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Há muita escola de cinema, hoje, e elas podem ensinar a técnica, mas não podem ensinar o dom. Dom não se ensina. Dessas escolas, por todo lado, saem alunos e mais alunos, mas poucos têm o dom para realizar filmes. Esse é um problema muito concreto.


Atualmente, é possível conciliar arte e indústria no cinema?

Oliveira: Muitos querem fazer cinema, mas o atrelam a uma indústria. Mas cinema não é indústria: é um artesanato. A diferença entre indústria e artesanato é que a indústria tem um artigo de sucesso e repete milhares de vezes a mesma coisa. Como a televisão, que, muitas vezes, faz milhares e milhares de vezes a mesma coisa que tem sucesso e chateia-nos com as propagandas.

Isso é maçante. O artesanato, não. Cada peça é diferente da outra e ganha a personalidade daquele que a faz. E todos somos diferentes, mas todos falamos o mesmo, que são as coisas da vida: a política, a luta, a violência, qualquer coisa, mas é a vida. Nós nos chamamos de criadores, mas não somos criadores. Criador só há um: nós somos criaturas. Quando nos dizemos criadores, o que estamos fazendo é uma recriação.


O sr. acha que em Portugal a literatura prosperou mais do que o cinema?

Oliveira: Não. Eu creio que o cinema é suficientíssimo. Certa vez, no México, quando se fez uma reunião do cinema iberoamericano, apareceu um realizador mexicano, não me lembro o nome agora, que disse: “O cinema deveria ser auxiliado pelo governo, mas não como um favor, como uma obrigação. Porque o cinema é o espelho da vida”. Eu achei isso magnífico. Como eu nunca pensei sobre isso, que é uma coisa tão evidente? Porque não há outro espelho: o cinema é o espelho da vida! Mas a literatura está acima, porque o cinema não pode filmar os pensamentos, os sonhos. Enfim, faz um truque.


Quais são suas impressões do Brasil atual, país que o sr. visitou várias vezes?

Oliveira: O Brasil é uma nação importantíssima. Há as hortas, os frutos, tudo que vem de lá tem um sabor que não se repete em nenhuma outra parte do mundo. Isso é uma riqueza. Os seus próprios frutos são a representação mesma do próprio país. É por isso que o Brasil é sempre alegre. Mesmo os mais pobres têm sempre alegria, porque sobrevivem.

É um país formidável, que vai se afirmando cada vez mais. E Portugal orgulha-se de estar ligado irmanadamente ao Brasil. Eu creio, e já disse isso, quando fui a São Paulo, que a língua portuguesa hoje, é, sobretudo uma língua do Brasil. Quero dizer que, se Portugal desaparecesse, a língua portuguesa continuaria no Brasil. Mas se o Brasil desaparecesse, a língua portuguesa não continuaria a existir. É um fato. De maneira que o seu país tem uma importância enorme para o mundo.


Publicado em 10/4/2010

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Celia Cavalheiro
É doutora em ciências da comunicação pela USP e professora de filosofia na Universidade do Senac. Escreve ensaios em periódicos e publicou, entre outros, o livro de contos "Poucas e Boas" (Ed. Iluminuras).

 
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