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em obras
ENSINA-SE ARTE?

Advertência por escrito
Por Mario Gioia

A seguir, leia as respostas dos artistas plásticos Nazareth Pacheco, Oriana Duarte, Paulo Pasta, Regina Parra, Renata Lucas e Xiclet.

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NAZARETH PACHECO
Vive e trabalha em São Paulo

Conte um episódio marcante vivenciado em sala de aula que foi decisivo na sua carreira.

Nazareth Pacheco: Não acredito que nenhum episódio vivenciado em sala de aula tenha sido decisivo em minha carreira.

Onde o estudante de arte mais aprende em termos de arte?

Pacheco: Produzindo, se informando e visitando boas exposições de arte.

Qual deve ser, na sua opinião, a proporção ideal entre formação humanista (ciências sociais) e o aprendizado de uma habilidade técnica (gravura, pintura, escultura)?

Pacheco: Não acredito em proporção ideal. Isso vai depender de pessoa para pessoa. Mas não nego que ter uma certa habilidade pode, em muitos casos, ajudar. Parte da minha formação foi um curso num ateliê livre com um escultor português, onde toda semana tínhamos aula de modelo vivo, onde utilizávamos a argila para reprodução desses corpos. Nos dias de hoje, raramente modelo, mas, de qualquer maneira, se quiser modelar um rosto, sei que tenho condições. Por outro lado, existem artistas que ficam tão presos à habilidade técnica que não conseguem ter liberdade em suas criações.

Deveria a escola/faculdade ensinar como entrar e se defender no mercado de arte – ou esse tema não deveria entrar no currículo?

Pacheco: Esse tema faz parte da obra e da vida! Não é ensinado! É vivenciado! O que cabe ao artista é produzir a obra que ele deseja e acredita! Nem tudo deve ser ensinado, ou melhor, pouco pode ser ensinado! Se, por acaso, seu trabalho for inserido no mercado de arte, melhor para o artista!

Se tivesse de refazer sua educação artística, o que buscaria para melhorar a trajetória do aprendizado?

Pacheco: Não acredito que a educação artística tenha tanto valor. Minha melhor experiência de vida artística foi ter sido monitora da 18ª Bienal de São Paulo, quando frequentei um curso de março a setembro com o Tadeu Chiarelli, além de ter participado, durante a Bienal, da montagem das obras de artistas da transvanguarda, do neo-expressionismo e das diversas instalações apresentadas.

Dois anos depois da Bienal, fui fazer um curso de especialização em escultura na Escola Nacional de Belas Artes de Paris, que me trouxe pouca experiência artística e muita experiência de vida. Em 1999, iniciei meu mestrado na ECA-USP, o que me permitiu conviver com a experiência e produção de vários artistas colegas. Essa experiência foi muito rica e gratificante.

Cursar uma faculdade de arte significa que ao cabo de um período de formação o sujeito se torna artista? Concorda com isso ou acha que o artista deveria buscar diplomar-se em outro curso?

Pacheco: Não acredito! Principalmente na época que me formei, em 1983. Saí da faculdade com algumas experiências técnicas, mas tinha pouca noção de arte contemporânea. Minha grande escola foi trabalhar no MAM-SP e depois ter sido monitora da 18ª Bienal de São Paulo. Não acho que o verdadeiro artista precise de um diploma, e sim de muito conhecimento, experiência e convivência com a arte. Por outro lado, informação em qualquer área que seja é sempre muito bem-vinda.

Professores devem ou não se manifestar quando um aluno não tem a menor vocação para ser artista? Ou ser artista se aprende inelutavelmente após quatro anos de cursos práticos e teóricos (história da arte)?

Pacheco: O professor não deve e nem tem esse poder. Se o aluno não for bom, ele vai ter de bater a cabeça sozinho. Não caberá ao professor determinar se está correto ou não. Além disso, você pode ter uma visão completamente diferente da que recebe do professor. Não basta ele ser professor para ter uma verdade absoluta. Pelo contrário, basta lembrarmos das críticas do Monteiro Lobato que destruíram as obras produzidas pela Anita Malfatti.

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ORIANA DUARTE
Vive e trabalha em Recife

Conte um episódio marcante vivenciado em sala de aula que foi decisivo na sua carreira.

Oriana Duarte: Ocorreu em um curso de extensão. Em boa parte desse curso, o mais ressaltado, antes mesmo das obras, foi o próprio “ser artista” -havendo algo de ético, quase heróico no modo como o professor se referia ao sujeito artista. Isso me marcou profundamente, e naquele momento me encontrava com muitas dúvidas acerca de assumir minha identidade de artista. Depois desse curso, segui em frente, colocando o tal discurso ético, que envolve uma paixão e toda a sua cegueira de realização do ato amoroso (no caso da arte a realização da obra) a frente de tudo.

Onde o estudante de arte mais aprende em termos de arte?

Duarte: Ao longo das 24 horas do dia, ou seja, quando ele percebe que não é só em espaços restritos à arte que a arte pulsa e pede para vir à tona.

Qual deve ser, na sua opinião, a proporção ideal entre formação humanista (ciências sociais) e o aprendizado de uma habilidade técnica (gravura, pintura, escultura)?

Duarte: Informação e prática são entrelaçados na arte, sem dualismos. Os dois devem andar juntos e sempre, por toda a vida do artista. Mas é evidente que não dá pra privilegiar técnica em detrimento da informação hoje em dia, sobretudo quando pensamos em tecnologias da imagem e todo seu aparato de possibilidades de realização. Mas realizar o quê? Se não há o que dizer, o que expor/expurgar de conflitos, de embates, de riscos, o que a imagem da arte acrescenta ao mundo imageticamente inflado da nossa atualidade? Acho que divaguei na resposta, mas vamos à proporção solicitada: em dias difíceis (para o artista) coloca-se 75% de ciências sociais e 25% de técnica, em dias mais fáceis (para o artista) 75% de técnica e 25% de ciências sociais.

Deveria a escola/faculdade ensinar como entrar e se defender no mercado de arte – ou esse tema não deveria entrar no currículo?

Duarte: É impossível não abordar o cenário da arte na formação do artista. E esse cenário é bem complexo, com muitas estruturas socioeconômicas e políticas envolvidas. E a contribuição que o ensino superior pode oferecer é tornar o artista mais maduro e preparado para saber com que forças ele está lidando, ou seja, o que é um mercado e quais são seus agentes constitutivos, e sobretudo alimentar no artista um discernimento sobre o seu papel nesse mercado.

Se tivesse de refazer sua educação artística, o que buscaria para melhorar a trajetória do aprendizado?

Duarte: Ler mais depoimentos de artistas, sobre seus processos e suas vidas.

Cursar uma faculdade de arte significa que ao cabo de um período de formação o sujeito se torna artista? Concorda com isso ou acha que o artista deveria buscar diplomar-se em outro curso?

Duarte: Acho que o sujeito pode cursar uma faculdade de arte e nunca se tornar artista.

Professores devem ou não se manifestar quando um aluno não tem a menor vocação para ser artista? Ou ser artista se aprende inelutavelmente após quatro anos de cursos práticos e teóricos (história da arte)?

Duarte: Professores NÃO devem se manifestar quando ELES ACHAM que um aluno não tem a menor vocação para ser artista. O artista se apreende artista ao longo de todos os dias da (sua) vida, como bem disse Louise Bourgeois: “Nascer artista é ao mesmo tempo um privilégio e uma maldição. Como isso poderia ser ensinado?".

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PAULO PASTA
Vive e trabalha em São Paulo

Conte um episódio marcante vivenciado em sala de aula que foi decisivo na sua carreira.

Paulo Pasta: Frequentei uma oficina com Iberê Camargo no Centro Cultural São Paulo em 1990 ou 1991, não lembro bem. Esse curso foi decisivo para mim, mais por perceber nele, Iberê, a reunião inseparável entre o artista e o homem. Era o que ele denominava de "homem-pintor". Vinha de uma experiência muito diversa na ECA-USP. Precisava daquela resposta mais apaixonada pelo trabalho.

Onde o estudante de arte mais aprende em termos de arte?

Pasta: Penso que é uma combinação. Com ele mesmo, com sua experiência, com sua curiosidade e sua disciplina, numa espécie de autodidatismo. Mas também a escola tem um papel fundamental, ao proporcionar ao aluno um meio de arte. Toda arte precisa de um meio mais consistente para se desenvolver. Ela seria o lugar dos questionamentos, das possibilidades mais amplas de leituras e debates, como também da aquisição de recursos técnicos.

Qual deve ser, na sua opinião, a proporção ideal entre formação humanista (ciências sociais) e o aprendizado de uma habilidade técnica (gravura, pintura, escultura)?

Pasta: O mais importante é você ser levado às leituras -a uma formação mais teórica- pelo caminho do trabalho. Conhecimento é questão de sensibilidade. Penso que só podemos conhecer melhor a partir daquilo que sentimos. Penso ser muito raro ocorrer o contrário para o artista.

Deveria a escola/faculdade ensinar como entrar e se defender no mercado de arte – ou esse tema não deveria entrar no currículo?

Pasta: Não vejo com bons olhos isso. A escola seria o lugar do distanciamento crítico em relação ao mercado. Escola é escola, e mercado é mercado. Esse talvez seja o problema insolúvel da arte contemporânea. Como conciliar a vocação contestadora da arte com a normatização que o mercado sugere?

Se tivesse de refazer sua educação artística, o que buscaria para melhorar a trajetória do aprendizado?

Pasta: Talvez produzir mais do que produzi durante o período de formação. Depois de alguns anos, olhando em retrospectiva esses anos, seria o que de mais importante teria ficado.

Cursar uma faculdade de arte significa que ao cabo de um período de formação o sujeito se torna artista? Concorda com isso ou acha que o artista deveria buscar diplomar-se em outro curso?

Pasta: Não concordo. Arte não é uma profissão com balizas, mensurável. Arte vive mais do não. O artista vai se tornar artista depois da faculdade. No exercício das vivências e das experiências. Fora isso, o que se consegue no decorrer do processo criativo e, para lembrar Rosemberg, seria tudo um pouco estereótipo. Uma quantidade maior de cursos não substituiria isso.

Professores devem ou não se manifestar quando um aluno não tem a menor vocação para ser artista? Ou ser artista se aprende inelutavelmente após quatro anos de cursos práticos e teóricos (história da arte)?

Pasta: Penso que isso pode ficar claro para o aluno durante o curso. Ele mesmo pode identificar quais seriam os seus maiores problemas, inclusive o de não estar apto para isso. Pedir para o professor apontar objetivamente, isso seria apostar demais no poder demiúrgico deste, se tudo está em processo e transformação... Mais uma vez, repetindo a resposta acima, não seria a quantidade de cursos ou de “escolas” que faria alguém artista.

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REGINA PARRA
Vive e trabalha em São Paulo

Conte um episódio marcante vivenciado em sala de aula que foi decisivo na sua carreira.

Regina Parra: Tive uma conversa com o Eduardo Brandão que foi fundamental para mim. Ele foi meu professor, quando eu estava no quarto semestre, e era comum os alunos levarem trabalhos para serem discutidos em sala. Quando levei minhas pinturas, ele fez uma série de perguntas e questionamentos que foram importantíssimos para que eu iniciasse um processo de auto-reflexão e autocrítica. Foi a primeira vez, na faculdade, em que fui colocada em xeque e tive de me questionar e ver até que ponto estava sendo coerente com aquilo que acreditava.

A grande lição dele foi deixar claro que o artista não pode ser visto como um ser isolado, mas alguém que faz parte do mundo, de uma sociedade específica, de um tempo específico; e isso pede uma tomada de responsabilidade da parte do artista. Ser artista não é só fazer um desenho bonito. Foi, portanto, o posicionamento dele e sua atitude muito séria em relação à arte que mais me marcaram.

Onde o estudante de arte mais aprende em termos de arte?

 
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