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ENSINA-SE ARTE?

Advertência por escrito
Por Mario Gioia

Artistas plásticos brasileiros falam sobre a sua formação e a importância das escolas de arte para o seu trabalho


Leia as respostas de Alex Cerveny, Ana Tavares, Anderson Cunha, Beatriz Milhazes, Carlito Carvalhosa, Maurício Ianês, Laura Belém, Lucia Laguna e Martinho Patrício

Se a última grande revolução no ensino de artes já é quase centenária –a Bauhaus deu seus primeiros passos em 1919–, qual seria o modo mais adequado de ensinar artes no século 21?

Variadas respostas são formuladas em "Art School – Propositions for the 21st Century (MIT Press), organizado pelo crítico de arte norte-americano Steven Henry Madoff e que conta com contribuições de alguns dos mais importantes nomes da cena contemporânea de artes.

Entre eles, há consagrados artistas, como Marina Abramovic e John Baldessari, nomes emergentes, como o coletivo indiano Raqs Media Collective, além de críticos e curadores que comandaram exposições de peso, como Robert Storr (curador da 52ª Bienal de Veneza, em 2007) e Daniel Birnbaum (curador da 53ª Bienal de Veneza, em 2009).

Num dos mais interessantes ensaios, por exemplo, o artista e professor cubano radicado em Nova York, Ernesto Pujol lembra que seus alunos de arte possuem um arsenal de novas tecnologias ausentes em outros períodos, como smartphones, câmeras digitais e laptops. Ele reclama da lentidão com a qual mudam os currículos, mas questiona se a ênfase na arte conceitual fez dos artistas apenas “compradores” de técnica. Pujol defende o foco interdisciplinar no ensino, além de sugerir novas relações com o mercado e uma disposição em oferecer outras disciplinas, como história da democracia.

Em meio aos ensaios e conversas da publicação, o livro elenca dez projetos paradigmáticos do ensino de arte, com breve explicação da sua importância. A lista começa com a Escola de Belas Artes parisiense, do começo do século 19, modelo do academicismo. Passa pela Bauhaus, em Dessau, que, tendo à frente Walter Gropius (1883-1969), uniu o ensino de artes e as novas estruturas industriais do começo do século 20 (a destacar que uma grande mostra encerrada em janeiro no MoMA, em Nova York, "Bauhaus 1919–1933: Workshops for Modernity", frisou tal modernidade da escola).

Há espaço para o Black Mountain College, de professores como Josef Albers (1888-1976) e alunos como Robert Rauschenberg (1925-2008) e Cy Twombly, entre vários outros, instituição-chave nas artes dos EUA nos anos 40 e 50. A lista é finalizada com a Escola Zollverein, em Essen, Alemanha, um dos mais instigantes projetos da arquitetura recente, assinado pelos japoneses do Sanaa.

Em outro capítulo, o crítico norte-americano Brian Sholis elabora um questionário para 12 nomes importantes das artes atuais, como o norte-americano Mike Kelley, a iraniana Shirin Neshat e o argentino Guillermo Kuitca. As perguntas versam sobre momentos marcantes da formação dos artistas, o peso para a formação humanista no currículo e a relação com o mercado, entre outros tópicos.

Baseado no questionário, Trópico enviou perguntas a artistas representativos da cena brasileira, de gerações e Estados diversos, e o resultado revela algo da ainda frágil situação do ensino de arte do Brasil. Se ao menos conceitos do artista como “gênio” ou tributário da “inspiração” não surgem, são citadas dificuldades comuns, como o quase divórcio entre universidade e mercado (com a ressalva que o mercado ainda é pouco vigoroso no Brasil, como Beatriz Milhazes afirma: “Se fosse ensinado nos padrões americanos, um artista brasileiro teria dificuldades em encontrar esse sistema no mundo real de seu país”).

E, se hoje o sistema do ensino de artes atual está mais diversificado, com tradicionais universidades oferecendo cursos (as públicas, federais e estaduais, mais fortes fora do eixo Rio-São Paulo; iniciativas privadas como Faap, em São Paulo, e PUC, em Minas Gerais), além de cursos mais rápidos (como a Escola São Paulo, em SP, e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio) e grupos de estudo organizados pelos próprios artistas (que incluem visitas a ateliês, debates sobre questões específicas e ligadas ao trabalho deles), não há motivos para festejos.

Os artistas pedem algo mais multidisciplinar, com especial atenção à formação humanista. “Sinto falta deste outro curso (filosofia, não concluído), tive de dobrar meus esforços para desenvolver meu pensamento, pois isso foi necessário para a construção do meu trabalho”, assinala Maurício Ianês. “Ainda se dá muita ênfase à técnica e mesmo nas discussões teóricas, a arte é vista como algo separado do mundo. Estuda-se história da arte sem que se saiba história do Brasil. Discutimos o trabalho do artista sem entender o seu contexto, suas motivações, suas inquietações”, afirma Regina Parra.

A seguir, 15 artistas dão o seu depoimento a respeito do ensino de artes. Leia as respostas de: Alex Cerveny / Ana Tavares / Anderson Cunha / Beatriz Milhazes / Carlito Carvalhosa / Maurício Ianês / Laura Belém / Lucia Laguna / Martinho Patrício / Nazareth Pacheco / Oriana Duarte / Paulo Pasta / Regina Parra / Renata Lucas/ Xiclet.

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ALEX CERVENY
Vive e trabalha em São Paulo

Conte um episódio marcante vivenciado em sala de aula que foi decisivo na sua carreira.

Alex Cerveny: Uma vez, aos 16 anos, em vez de me propor desenho ou pintura, o professor me sugeriu a apreciação de uma pilha de catálogos de bienais e de artistas diversos.

Onde o estudante de arte mais aprende em termos de arte?

Cerveny: Fazendo arte.

Qual deve ser, na sua opinião, a proporção ideal entre formação humanista (ciências sociais) e o aprendizado de uma habilidade técnica (gravura, pintura, escultura)?

Cerveny: Isso deveria variar conforme o aluno.

Deveria a escola/faculdade ensinar como entrar e se defender no mercado de arte –ou esse tema não deveria entrar no currículo?

Cerveny: Pode ser, mas estágios em galerias, museus e ateliês cumprem esse papel.

Se tivesse de refazer sua educação artística, o que buscaria para melhorar a trajetória do aprendizado?

Cerveny: Estudaria mais línguas.

Cursar uma faculdade de arte significa que ao cabo de um período de formação o sujeito se torna artista? Concorda com isso ou acha que o artista deveria buscar diplomar-se em outro curso?

Cerveny: Faculdade não forma obrigatoriamente artistas. Não é preciso qualquer diploma para ser artista.

Professores devem ou não se manifestar quando um aluno não tem a menor vocação para ser artista? Ou ser artista se aprende inelutavelmente após quatro anos de cursos práticos e teóricos (história da arte)?

Cerveny: O professor deve auxiliar o aluno em seu processo de pesquisa e aprendizagem na arte. Não é papel dele zelar pela excelência do mercado de arte. Artistas existem por razões além do mercado. Nem é preciso tanto esforço para tornar-se artista, mas tampouco é algo simples. Para o êxito em qualquer trabalho é preciso ter talento.



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ANA TAVARES
Vive e trabalha em São Paulo

Conte um episódio marcante vivenciado em sala de aula que foi decisivo na sua carreira.

Ana Tavares: Cito dois: 1) Quando Regina Silveira viu minhas litogravuras na Faap e disse (ocasião esta em que era ainda aluna ingressante no curso de artes plásticas): você é uma artista e para ser artista no Brasil terá que levantar duas bandeiras a cada dia -uma porque é artista e outra porque é mulher; 2) Quando Julio Plaza fazia orientação de projetos no Aster e dizia: o artista não é apenas um especialista em técnicas, ao contrário, é aquele que reinventa as linguagens e os meios, tem o domínio e se apropria deles com propriedade para multiplicar sentidos.

Onde o estudante de arte mais aprende em termos de arte?

Tavares: O estudante, na escola (mas permanecerá sempre estudante); o artista, na vida real. O melhor estudante é aquele que se reconhece estudante-artista e o melhor artista, aquele que se faz artista-estudante. Estes são os mais legais, estes aprendem na escola e na vida.

Qual deve ser, na sua opinião, a proporção ideal entre formação humanista (ciências sociais) e o aprendizado de uma habilidade técnica (gravura, pintura, escultura)?

Tavares: O problema da arte não está na habilidade de quem a pratica. Arte não é simplesmente técnica; arte é pensamento, matéria, espaço, tempo ("poiesis"). Arte é o mundo posto em dúvida. A formação humanista e científica são a base para o pensamento e para a ação artística. O aprendizado técnico é seu complemento. Um inspira o outro e vice-versa. Limitar a arte a linguagens tradicionais hoje é como pegar uma rua sem saída.

Deveria a escola/faculdade ensinar como entrar e se defender no mercado de arte – ou esse tema não deveria entrar no currículo?

Tavares: Infelizmente, muitas vezes, nossas escolas no Brasil se esquivam desta tarefa. Sou radicalmente a favor de que os programas de ensino da arte se encarreguem de expor e preparar o jovem artista para a vida real. Por outro lado, não se trata apenas de “se defender no mercado de arte”, mas de formar a consciência crítica em relação ao sistema da arte, para que o jovem artista seja capaz de encontrar meios para atuar e se mover nele, criticamente e com autonomia.

Devemos entender também que o mercado de arte é bastante complexo e que este termo é às vezes entendido, equivocadamente, como um único lugar, um lugar homogêneo ou uma única posição. Há diversas maneiras de estar no mercado de arte hoje, principalmente com os recursos de circulação da informação, já tão amplamente usados devido aos avanços tecnológicos do mundo conectado em grandes redes. A grande questão é hoje estimular formas de atuar num panorama que de fato oferece tantas possibilidades cada vez menos dependentes de estruturas fechadas.

Se tivesse de refazer sua educação artística, o que buscaria para melhorar a trajetória do aprendizado?

Tavares: Tempo. Estudaria ainda filosofia, literatura e engenharia.

Cursar uma faculdade de arte significa que ao cabo de um período de formação o sujeito se torna artista? Concorda com isso ou acha que o artista deveria buscar diplomar-se em outro curso?

Tavares: Definitivamente não concordo. Geralmente digo aos meus alunos que alguns entram na escola e já são artistas. Neste caso a escola de arte apenas o ajudará a se organizar, a sistematizar sua produção e a ampliar seu repertório, sua visão de mundo, e o ajudará sobretudo a criar pontes de diálogo de sua produção com o passado, o presente e o futuro; a se colocar no mundo, a se fazer ouvir.

Há outros artistas que só se descobrirão artistas de fato somente no processo de formação acadêmica, mas ainda há outros que nunca serão artistas. Ser artista é também uma questão de atitude, de escolha e de posicionamento no mundo, não uma coleção de diplomas. Por outro lado a formação do artista não tem fim, se dá ao longo de toda vida, não só com livros e aulas, mas, principalmente, a partir da herança construída por sua própria produção e pesquisa plástica. Por acaso já vimos artista se aposentar?

Professores devem ou não se manifestar quando um aluno não tem a menor vocação para ser artista? Ou ser artista se aprende inelutavelmente após quatro anos de cursos práticos e teóricos (história da arte)?

Tavares: Acho que nenhum professor tem condições de afirmar se alguém será ou não artista, pois, para tal, é necessário uma decisão interior, amadurecimento, desejo e também de muita perseverança. Não há o momento certo para se tornar artista, também não se trata de um ovo prestes a chocar que deixa cair suas casquinhas para dele surgir um pintinho fofo de dentro! Pode ser que alguém com muita vocação nunca se torne artista, da mesma maneira que outros, ditos “sem jeito”, poderão se revelar extremamente brilhantes... como um belo patinho feio!

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ANDERSON CUNHA
Vive e trabalha em Salvador

Conte um episódio marcante vivenciado em sala de aula que foi decisivo na sua carreira.

Anderson Cunha: Acredito que as influências sobre minha carreira surgiram ainda na infância, sendo filho de um gráfico. Sempre tive inclinação para as artes. Vivi momentos mais frustrantes que felizes em salas de aula. Nesse ambiente claustrofóbico, o episódio que mais me tocou sendo determinante para afirmar minhas convicções de que a formação do artista está para além das fronteiras acadêmicas foi o assassinato do meu irmão.

Fiquei em um estado de choque e, durante um surto de arrogância e prepotência de uma professora, descobri que não era como “aluno” que iria me tornar o que já era. Já sabia o que queria fazer da vida, e esse conhecimento me bastava, sempre soube que um artista se constroi com o aprimoramento de ideias, seja no ateliê, seja na rua ou em ruínas, e que jamais esteve ligado a estar ou não na sala de aula.

 
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