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entrevista
CINEMA

Um jovem mestre de 101 anos
Por Celia Cavalheiro


Catarina Wallenstein (como Luísa Vilaça) e Ricardo Trêpa (como Macário, à dir.), em "Singularidades de Uma Rapariga Loura", filme de Manoel de Oliveira baseado em conto de Eça de Queirós
Divulgação

O cineasta português Manoel de Oliveira fala de seu novo filme e elogia as facilidades do cinema digital

Quando se fala mais e mais em indústria do cinema, é o diretor português Manoel de Oliveira, da altura de seus 101 anos (completados em dezembro), quem alerta: "Cinema não é indústria: é um artesanato. A diferença entre indústria e artesanato é que a indústria tem um artigo de sucesso e repete milhares de vezes a mesma coisa. Como a televisão, que, muitas vezes, faz milhares e milhares de vezes a mesma coisa que tem sucesso e chateia-nos com as propagandas. Isso é maçante. O artesanato, não. Cada peça é diferente da outra e ganha a personalidade daquele que a faz".

Para os modernos de plantão, parece um pensamento antiquado. Mas como considerar Oliveira anacrônico, se, aos 100 anos, ele foi capaz de criar um dos filmes mais livres e potentes de 2009: "Singularidades de uma Rapariga Loura"?

Baseado em um conto de Eça de Queiroz, trata-se da história de um desastrado relacionamento amoroso, exposto no filme com impressionante domínio da linguagem cinematográfica, uma liberdade de estilo sem paralelo e uma perturbadora capacidade de acercar, sinteticamente, de seu tema. A imagem final da protagonista (interpretada por Catarina Wallenstein), tombada em uma poltrona e entregue ao abandono mais terrível da existência, explica, numa só tomada, toda a fragilidade humana.

Na entrevista a seguir, realizada no final do ano passado, na cidade do Porto (Portugal), Oliveira fala de seu filme mais recente e conta que está preparando dois novos filmes: um curta e o longa "O Estranho Caso de Angélica", que espera terminar antes de maio, para estrear no Festival de Cannes. Ele também está atento ao cinema digital. "Facilita muito, é mais barato e, além disso, vem com correção à imagem. Pode-se realizar coisas mais ricas, não é mal", diz, derivando para a questão mais importante do público: "É claro que há muita gente que quer um cinema, digamos, comercial, com muito público. Mas não devem correr atrás do público, o público virá. Eu nem gosto da palavra 'público', porque público são as cadeiras, não são os espectadores, que são pessoas autênticas".

A oportunidade de conversar com Manoel de Oliveira fez com que a entrevista seguisse seus desejos e seus temas, como, por exemplo, a poesia. Apesar de o cineasta dizer que não se julga um poeta, seus versos, como seus filmes, enfatizam o lirismo que, aliado ao espírito crítico, encara as coisas para extrair delas o movimento que justifica a existência. Como nestas linhas, que o diretor leu para Trópico, durante a entrevista: “Mar recôndito e sem limites/ que é a memória/ elemento oculto/ de todos os tempos/ e de tempo algum” (in "Manoel de Oliveira", de Alvaro Machado, Ed. CosacNaify/Mostra de Cinema de São Paulo, 2005). A elegância e absoluta gentileza do velho senhor dispensam mais reparos ou insistências especulativas. Assistir a seus filmes, aguardar os próximos, ouvir sua fala: eis o que interessa. Ele é o mestre.

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O seu novo filme, “Singularidades de uma Rapariga Loura”, se apoia na memória, tanto dos personagens –a história se passa em flash-back–, como da época, já que se trata de uma transposição do séc. XIX para o séc. XXI. Aos 101 anos, como é a sua relação com a memória?

Manuel de Oliveira: Curiosamente, o cinema só filma o presente. O presente é instantâneo, mas sem memória não há presente. Toda a literatura é memória, toda a história é memória. Sem memória não se sobrevive, de maneira que muitas pessoas têm um reflexo muito forte com as coisas da atualidade, como se dissessem: "Se é moderno, é bom".

Mas há valores que são temporais, que mudam de um lugar para o outro, e há valores que são intemporais. Por exemplo, a vingança, a inveja, que são os sentimentos mais antigos do homem. Por inveja, Caim matou Abel... Essas são coisas típicas do homem, os animais não têm estes sentimentos. De maneira que isso é memória. Nós sobrevivemos debaixo da memória. E todos os filmes são memória.


O sr. coloca dois atores-ícones do cinema português neste filme: Leonor Silveira, como a condutora da história, uma espécie de Ariadne, e Miguel Cintra, no papel dele mesmo. Por que os escolheu?

Oliveira: Miguel Cintra faz o papel de um ator lendo Fernando Pessoa. Eu achei que teria que ser um ator realmente capaz de ler aquilo com intensidade. De maneira que não simulei. Apesar de o conto de Eça de Queiroz ser uma obra do século XIX, como eu estava na atualidade seria bom que apresentasse coisas atuais e fosse um ator de verdade.

No conto de Eça, um cravo acompanha o personagem, enquanto ele declama. Mas o cravo já não se usa. De maneira que usei a harpa, que é um instrumento utilizado até hoje. Era necessário dar um tom artístico, mas mais atual. É uma característica que se dá, como nas novelas brasileiras. Elas são as melhores porque têm uma característica própria, claro: são características brasileiras.


Como o sr. trabalhou a adaptação do século XIX para o século XXI?

Oliveira: “Singularidades de uma Rapariga Loura” passava-se no século XIX e no bairro do Rocio, que era então da mesma forma que é hoje, tirando os carros e as vestimentas atuais. Quando escrevi a primeira versão, pensei em situar o filme no século XIX, mas depois vi que seria muito difícil arranjar as tipóias, as roupas das pessoas... Tudo isso ficaria caríssimo, de maneira que resolvi atualizar, colocando a harpa, Fernando Pessoa...

A história é narrada numa estalagem no Minho, quando Macário já está velho, e ele conta o que se passou consigo quando era novo. Eu mudei para o Algarve, porque o tio o havia mandado para lá. Mas não mudei os sinos. Eles são autênticos. Durante a filmagem, estávamos ao lado do Teatro São Carlos, e os sinos tocavam constantemente, de hora em hora. Então, resolvi mantê-los.

"Singularidades..." é um conto pequenino, mas é muito interessante, muito bem urdido. Há nele um típico olhar à moda antiga, como se alguma coisa já não se encaixasse mais nos tempos modernos.


No filme “Vale Abraão”, o sr. faz referências à própria autora do livro em que se baseou, Agustina Bessa-Luís. Em "Singularidades...", coloca miniaturas que representam personagens de Eça de Queiroz. Por quê?

Oliveira: Achei que seria um dado interessante acrescentar o criador do conto ao seu próprio conto, porque os acontecimentos são dados como reais, e não como ficção. A ficção é o fim, mas os acontecimentos são dados como reais e, portanto, eles fazem referência a Eça de Queiroz. A história não é contada como se fosse um conto, mas como se fosse realidade.


Trata-se de um conto pequeno, que resultou num filme sintético, de cerca de uma hora. O sr. não teve vontade de estender a duração do filme?

Oliveira: Não. Isso era o que o conto me propunha, e eu o segui à risca. Não me atrevi sequer a tocar no diálogo de Eça de Queiroz, apesar de atualizá-lo para o séc. XXI. Não caí nessa incorreção. Acho que o tipo de diálogo deu um sabor muito especial ao próprio filme. Deu um sabor particular e perfeitamente aceitável, porque os sentimentos e despeitos amorosos são sempre iguais, tanto no século XIX quanto no XII ou no XXI. Muda o “caixilho”, mas o retrato é o mesmo.


No filme, janelas são mostradas insistentemente. O que elas representam, no seu entender?

Oliveira: É o que consta no conto. De modo que não é invenção minha. É a transposição do que está escrito. Agora, é muito engraçado o uso das cortinas e da figura que está por trás das cortinas, o quadro de uma moça, pendurado na parede, que está sempre a observar o que se passa.

Ele reconhece tudo o que se passa e faz-me lembrar de uma vez em que estive em Paris, num congresso internacional de crítica, visitando uma câmara antiga onde havia muitos espelhos. Um cineasta disse na ocasião: “É interessante que se espelhassem assim, películas do tempo antigo, de tudo quanto o espelho viu”.

De maneira que o cinema é isto: o espelho da vida. O cinema é uma instituição muito rica. Mas, quanto a mim, penso que a expressão mais rica, mais poderosa é a literatura. E o cinema é filho da literatura e do teatro, sendo uma síntese de todas as artes. Está nele a pintura, a música, a filosofia, tudo está lá.


Em "Singularidades...", os dois personagens que se encontram no trem, os dois narradores, conversam olhando para o lado. Eles não se encaram e mantêm sempre o olhar vago...

Oliveira: Ocorre que eles não se conhecem. Não é normal que uma rapariga, mesmo nos tempos de hoje, em que as coisas estão muito facilitadas, até demasiado facilitadas, insista num olhar. E mesmo o rapaz... Ela não olha, mas, ao mesmo tempo, sabe que está sendo olhada, e percebe, nessas circunstâncias, a maneira como está sendo desejada. De modo que faz as suas artimanhas, o que é muito do caráter feminino. O homem é mais brutalhão, digamos assim.


Em todos os seus filmes está caracterizado muito bem este aspecto da artimanha feminina, principalmente quando a atriz é a Leonor Silveira...

Oliveira: Leonor Silveira é uma figura que se prestava a vários papéis quando jovem. Ela é nova ainda, mas é uma moça que tem dois filhos agora, não tem mais aquela juventude. Isso se perde. A juventude é uma coisa extraordinária que faz falta, muita falta. Quando a gente chega numa idade mais avançada, não pode mais voltar para trás.


O sr., no entanto, continua fazendo filmes...

Oliveira: Ah, isso eu faço. Tenho dois novos projetos: “Painéis de São Vicente” e “O Estranho Caso de Angélica”. De vez em quando faço adaptações, de vez em quando escrevo para filmar. Também escrevo poesia. Uma delas chegou a ser publicada pela Mostra Internacional de São Paulo. Escrevo qualquer coisa sem ser escritor. Às vezes escrevo poesia sem ser poeta. E até mesmo penso, sem ser filósofo (risos). Eu sou um homem do cinema, é isso.


Seus dois novos filmes já estão sendo rodados?

Oliveira: Não. O primeiro, "Painéis de São Vicente", vou começar em novembro (de 2009). É um curta-metragem. Em janeiro (de 2010), começo com o outro, "O Estranho Caso de Angélica". De modo que devo acabar em tempo de ir para o Festival de Cannes. Espero.


Ainda sobre "Singularidades...", o que o levou a fazer aquele final, com a câmera se alongando pelos trilhos vazios? Seria essa imagem uma metáfora das próprias histórias, que nunca acabam?

Oliveira: O conto termina dizendo: “E Macário nunca mais a viu”. Eu achei estranho: como é que ele nunca mais a viu, se o escritório dele era em frente à casa da moça? De maneira que resolvi não dizer nada. Quer dizer, ele vai e segue o seu destino, ignoramos qual seja. Pode até ter que tenha se casado com ela, mas não sabemos.


O que o sr. pensa do cinema feito atualmente em Portugal? Existiria uma certa invisibilidade da produção portuguesa no sistema cinematográfico internacional?

Oliveira: Eu nunca senti essa invisibilidade, porque meus filmes correm os países normalmente. Há gente nova em Portugal que recebeu o prêmio de curta-metragem em Cannes pela primeira vez (“Arena”, de João Salvazia). De maneira que não há razão para falar de invisibilidade, porque a abertura aos novos diretores hoje é muito grande.

Antigamente não era assim. Quando eu fiz "Aniki Bobó" (seu primeiro longa, de 1942), por exemplo, era muito difícil, não havia ajuda nenhuma. “Douro, Faina Fluvial” (primeiro curta, de 1931) foi muito mal recebido, inclusive no Brasil, graças a Deus (risos). De maneira que, hoje, quando chego aos cem anos, começo a ser entendido. Ora, nem todos poderão chegar aos cem anos, de modo que é bom ter o reconhecimento mais cedo.


Como o sr. vê o cinema no século XXI, quando se fala de uma era digital das imagens?

Oliveira: O digital facilita muito, é mais barato e, além disso, vem com correção à imagem. Pode-se realizar coisas mais ricas, não é mal. É claro que há muita gente que quer um cinema, digamos, comercial, com muito público. Mas não devem correr atrás do público, o público virá. Eu nem gosto da palavra "público", porque público são as cadeiras, não são os espectadores, que são pessoas autênticas.

Artistas são mais difíceis de serem entendidos. Há artistas, como Vermeer, por exemplo, que nunca venderam um só quadro em vida, mas não deixaram de pintar nunca, porque para eles bastavam a tinta, podiam deixar de almoçar por um ou dois dias para poderem comprar as tintas e pintarem. De maneira que a verdadeira personalidade do artista, a verdadeira originalidade, está na personalidade de cada um. No Brasil, por exemplo, é o caso de Glauber Rocha. Vocês têm também Nelson Pereira dos Santos, que é muito interessante. Mas Glauber Rocha é mais brasileiro, mais profundo.

 
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