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Trazem a experiência de escolas abertas 24 horas por dia para os alunos; apontam a inutilidade de um currículo básico, já que o que seria básico muda de artista para artista; confirmam a falta de sentido do diploma no mundo artístico, mas reafirmam o papel do professor como um cupido, cuja função seria a de conectar artistas entre si. Repetem um adágio de Deleuze, para quem a vida dos professores pode ser desinteressante, mas aulas devem ser dadas com paixão.

Desde 2009, Olafur Eliasson desenvolve junto à Universität der Künste, em Berlim, uma plataforma colaborativa entre universidade e circuito, o Institut für Raumexperimente, no qual estudantes de arte (ou participantes, como prefere Eliasson) e funcionários de seu estúdio trabalham sob a supervisão do artista, unindo ideia e fisicalidade da produção de uma obra.

Eliasson, que não tem formação superior completa e abandonou a universidade para trabalhar como assistente de outro artista, volta, agora, com sua experiência acumulada para um processo de trocas intelectuais. Para que isso aconteça, é necessário que burocracias, lugares-comuns e imobilidade saiam de cena e que entrem, em seu lugar, vontade política e espírito crítico.


Uma “escola para a vida em exílio”

O texto do artista e curador Anton Vidokle, editor da revista “e-flux”, merece uma consideração extra já que o autor é responsável por uma virada radical no papel pedagógico das exposições. A equipe de curadores, da qual Vikokle faz parte, juntamente com Florian Waldvogel e Mai Abu ElDahab, apresentou como proposta curatorial para a Manifesta 6, mostra bienal europeia que sempre muda de cidade-sede, a organização de uma escola temporária ou de uma série de experiências educacionais no lugar de uma exposição: seria uma exposição como escola.

Bastante radical, já que suprimia a própria exposição, a proposta gerou uma pesquisa, apontando escolas de arte ao longo da história moderna com plataformas diferenciadas, da qual apenas uma escola brasileira fazia parte: a Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

Vidokle inverte a lógica que considera a crise como algo negativo e aponta que a constante crise vivida pela educação artística em todos os níveis é sinal de fertilidade e reinvenção. O desdobramento do projeto da Manifesta 6, que afinal não se realizou, é a Unitednationsplaza, uma escola móvel e temporária, uma escola para a vida em exílio –condição que caracteriza o estado contemporâneo.

O único artigo que trata de questões da América Latina é o de Luis Camnitzer, artista, professor e curador, que analisa historicamente a constituição do ensino artistico no continente como um ensinar a fazer em detrimento de um ensinar a pensar. Seu artigo termina com a valorização dos experimentos levados no projeto educacional da Bienal do Mercosul, em 2007, da qual foi um dos curadores convidados por Gabriel Pérez-Barreiro.

O livro organizado por Madoff fecha com a carta-artigo do artista, curador e professor Ken Lum (residente no Canadá), que, ao relatar suas viagens a trabalho como professor por diferentes continentes, mostra que a marca da cultura e da classe social deve ser um dado consciente na produção do artista. Sem a reflexão, é facil sucumbir ao preconceito e a estereótipos de classes, à visão colonialista e às hegemonias. Para Lum, construir uma escola de arte não exige muita coisa, mas é importante entender seu próprio lugar e o de sua escola no mundo. Ele sugere uma educação internacionalizada, e não globalizada.

A primeira forma de evitar o equívoco é entender que, no processo de transmissão de cultura, múltiplas instituições podem se envolver em diálogo, mas necessitam da figura específica de um intelectual duplamente preocupado com sua condição de artista e professor. Assumir tal condição é o passo fundamental para o estabelecimento de novas bases históricas e ideológicas, nas quais possibilidades de atuação possam surgir.

O passo seguinte é entender a relutância em aceitar positivamente a categoria de intelectual, tanto para artistas quanto para professores. Até em “Art School”, Adorno retorna: “Que o termo ‘intelectuais’ tenha sido difamado a partir dos nazistas, parece-me um motivo a mais para assumi-lo positivamente: um primeiro passo da conscientização de si mesmo é não assumir a estupidez como integridade moral superior; não difamar o esclarecimento, mas resistir sempre em face da perseguição aos intelectuais, seja qual for a forma em que esta se disfarça”.

É importante, ao final da leitura de “Art School”, recuperar a escola como construção histórica, que nem sempre existiu e que portanto poderá deixar de existir no presente ou futuro. Sua obsolescência pode indicar a falência da forma, mas não dos processos de transmissão, elaboração e reelaboração da cultura. Assemelhar educação e escola e considerá-las sinônimos, e falidas, pode levar ao processo de jogar fora água, bacia e criança.


Publicado em 28/3/2010

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Mirtes Marins de Oliveira

É professora e coordenadora do mestrado em Artes Visuais da Faculdade Santa Marcelina. É co-editora da revista "marcelina" desde 2008 e mestre e doutora em Educação: História e Filosofia.



1 - Cf. Open Studio, "Frieze Magazine", nº 118, outubro de 2008. Acesso em http://www.frieze.com/issue/article/open_studio/. Março de 2010.


2 - http://www.e-flux.com/


3 - Que seria realizada em Chipre (em dezembro de 2006) e foi cancelada por representantes do governo cipriota por razões políticas, em virtude da proposta curatorial, ignorar a históorica disputa e divisão territorial entre cipriotas e turcos.


4 - In Adorno, T. “A filosofia e os professores” in "Educação e Emancipação". São Paulo: Paz e Terra, 2006.

 
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