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a.r.t.e.
TEATRO

Humor sem humilhação
Por Alvaro Machado


A atriz Grace Gianoukas
Divulgação

A atriz Grace Gianoukas, de “Terça Insana”, conta como uma bactéria deslanchou sua carreira e protesta contra a prepotência no palco

Palcos paulistas e cariocas anunciavam, em dezembro de 2009, uma catadupa de pelo menos duas dezenas de comédias "stand up", gênero que historicamente pode ser referido à arte solitária dos menestréis medievais e a apresentações em feiras norte-americanas, já no século XVIII. Em última análise, entretanto, esse nome e seu formato atual como espetáculo tornou-se popular há 50 e poucos anos, em bares e teatros dos Estados Unidos.

Nos roteiros teatrais paulistanos, o muito copiado espetáculo “Terça Insana”, da atriz Grace Gianoukas –completando dez anos em cartaz em 2011–, também costuma ser anunciado como "stand up", para descontentamento de sua criadora.

No Rio, um grupo que, a exemplo do “Terça”, excursiona por capitais, escolheu como nome a tradução ao pé da letra do termo "stand up comedy": o “Comédia em Pé” exibe-se com quatro atores que, à maneira do cinema dinamarquês recente, afirmam obedecer os itens de uma lista-dogma para atingir total despojamento.

O conceito "stand up" aponta, na origem, a motivação de alguém que se levanta para declarar, publicamente, algo que considera importante. Confissão, desabafo. Na memória histórica recente, o gênero poderia estar conectado aos terrificantes auto-exames públicos de consciência nos países de doutrina marxista, atrás da Cortina de Ferro, entre as décadas de 1930 e 1960.

Na cultura nova-iorquina recente, sobretudo de raízes judaicas e irlandesas, é como se esses exercícios de mortificação adquirissem contornos de absurdo metafísico. Nessa vertente, as falas que Woody Allen dirige à câmera nos filmes de sua safra vintage são o exemplo de mais fácil lembrança.

No Brasil, “confissões” que se tornam motivo de riso podem ser conferidas, hoje, não apenas em teatros convencionais, mas também em casas de shows e espaços alternativos. Com risos regados a cerveja (nos chamados halls) ou a seco (em teatros e auditórios de modelo italiano). Com atores popularizados pela TV ou saídos do próprio "stand up" para a telinha, e daí retornados, à maneira de filhos pródigos. Com gente de sólida formação em artes cênicas ou bacharelada em programas de “pegadinhas” no rádio. Como nas antigas feiras públicas, por aqui o rótulo abriga, enfim, de tudo um pouco, com infeliz predominância de humor chulo e preconceituoso, enraizado em velhos programas de TV.

Mas por que tanta gente que tenta fazer rir falando de sexo, casamento, trabalho e política à maneira brasileira lança mão, sem dor de consciência, dessa expressão cunhada na fria América do Norte para um tipo muito específico de show? E o que pensa de tudo isso a responsável pelo fenômeno da multiplicação dos solos de humor, Grace Gianoukas?

Independente do número de similares que sobem à ribalta, seu fundamento teatral, revisado periodicamente com temas na ordem do dia e novos colaboradores, lota religiosamente o Avenida Club, na região oeste de São Paulo. Para os que têm preguiça de salões por onde circulam garçons, é possível avaliar a função por meio de dois DVDs, já cooptados pelo circuito nacional de camelódromos.

Comparados ao textos da maioria dos espetáculos ditos “stand up”, os quadros escritos por Grace e Cia. apresentam infinitamente mais ambiguidades de humor, referências cultas e crítica social. Situam-se a meio caminho entre o "one man/woman show" e a carpintaria teatral. Sempre insuflada pela força histriônica de sua líder, a “insanidade teatral” já contou em suas fileiras com nomes como Marcelo Médici, Marcelo Mansfield e Ângela Dip, hoje com suas próprias casas cheias.

Na entrevista a seguir, a gaúcha Grace revela por que entrou na "lista negra" da TV Globo, conta como uma bactéria deslanchou sua carreira e explica por que detesta comédias que promovem a humilhação alheia. "Tu assiste a muita prepotência no palco. Pessoas que declaram coisas assim: “Gente de Rondônia tinha que ser morta, que gente feia!”. Isso é lá engraçado?!", protesta.

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A atriz Agnes Zuliani escreveu um estudo: “O Que É Stand Up Comedy?”. O que acha dele?

Grace Gianoukas: A Agnes está em nosso grupo desde 2006 e é autora desse texto. Ela cursou um importante estúdio dramático nos EUA, onde se interessou pelo gênero, e, além disso, é historiadora formada pela Universidade de São Paulo. Só há alguns anos fiquei sabendo que existem elementos de "stand up comedy" em meu trabalho, e até mesmo que esse era um gênero norte-americano com um conceito.

Antes eu o identificava erradamente com os filmes de Jerry Lewis, ator com o qual um tio me comparava, mas do qual sempre tive horror. Achava aquilo completamente sem graça e chato. Só tomei contato com o "stand up" ao trabalhar com Marcelo Mansfield, um ator que conhece tudo de Hollywood.

No Brasil não existe "stand up" propriamente. Segundo Agnes, essa comédia é, por natureza, autodepreciativa. Conhece aqueles 12 passos dos Alcoólicos Anônimos, e também dos Neuróticos Anônimos? Os passos começam por “admito que perdi o controle da minha vida” e seguem com “por isso peço a Deus que me ajude e exponho meus defeitos para a comunidade”. E dá-lhe passos.

Isso tudo vem do protestantismo irlandês e pode ser resumido assim: não estou mais aguentando o mundo, então vou a Deus, vou ao sacerdote e peço ajuda à comunidade. Quando a pessoa faz isso, ela se “põe na roda”, assume suas falhas. A base dessa autocrítica deve estar na migração irlandesa para Nova York. Então fui me aprofundando, querendo saber de onde isso surgiu etc., mas deixa eu te dizer uma coisa: antes que riam de mim, eu não preciso... Eu rio de mim antes que qualquer um o faça, sempre fui assim.


O que você faz não é declaração confessional, mas escrita teatral, como uma comédia de esquetes?

Grace: É comédia de esquetes e, claro, eu penso muito antes de escrever, aliás não sobre a minha vida pessoal, mas sobre coisas que me incomodam na sociedade, fatos que me irritam profundamente e que acho de uma incoerência muito... engraçada. Aquilo fica martelando na minha cabeça, até que acabo criando um personagem para dar voz ao que penso.


Como faz um dramaturgo.

Grace: Sim, mas quem me dera poder escrever diálogos para cinco ou dez pessoas interagindo: um romance, meu Deus! Que arte é escrever um romance! Eu comparo com fazer renda de bico, todo aquele trabalho quase impossível.


Então você deixa de lado a “renda de bico” e se atém, geralmente, ao monólogo...

Grace: Monólogos e diálogos. O Eliandro Ramos, ator de Porto Alegre hoje com a gente, tem escrito coisas muito legais comigo, a quatro mãos (a atriz é gaúcha, da cidade de Rio Grande). Mas, enfim, acho que aquilo que escrevo também é bastante autocrítico, o que me aproximaria da "stand up" original. Porém, o que se diz por aqui ser "stand up" é, na verdade, uma crítica muito comportamental, trata-se na verdade de bullying (violência física ou psicológica, intencional e repetida), aquele texto que fica apontando o dedo para a loura burra, para o veado..., é o que a maioria das pessoas está fazendo hoje no palco sob o nome "stand up".


É algo derivado da TV...

Grace: Sim, isso sempre aparece no “Zorra Total” e programas do tipo.


Programas que até você chegou a fazer, durante uma temporada.

Grace: Eu fiz a “Escolinha do Professor Raimundo” e vou te contar uma coisa... Quando cheguei a São Paulo eu já era atriz, mas fui trabalhar de garçonete. Trabalhava no Speak Easy, na rua da Consolação, um pub inglês onde os caras tinham uma arara e uma cobra, um bando de doidos.

Depois fui trabalhar no Ritz e no Singapura, este na alameda Tietê. O Singapura também era um bar bem maluco, e quando eu ficava de saco cheio ia trabalhar caracterizada. De repente largava a bandeja e fazia uma ceninha, para depois continuar servindo. Comecei assim em São Paulo, com saudades do palco.


Vestida, na noite, com seu personagem, como faziam os atores Miguel Magno e Ricardo Almeida para divulgar “Quem tem Medo de Itália Fausta” (c. 1977). Eles circulavam assim pelos restaurantes do Bexiga, nos quais se concentravam classe e público teatral...

Grace: “Itália Fausta” foi uma das primeiras coisas que vi quando cheguei à cidade. Foi Caio Fernando Abreu quem me levou e lembro que estava no Assobradado do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia, hoje ameaçado de demolição). Foi muito forte para mim.


Você acha que aprendeu algo na sua formação universitária em teatro?

Grace: Fiz faculdade de teatro em Porto Alegre, na UFRGS. Eu tinha, por exemplo, uma professora de Improvisação que era um inferno na minha vida, Maria Helena Lopes, que dirigia o bem conhecido grupo Tear. Eu não entendia nada daquela aula e, conforme ela, não fazia nada certo. Era uma improvisação pela via negativa, porque em vez de me apontar a luz, ela só me dizia “não”; era desesperador. Na minha vida eu quero luz, porque de “não” estou de saco cheio.

Por isso eu sempre fui muito rebelde. Nas aulas, me sentia aprisionada em modelos, sistemas. Mas fui assistir a um projeto que acontecia às seis e meia da tarde, que era o Unicena, com um pessoal formado a partir de um curso com o grupo carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone. Então eu disse: “Nossa!, é daí para a frente!”.

Depois passei um tempo na Inglaterra, mas sempre lembrei daquilo, dos textos meio non sense, absurdos, das cenas com várias quebras e que de repente se colam umas às outras, as coisas contadas de maneira atravessada... Fiquei encantada. Um dia esse grupo rachou e um dos núcleos me chamou para uma participação de dois dias. Depois a gente montou “O Acre Vai à Rússia”, série de textos surrealistas com figurinos malucos, e ganhamos todos os prêmios daquele ano em Porto Alegre. Então vim pra São Paulo, onde conheci o Caio Fernando Abreu.


Na noite paulistana?

Grace: Sim, ele tinha me visto em “O Acre...” e certa noite, num bar, me mandou um bilhetinho dizendo ter adorado meu trabalho, mas que teve vergonha de ir ao camarim etc. Eu fui até ele e ficamos superamigos, tanto que quando ele veio para São Paulo me incentivou a vir também e morar com ele. “Morangos Mofados”, a peça baseada no livro dele, estava estreando, e ele chamou: “Vem para a estreia!”. Depois me levou para ver tudo o que havia de bom: “Itália Fausta”, o grupo Ponkam... Me apontou a Maria Alice Vergueiro e disse: “Persiga essa mulher!”. Eu me encantei com São Paulo, fiquei louca!


Estávamos falando de como você chegou à “Escolinha do Professor Raimundo”.

Grace: Eu sempre criei as minhas coisas e escrevi. Inventava, por exemplo, essas cenas em bar. Alguns anos depois eu estava casada. Meu marido chegava do trabalho e se atirava à frente da TV, fumando um baseado, comendo um salaminho e vendo a “Escolinha”, que passava às cinco da tarde. Um dia eu disse para ele: “Não sei como tu consegues ver isso; eu odeio tanto esse programa que um dia vão me chamar e não vou poder dizer não”. Passaram-se dois anos e eu estava fazendo meu espetáculo, “Não Quero Droga Nenhuma”, uma comédia sobre drogas...


Esse foi seu primeiro espetáculo assinado?

Grace: Tem um anterior: “O Pequeno Grande Pônei”, estreado no antigo Espaço Off, do Celso Curi, no Itaim. Mas antes disso eu fiz um bocado de performances no clube Madame Satã (histórico reduto underground de São Paulo), além de um papel em “Dias Felizes”, de Beckett.

E principalmente aquele monte de coisinhas em bares, e assim acabei formando um grupo com a atriz Ângela Dip. As pessoas de outros bares vinham nos ver e convidavam para um showzinho aqui, outro ali. Essa é minha formação de verdade: em bar você tem que ser rápido e rasteiro, objetivo, impactante. Tens de entrar e pá!, porque na verdade ninguém foi lá para te ver, mas para beber e conversar. Então fazíamos coisas como entrar vestida de noiva bar adentro.


É preciso surpreender o público?

Grace: Tem de ser surpreendente, porque se está concorrendo com todas as gostosas, com todas as drogas, com todos os garçons. Lembro que eu fazia uma Janis Joplin que milagrosamente ressuscitava, coisas assim. Voltamos outra vez no tempo, mas vamos à minha participação na TV Globo...


Resumindo, antes de “Não Quero Droga Nenhuma”, seu primeiro sucesso, com críticas em jornal e turnês, você fez todo esse circuito paulista alternativo.

 
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