Perdida” (1997) sobre questões prosaicas ou transcendentais, do estilo “Como você conheceu sua mulher?” ou “Como foi seu primeiro encontro com a morte?”.

Os vídeos não excedem quatro minutos de duração e se resumem sempre ao testemunho espontâneo do protagonista da vez, frente à câmera, sobre alguma circunstância de sua vida. A mão de Lynch se nota em intervenções rápidas que complementam o autorretrato do escolhido: um close de alguma parte de seu corpo, um ou outro registro fora de foco, a exibição de detalhes de objetos, as paisagens, o destaque de ruídos exteriores.

A primeira das entrevistas foi publicada em 1º de junho do ano passado e, desde então, a cada três dias um novo episódio se revela ao internauta. Até agora, já são mais de 90 as histórias à disposição. E, de acordo com o ritmo imposto por Lynch, os últimos vídeos devem chegar à rede em meados de maio.

“Interview Project” é fiel às predileções clássicas de Lynch, sobretudo no que diz respeito ao seu interesse por ambientar narrativas em geografias marginais dos Estados Unidos. A infância itinerante do diretor, nascido há 64 anos em uma pequena cidade do Estado de Montana –Missoula, com 68 mil habitantes— também parece haver sido determinante em seu empenho por percorrer o país “profundo” em busca de gente comum.

Entre os quase cem testemunhos postados, destacam-se entrevistas como a de Clah Two Eagles (episódio 7). Oriundo do Colorado, ele parece ter vivido muitas vidas: órfão na infância, serviu na Marinha e no Exército dos EUA na juventude e conheceu John Kennedy. Com um boné escrito “USA”, adornado com uma águia e a bandeira norte-americana bordadas, Eagles conta das muitas perdas que sofreu e de que como gostaria de ser lembrado.

Barry (episódio 13), no Texas, trabalha em um museu dedicado a cobras. De uma singeleza ímpar, fala tranquila, bermuda, camiseta, olhar afável, diz se preocupar com o frescor das crianças, que deve ser preservado, e em permanecer feliz.

Mais adiante, Kelly Eugene Guinn (episódio 15), de Oklahoma, é convidado a dar seu depoimento, enquanto se dirige a uma loja de bebidas a bordo de uma bicicleta. Visivelmente bêbado, desgrenhado, Guinn é a imagem da imobilidade e do pesadelo americano: vive na mesma casa desde que nasceu, sobrevive do que cata no lixo, considera não possuir um só amigo e não esconde a visão preconceituosa que carrega, por exemplo, em relação aos negros.

Entrevista vai, entrevista vem, aparece o incrível casal de septuagenários Jack e Doris (episódio 45), que estão juntos há 53 anos e se ocupam de ensinar crianças a dançar em festivais nas diferentes cidades que visitam. Entrevistados no Tennessee, iluminados sob uma luz algo circense, os dois, vestidos iguais, protagonizam depoimentos que se fazem acompanhar por risadas de claque, como as que costumam ser ouvidas nos seriados cômicos norte-americanos.

Uma quinzena de vídeos depois surge Peter (episódio 59), um nativo de Woodstock de 63 anos e cabelos compridos. Criador de ovelhas e galinhas, afirma ainda sonhar com a paz mundial, mas se nega a ser saudosista e acreditar que o passado foi melhor. “É necessário reinventar-se a cada dia”, diz ele, que conheceu a atual namorada em uma passeata contra a Guerra do Iraque.

Em Minnesota, um homem com ares de motoqueiro se posiciona em frente a uma loja de armas para descrever um pouco de sua rotina e surpreender, ao contar que é professor de xamanismo e práticas pagãs. Eagle (episódio 92) embala ao comentar as distorções associadas ao paganismo e afirma não pedir muito da vida, já que “os deuses” lhe dão tudo o que necessita.

Por fim, uma garçonete em Dakota do Sul se apresenta frente às câmeras de boné, bigode e terno, à primeira vista uma excentricidade, depois justificada por sua intenção de “divertir os clientes”. Solteira aos 50 anos, Deb (episódio 97) diz não poder e não querer ser controlada por ninguém. Conta ainda dos passeios e programas de fim de semana que agenda com os amigos e da segurança de viver sem ter de trancar portas.

Do vasto mosaico de personalidades colecionadas pelo cineasta sobressaem elementos recorrentes, como o forte vínculo dos entrevistados com instituições religiosas, a faixa etária que na maioria das vezes ronda ou ultrapassa os 60 anos –o que redunda na constatação de que grande parte dos participantes, se não são exclusivamente aposentados, exercem trabalhos informais e de baixa remuneração— e o fato de muitas das conversas terminarem em presentes para a equipe de filmagem, que ganhou de almoços a barras de sabonete caseiro.

O elemento afetivo presente ao final de muitas dessas aproximações aleatórias -e que, para o entrevistado, resultam inesperadas e passageiras- não passa despercebido por Lynch: “As pessoas contaram suas histórias e é fascinante vê-las e escutá-las. Essa é uma chance de encontrar essas pessoas. É algo humano, do qual não podemos nos afastar”.


link-se
Interview Project - http://interviewproject.davidlynch.com/


Publicado em 27/4/2010

.

Denise Mota
É jornalista. Vive em Montevidéu.

 
1