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prosa.poesia

Estúdio
Por Janice Caiafa

Leia sete poemas do livro recém-lançado, pela ed. 7Letras, da escritora e antropóloga carioca Janice Caiafa

Pedra

A pedra muda durante
sua longa estadia
na Terra
(quase eterna), diante
do tempo, da água, ventania.

Isso fura ou só colore
o que antes era brancura,
granula o muro e move
gota a gota a pedra dura.

Pedra rota que o tempo galga
que firme se alça e alcança
plena sempre — e alta.

Muda lentamente a pedra forte
parece fixa mas avança
aos toques da vida e da sorte.

***

Conto de outono

As folhas caem
não têm mais
como prender-se

Pendem e saem
Perdem-se na incerta
queda, mistura que se faz
na relva coberta

São perdas, folhas no chão,
o outono da vida
também é subtração

Não há saída.

Há contudo o despontar
de uma nova cor: ainda
muito mais viva

O vermelho: um mar
de lava na folha — uma vinda
nova, uma intensidade

Única, na idade do outono.

***

Não aprendemos com a Dor
a sofrer menos da próxima vez.
O pensamento do que nos fez
feliz, o sofrimento do que for

nos faltar nos faltará ainda assim.
Mas a que por sofrer chegamos
é ela própria que guardamos:
isto sim. Então é esta

a melhor sorte que nos resta.
Afetos que se encontram ali
perto da vida/morte únicos
é o que fazem: tiram de Si,

de um consigo —é o que ensina.
Um cultivo disso que se sente
muda o nosso presente: isto aprendemos.

***

Tenho na Terra
seres aparentados
vários deles
mas nenhum
parente de sangue.
Em tão grande
número de gente
por todo lado
e todo o tempo
não há alguém
com quem me pareça
de fato,
por exemplo,
que a parecença
seja bastante
apenas traços
não tenho laços
de sangue.
Esta mescla
sem pertença
em que não se reconheça
nenhum outro
não me dá senão
a surpresa
(mas não a indiferença)
e nenhuma compaixão
de ninguém
que seja.

***

A arte de furtar

Gata Mila rouba
às vezes do prato
ou da colher. Um naco
de doce, restos
de sopa — o que der
e for de seu gosto.
Adejar de mariposa
e abrupta predadora,
leve fera que pula
entre o combate e a gula
e leva para longe a presa,
devorando com delicadeza
de gatinha esguia e fina,
de felina caseira.
Quer o leite da tigela
mas continua roubando,
ela quer conquistar a comida.
Come e volta logo
ao colo ronronando.

Para Ludmila Teresa

***

A gravidade se equilibra
com outra força ainda
vinda de cima, que vira
— antípoda — que iça.
O que plana e deriva
assim se move
pela onda que sobe:
balões de papel,
a lua cheia
que infla
e ascende no céu
e deixa a linha
do mar.
Força
que impele os ventos
povoa o ar
com seu movimento
leve.

***

Recife: regime das águas

No Recife as águas moventes
marcam o lugar
contam as horas
avançam na terra e retornam,
é um embalar
no vai-e-vem da marola.
Saem do mar — salientes,
vêm do rio e ao voltar
formam o mangue.
Meio macio e tenro,
efervescente de bichos,
miúdas patinhas e plantas
que quando a maré se levanta
logo mergulham e ali fervilham.
Recife da água e deságua
do movimento dos rios.

Da chuva, também, que vem
em ondas. A chuva que vem
vindo. Avistada e esperada,
chuva visível e concreta:
a chuva vem numa reta
e, desaguada, cai em cima.
E cessa. Sem estrondo.
Já se vai e pronto.
E aí é o sol que começa.
E logo. Vem quente e fervendo.
Não precisa preparar
a quentura, já havendo
na própria chuva, segura,
e quando seca se solta.
E a chuva ainda volta,
sol/chuva/sol — a aguaceira
e o calor — e Recife se coloca
na fronteira do Arco-Íris,
na passagem da cor.

E o céu do Recife é o esplendor
a mirar sua terra viva.

Para João Cabral de Melo Neto


Todos os poemas reproduzidos acima são do livro “Estúdio”, recém-lançado pela Ed. 7Letras.


Publicado em 28/3/2010

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Janice Caiafa

É poeta, antropóloga e professora da Escola de Comunicação da UFRJ, autora, entre outros, "Jornadas Urbanas" (Editora FGV), "Nosso século XXI" (Relume Dumará) e "Ouro" (7Letras). "Estúdio" (ed. 7Letras) é o seu mais recente livro de poemas.



 
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