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a.r.t.e.
MÚSICA

Bossa dissonante
Por Carlos Adriano


A cantora Lucila Tragtenberg
Divulgação

Após 25 anos de atuação como cantora, Lucila Tragtenberg lança “Voz Verso e Avesso”, seu primeiro CD

Sob a condição efêmera à qual estão condenados os humanos, há quem acredite na experiência de transfiguração divina pela arte, ilusão consciente de permanência e sublimação (a alusão do sublime?). Não é consolo, mas um princípio-esperança, ou profissão de fé. O ser humano também pode usar outros expedientes para suportar o desatino do destino final, como religiões e ascensões sociais.

A transcendência pode ser entrevista e alcançada por uma pintura (Giotto ou Malevitch), uma fotografia (Lartigue ou Arbus), um filme (Ford ou Bresson). Mas estas artes têm base no visível, no sentido material que se dá a ver concretamente (o “que torna visível”, a que aspirava Klee, é a exceção à regra).

Com tal aspiração, música e poesia operam com matérias (som, palavra) e matemáticas (harmonia, métrica), mas exigem a imaginação do ouvinte e do leitor para que se dê o fato estético. O que talvez até induza a uma experiência de transcendência mais profunda, por não estar justamente vinculada à esfera estrita do visível.

Peso as medidas das propriedades e penso em matéria e matemática também no sentido da física (ciência), e não apenas no estatuto físico (presença). A física quântica persegue os movimentos de particularidades pequenas, assim como os fractais materializariam os rastros da ocorrência do acaso.

A constituição material do visível é por vezes, ironicamente, uma contradição ao próprio ver. Deliberadamente ou não. Há filmes, por exemplo, que concentram todo o sentido no que está além dos limites do quadro, ao que está fora do campo de visão.

“Voz Verso e Avesso” é o apropriado e sugestivo título do primeiro CD de Lucila Tragtenberg, título que enfeixa um tripé programático ou unidade tripartida (refiro-me ao totem da modernidade sem eludir ressonâncias religiosas).

É um disco autoral não apenas pela produção da própria artista, que contou com o patrocínio da Petrobras e a lei de incentivo do Ministério da Cultura, mas pela constelação: voz-autora, música-autora, letra-autora.

A música é de autoria de Livio Tragtenberg, que assina composições, arranjos, direção musical e coordenação. As “letras” são de autoria de Haroldo de Campos (1929-2003), que assina traduções (ou “transcriações”, como ele preferiria) de poesia (hebraica e chinesa) e dois poemas de sua lavra.

Registro de uma parceria de mais de 25 anos entre Livio e Haroldo, o disco salda e salva uma dívida dos irmãos músicos Tragtenberg com o poeta de campos e galáxias. Em duas décadas de concertos, Lucila firmou-se como “intérprete ideal” dos poemas criados e transcriados por Haroldo e musicados por Livio.

Em coro a música e letra autorais, a voz é de autoria também, pela subjetividade de recursos como dicção, timbre e escansão. Lucila tem formação de cantora lírica e seu repertório percorre ópera, músicas de câmara e contemporânea. Ela faz doutorado em Processos de Criação, no programa de Comunicação e Semiótica da PUC-SP.

Além de ministrar aulas na graduação em Artes do Corpo na PUC-SP, ela leciona um curso de extensão no Cogeae da PUC sobre “voz, impostação e expressão”. Lucila também participa do Grupo de Pesquisa em Processos de Criação da PUC-SP e pesquisa sobre “interações de criação vocal e pictórica”, no projeto chamado “Pinturaforadapintura”

“Voz Verso e Avesso” abre com a “Suíte Qohélet, O-Que-Sabe”, a partir das traduções do Eclesiastes publicadas no livro homônimo de 1991. Composta de cinco peças, a tônica dominante referencial é a bossa nova.

O gênero que celebrizou o cantar coisas prosaicas (em harmonias tão sofisticadas quanto básicas) é reapropriado aqui para celebrar uma interrogação de temas últimos da existência. A escuta é surpreendente, pela complexa simplicidade da pedra-de-toque do que-não-se-sabe.

A naturalidade enigmática com que a bossa acomoda tais versos e universos é a mesma da transposição do hebraico para o português, com um tom ecumênico de brasilidade que ecoa a complexa tradução do samba pelos parâmetros do jazz. A redução essencial não diverge dos pressupostos do “poema sapiencial”.

O desconcerto e o estranhamento são, paradoxalmente, de teor mais natural ainda pela solução dos arranjos musicais de Livio e pelas encenações vocais de Lucila (com a contra-voz do hazan hebraico David Kullock). A suíte propicia ao ouvinte um jogo de aproximações e distâncias, uma identificação prístina que se reconhece próxima.

“Eu Disse Para o Meu Coração” é bossa (re)nova(da) que deslinda atonais dissonâncias (não estranhas ao código de Tom), em arranjo para vozes, piano, violão, contrabaixo e percussão (“Vem vou provar-te no prazer/ E prover-te do melhor”). Entremeada de crispações de partir a aorta, revoga uma promessa de vida no coração da música.

Em “Geração Que Vai e Geração Que Vem” (“Aquilo que já foi é aquilo que será/ E aquilo que foi feito aquilo se fará”), a bossa destila um espaço imaginário e boêmio. No arranjo de vozes, violão, contrabaixo e percussão, o clarone desponta em contraponto ao sol.

O arranjo “a capela” para “Tempo de Nascer e Tempo de Morrer” é pertinente em termos conceituais (a acompanhar a solitária condenação do ser). O coral de frases sobrepostas em sutil defasagem faz coro às antinomias do poema (“Tempo de procurar e tempo de perder”).

“Vê a Vida Com a Mulher Que Amas” encena o encanto da serpente que se alcança por espirais harmônicas. Com arranjo para vozes, piano, violão, contrabaixo e percussão, o mosaico musical compõe variações de tons e texturas (“Todos os dias de tua vida-névoa-nada”).

Em “Antes Que Se Escureça o Sol”, a batida da bossa sugere uma redução eidética do cortejo de samba, com pausas precisas e condão de vozes, piano, violão, contrabaixo e percussão (“Tudo veio do pó/ E tudo volta ao pó”). Culmina em estranha e extática apoteose que varre a escala timbrística de “névoa-tudo” e “névoa-nada”.

Após a suíte do Eclesiastes, translada-se ao território de Li Shang-Yin (813-858 d.C.), “o Mallarmé chinês”, como diz na introdução de “Escrito sobre Jade: Poesia Clássica Chinesa” (1996) o “reimaginador” (como autodenominou-se no livro), Em 1988 Lucila cantou pela primeira vez “A Dama da Lua” na Dama Xoc, casa de shows em São Paulo.

No CD, “A Dama da Lua” aparece em sutil e inusitado arranjo de eletrônica, violoncelo e shamisen. Acordes e frases irrompem no fluxo da continuidade, preparando o levitar da afi(n)ada escansão vocal, solta da gravidade. A locução em chinês (por Ma Ping) cifra ao ouvido ocidental o mistério da fábula do furto do elixir da eternidade.

“Rima Petrosa” foi publicado em “Crisantempo” (1998), com a leitura na voz do poeta em CD dentro do livro. Haroldo seguiu “a inflexão dantesca” das “Rimas Pétreas ou Pedregosas”, de Dante (1265-1321), traduzidas em “Traduzir e Trovar” (1968), livro feito com seu irmão Augusto.

“Rima Petrosa 1” (“um negar-se tão rente / (...) / uma causa perdida / um não vem que não tem”) sugere uma opereta atonal de cabaré minimalista, ou cabaré filosófico (como se Voltaire fosse dar um rolê para Nietzsche ocupar a ciranda). O acordeão e o clarone sublinham e sublimam a pulsação do piano e do shamisen.

“Rima Petrosa 2” (“a contra-sim / a contra-senso / a contra-mim”) sugere um épico em tom menor, mas de magnitude. Driblando clichês populares e impopulares, a esperta contrafação de rap, hip hop e repente desvia-se em arranque de hino de protesto. Com clarone, saxofone tenor, eletrônica, violoncelo e marimba, é para arrastar multidões.

“Acróstico”, tradução de poema do sefaradi Sem Tob de Carrión (1290?-1369?), encerra o CD em coda enigmática (“Sem caneta e sem tinta um poema / (...) / Obra assim não é coisa pequena: / mesmo lida é lenda”). Voz e marimba formam a banda de três dimensões para esta improvável trilha de um roteiro de Buñuel, o cão andaluz da perdida idade de ouro, dirigido por Victor Erice, o cultor das refrações do sol no marmelo.

Na introdução ao CD, Jacó Guinsburg, editor e amigo de Haroldo de Campos, aponta o escopo de fazer soar os “enigmas da existência e de sua efemeridade”, entre “os arcanos do tempo” e “a aproximação atualizadora”. Este trânsito entre temporalidades (da escrita dos textos e das musicalizações e audições) tem paralelos com o pêndulo entre o visível e o invisível aludido acima.

Há lapsos (pontes, enganos, intervalos) entre a representação da coisa mental e a realidade do mundo. O lance complica no confronto de parâmetros materiais das artes (imagem visual, palavra escrita, som musical) para tratar da relação entre pensamento e sentidos, como conhecimento do mundo pela mente (operação abstrata) e pelas sensações (operação física), simplificando uma equação de Michel Paty.

A arte, como formulação precisa do impreciso ou como formulação imprecisa do preciso, guia-se por bússolas que orientam uma rota imprevista. Afinal, o processo da invenção é uma busca rumo ao desconhecido, sob as bênçãos da padroeira do artista criativo, evocada por Livio como a Nossa Senhora do Acaso.

Pela produção técnica e a ambição artística, este CD é um objeto diferencial na música pasteurizada. Mesmo que a massa não coma biscoitos finos, o povo não é massa amorfa, como comprovam as infinitas fatias da segmentação de blogs e gostos.

A interpretação de Lucila alcança extensão vocal sem pular torneios. Há clareza e precisão de aço, assim como maleabilidade de mercúrio. A voz é um canal para além do estéreo auricular, borgeana bifurcação, de poesia e música fluindo ao mar.

Se é inacreditável que Lucila só grave um disco após 25 anos de atuação, é também espantoso que esta seja a primeira gravação da colaboração criativa e amiga entre Haroldo e Livio, iniciada com a joyceana “Crepúsculo de Ceguiloucura Cai sobre Swift” (1982). Entre “dezenas de colaborações”, Livio elege a música para “A Cena da Origem” (1989), recriada em “Vida-Névoa-Nada” (1997) e em 2009 neste CD.

Após proezas de projetos, como o de sanfoneiros cegos tocando diante da projeção de um filme mudo e o da orquestra dos músicos das ruas de São Paulo (registrada no CD “Neurópolis”, 2007), Livio nos deve um CD com Lucila, contendo as composições para poemas e traduções de Haroldo. Ouvido o apetite.

Um disco compacto em órbita transporta o ouvinte para territórios livres do imaginário, do coração ao cosmos. Numa conversa informal, Lucila confidenciou que ter conhecido pessoas generosas e amorosas revelou-lhe uma imagem-díptico que ela adota na vida, e que também poderíamos tomar como lema (e leme) para a criação, com o lastro e a memória daquela experiência humana: “farol e âncora”. Da voz ao verso, do verso ao avesso, do avesso à vida (ou ao que se acredita e desacredita que ela seja).


link-se

www.myspace.com/lucilatragtenberg

www.myspace.com/liviotragtenberg


Publicado em 25/2/2010

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Carlos Adriano
É diretor de cinema e doutor em ciências da comunicação pela USP, realizador de "Remanescências" (coleção New York Public Library), "A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha" (melhor curta documentário Chicago Film Festival) e "Militância", entre outros filmes. Com Bernardo Vorobow, é autor do livro "Peter Kubelka: A Essência do Cinema" e organizador de "Julio Bressane: CinePoética".

 
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