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Não há como retirar a importância histórica do ensino de arte na academia. Mas quantos artistas notáveis não foram aceitos por escolas de arte na Europa e em outras partes do mundo e mesmo assim persistiram como autodidatas. Nem por isso abandonaram seus ofícios, pesquisando, desenvolvendo de maneira livre e rigorosa o seu trabalho, sem as restrições estilísticas, acadêmicas ou temporais.

Acho necessário perceber que, hoje, em pleno século 21, o importante e possível é desenvolver o potencial de cada artista, de maneira individualizada, criando uma contextualização personalizada, tanto na teoria quanto na prática. Se a academia ainda não tem capacidade de fazer isso, cabe apenas ao próprio artista, por meio de seus itinerários e direcionamentos, tornar palpáveis essas possibilidades.

Onde o estudante de arte mais aprende em termos de arte?

Cunha: Produzindo arte. Por meio da imersão do artista em sua produção, o mesmo vivencia uma experiência de aprendizado. Para as necessidades de conhecimentos específicos, é importante estar antenado junto de quem tem afinidade artística, pensando, avaliando e questionando.

Nesse aspecto, a academia é importante, ela tem o poder de aglutinar pessoas que têm uma afinidade específica e uma busca de aperfeiçoamento. Mas lembro que vivi experiências formadoras nas ruas, nas oficinas do MAM-BA e no Mercado Modelo. Absorvi coisas importantes, principalmente nas abordagens que eram feitas, à maneira investigativa, sempre tornando o local um laboratório de estimulação estética e visual. Acho que você busca as coisas que tem a ver contigo, vai filtrando o que o lugar tem para oferecer. Para aprender, só precisa querer!

Qual deve ser, na sua opinião, a proporção ideal entre formação humanista (ciências sociais) e o aprendizado de uma habilidade técnica (gravura, pintura, escultura)?

Cunha: Proporcionalmente, superior para as disciplinas práticas. Estudar a história da arte, a percepção visual e outras disciplinas teóricas para se situar, entender os conceitos artísticos e questioná-los, negando-os se for o caso, é fundamental. Também é de extrema importância estudar outras áreas do conhecimento e ligadas à formação do indivíduo como cidadão, atuante em qualquer área, o que se torna ainda mais imprescindível com as artes plásticas e visuais, por conta da autonomia do profissional.

Mas o aprendizado prático é fundamental para o aperfeiçoamento do artista, em todos os aspectos, estilísticos e conceituais. Ninguém se torna artista só lendo e apresentando seminário no fim do semestre. É necessário o aprofundamento da linguagem própria. O processo é dinâmico. Vale lembrar uma frase da saudosa Isa Muniz, nas aulas de desenho de no MAM-BA: “O artista tem que 'malhar pesado' em busca de seu trabalho, porque custa encontrar um meio, mas, depois que encontra, adeus”.

Vejo esse malhar, em cima do muro, entre a teoria e a prática. Para mim é isso: arte é mais transpiração que inspiração. Se o artista não viver como um monge, um eremita, aquele que se tranca no ateliê, produzindo, em busca de algo que se sustente, não sai nada diferente do que já está aí estabelecido.

Deveria a escola/faculdade ensinar como entrar e se defender no mercado de arte – ou esse tema não deveria entrar no currículo?

Cunha: O ideal seria que houvesse uma integração entre artistas e produtores culturais ainda nas universidades, mas não é o que ocorre. Hoje é comum artistas que se formam, realizando apenas as exposições acadêmicas, e muitos não trilham os caminhos de um artista. Vão exercer outras atividades com uma remuneração mais presente.

Mesmo hoje, por meio da globalização e da internet, que permitem criar e desenvolver conteúdos pedagógicos mais atuais, não existe uma requalificação nos currículos acadêmicos. Há décadas utilizamos os mesmos métodos, por isso é possível perceber ainda a falta de perspicácia para se inserir no mercado.

Se tivesse de refazer sua educação artística, o que buscaria para melhorar a trajetória do aprendizado?

Cunha: Teria iniciado antes o processo de participação em residências artísticas. Acredito que desenvolver e expor trabalhos em um contexto novo é ótimo exercício para aperfeiçoar o estilo e a linguagem, possibilita que pessoas com as mais diferentes formações e conhecimentos interajam com a sua proposta. Isso é fantástico.

Cursar uma faculdade de arte significa que ao cabo de um período de formação o sujeito se torna artista? Concorda com isso ou acha que o artista deveria buscar diplomar-se em outro curso?

Cunha: Ninguém se forma artista, o ser torna-se artista devido ao seu trabalho. Acredito que haja um reconhecimento da pessoa enquanto artista. Hoje cada vez mais pessoas se formam nas faculdades de artes apenas para obter o nível superior. Elas não têm o desejo, a sede de produzir. Acredito que o que torna alguém um artista é a sua produção.

Cito-me como exemplo, influências sobre minha carreira foram surgindo ao longo da vida, ainda na infância, quando mudamos do bairro em que morava desde criança, diante da minha tristeza por estar em um lugar estranho, longe dos amigos, desenhar era um belo passatempo, e meu pai me permitiu um grande acesso a materiais, me influenciando a desenhar e pintar.

Posteriormente, na adolescência, tive contato com o movimento de pichação, que era uma coisa bem dinâmica, veloz, e, hoje, os grafites. Sempre tive o hábito do trabalho e o contato com espaços que me permitiam ter liberdade e me sentir em liberdade. Quando entrei na universidade, já estava trilhando um caminho. Sempre preferi as aulas abertas, em museus, fundações e centros de arte.

Professores devem ou não se manifestar quando um aluno não tem a menor vocação para ser artista? Ou ser artista se aprende inelutavelmente após quatro anos de cursos práticos e teóricos (história da arte)?

Cunha: Arte vem do termo latim "ars", que significa técnica, habilidade. Sendo assim, pode-se dizer que artista é quem tem a técnica ou habilidade, esse conhecimento. Quem não tem vocação para artista sente, sabe no fundo que não tem talento. Se for o caso, nesse aspecto, o professor deve, sim, dizer a verdade. "Veritas vos liberabit": a verdade vos libertará. É função dos professores orientar, analisar seus níveis, orientar os alunos a utilizar melhor suas potencialidades.

Lembro de um professor no secundário, que, nas primeiras semanas das aulas de “artes”, distribuía papel e lápis, pedia para todos desenharem. Nunca vi isso na faculdade, não acredito que a universidade forma o artista. Um fato importante a ser lembrado é que ela apenas aglutina conhecimento e métodos para desenvolver e aprimorar o trabalho deste artista. Não deve ser vista como uma caixa mágica onde o indivíduo entra e sai artista.

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BEATRIZ MILHAZES
Vive e trabalha no Rio de Janeiro

Conte um episódio marcante vivenciado em sala de aula que foi decisivo na sua carreira.

Beatriz Milhazes: Minha primeira aula com Charles Watson na Escola de Artes Visuais, no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Eu estava iniciando meus estudos na escola, em 1980, e tínhamos um primeiro semestre de currículo básico, onde cada professor abordava uma cadeira nesta formação inicial. Charles tinha a cadeira destinada ao pensamento 2D, sobre o plano nas artes visuais. Ele é escocês e acabara de chegar da Inglaterra, com sua formação em pintura na Barth Academy of Art.

Sua primeira aula foi sobre problemas quase “matemáticos”, para que os alunos resolvessem de forma prática e visual, por meio de alguma imagem ou objeto. Eu não entendi nada, foi um tipo de choque intelectual para mim. Eu entendi que havia um mundo completamente desconhecido para mim. Isso me estimulou muito, e fez com que após essa etapa inicial eu fosse continuar meus estudos, em pintura, tendo-o como professor.

Onde o estudante de arte mais aprende em termos de arte?

Milhazes: Na escola de arte. O ensino formal é importante e útil na formação de um artista, porém não acredito que se formem artistas somente na escola e nas universidades. O desenvolvimento informal no processo de formação de um estudante de arte é também muito importante, mas é na escola que você vai poder organizar e dar uma forma a essas experiências. Não acredito tampouco que o nível da formação de um artista vá designar a qualidade de seu trabalho. A escola/universidade forma artistas, não necessariamente artistas de muito boa qualidade ou que serão de importância para a história da arte. Essa posição independe do nível da formação.

Qual deve ser, na sua opinião, a proporção ideal entre formação humanista (ciências sociais) e o aprendizado de uma habilidade técnica (gravura, pintura, escultura)?

Milhazes: Eu acho que uma das funções importantes da escola é dar acesso e fornecer informações e experiências aos seus alunos. Isso vai, mais adiante, propiciar ao aluno ter a capacidade e o direito de escolha. Ambos são importantes na formação, talvez em igual tamanho, por serem muito diversas suas importâncias.

Deveria a escola/faculdade ensinar como entrar e se defender no mercado de arte – ou esse tema não deveria entrar no currículo?

Milhazes: As universidades americanas tem isso no seu currículo. Inclusive, os alunos aprendem a dar palestras e a falar sobre o seu trabalho. De uma maneira geral, eu acho pertinente que esse tema seja abordado, pois diz respeito à profissionalização do artista. O problema desta cadeira em uma educação formal é que nem todos os países têm um “mundo da arte” visível e profissional. A escola pode vir a falar de um mundo que não existe fora da teoria.

Nos Estados Unidos, um aluno sai da Universidade de Yale com capacidade para identificar e lidar com todo o mecanismo da arte, porém eles têm um mecanismo claro, forte e presente nos Estados Unidos. Se fosse ensinado nos padrões americanos, um artista brasileiro teria dificuldades em encontrar esse sistema no mundo real de seu país. O Brasil é ainda muito pouco profissional com relação às artes visuais.

Se tivesse de refazer sua educação artística, o que buscaria para melhorar a trajetória do aprendizado?

Milhazes: Não mexeria em nada. Os “defeitos” da minha formação me ajudaram a ter uma liberdade com relação à minha prática de ateliê, na pintura. Essa liberdade me permitiu agir sem muita responsabilidade sobre a história da arte e a desenvolver uma linguagem mais fresca. No Brasil, estudamos pintura sem vê-la. Eu estudei Matisse por meio de fotografias e vi a primeira tela "ao vivo" aos 25 anos, quando fui pela primeira vez à Europa. Nessa época, já estava trabalhando minha primeira individual no Rio.

Eu sou formada em jornalismo (pois no Rio não havia uma boa universidade de artes plásticas na minha época). Minha formação em artes foi na EAV, no Parque Lage, com o Charles Watson, e em casa com minha mãe, que foi professora de história da arte da UERJ. Todos esses elementos se juntaram positivamente quando comecei a desenvolver minha própria linguagem em pintura.

Cursar uma faculdade de arte significa que ao cabo de um período de formação o sujeito se torna artista? Concorda com isso ou acha que o artista deveria buscar diplomar-se em outro curso?

Milhazes: Acho que respondi acima essa pergunta, mas acrescentaria que nenhum estudo vai evitar o confronto de ateliê. Seus problemas de linguagem e de desenvolvimento da mesma são resolvidos diante ou concentrados neles. Não haverá estudo ou curso que fará você resolver os seus problemas e as questões de linguagem. A prática de ateliê é a única ferramenta a ser utilizada ao sair da universidade. A volta aos estudos sempre é e será bem-vinda desde que atrelada a necessidades dessa prática.

Professores devem ou não se manifestar quando um aluno não tem a menor vocação para ser artista? Ou ser artista se aprende inelutavelmente após quatro anos de cursos práticos e teóricos (história da arte)?

Milhazes: Fui professora durante 10 anos e diria que me surpreendi em poucos momentos com relação a essa situação. Me surpreendi das duas maneiras. Alunos que achei que seriam bons artistas nunca chegaram lá, e alguns que achei que não tinham nenhum talento acabaram se tornando artistas profissionais.

Às vezes, é uma questão de encontrar a linguagem certa para o trabalho, a técnica, o meio mais eficiente. O aluno insiste em ser pintor e na verdade adiante descobre que no 3D se entende melhor. Ou está tentando ser um artista e na verdade é um teórico da arte. Eu sempre optei por oferecer possibilidades e ser dura na cobrança da seriedade no trabalho, na tentativa de dar elementos para ajudar o aluno a encontrar seu caminho.

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1 - Um grande exemplo foi Alfons Mucha, principal nome da arte nova, na Paris de 1900.


2 - Da Cidade Nova para Lauro de Freitas, em Salvador (BA).


3 - Iniciou-se como assistente do almoxarifado, da tipografia, foi impressor e chefe de almoxarifado da gráfica do extinto banco Econômico.

 
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