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ensaio
ESPÍRITOS

O cruzeiro fantasma
Por Marcelo Rezende


Patricia Arquette como Alisson DuBois na série "Medium"
Divulgação

No presente dominado pela nostalgia, os mortos caminham entre os vivos, fazendo do novo século uma jornada pelo passado

Na relação dos fantasmas e espíritos com o mundo, uma ação é o que define a natureza do espectro: o retorno. No campo do sobrenatural, e na crença de um universo imaterial regido pelo mistério, o contato dos vivos com aqueles já mortos acontece, de início, por uma situação desejada pelo fantasma. Este força sua entrada em um campo que não mais lhe pertence. Mesmo quando chamado, é sua decisão.

O lugar de onde retorna é a questão desafiando os vivos que acreditam serem esses fenômenos do espírito uma oposição às regras da natureza, nas quais não existe uma explicação ou qualquer código sobre o modo como aqueles que “são” podem ou devem se relacionar com os que “foram”, mesmo se os dois grupos estiverem presentes em tempo e espaço comuns. Os fantasmas deixam seus traços nas lembranças dos que vivem, enquanto se desviam da lógica, do concreto e do previsível, a fim de poderem retornar, refazer, recuperar. O cadáver é apenas o sinal mais visível de um projeto abandonado pela vida, mas não pela alma.

Nesse imperativo do retorno, as descobertas e tecnologias geradas no século passado se mostraram, do ponto de vista dos vivos, uma via inédita, a porta aberta aos mortos para que estes pudessem dar conta de sua missão, fazendo uma reentrada. Isso é visível em uma possível história paralela da “era elétrica”. As invenções visando novas formas de comunicação, geradas no período em que a eletricidade prometia não ser apenas mais um conforto, mas um instante de revelação, procuraram também pela existência de algo antes naturalmente imerso na penumbra.

De seu nascimento em 1847, até a morte em 1931, o norte-americano Thomas Edison (o grande “feiticeiro” da era elétrica) deixou registradas 1.093 patentes, incluindo o fonógrafo, uma câmera para a captação de imagens em movimento e a cadeira elétrica. Esta foi usada pela primeira vez em 6 de agosto de 1890 com William Kemmeler, condenado por ter matado a amante a machadadas. Ele tinha 30 anos quando recebeu 1.000 volts, sentado na cadeira de Edison. Depois, mais 2.000 volts para encerrar a execução. Edison desenvolveu a cadeira elétrica visando um golpe de marketing. Contra o sistema de corrente alternada vendido por George Westinghouse, ele mostrou de que forma o produto de Westinghouse poderia ser perigoso se chegasse aos lares. A corrente alternada poderia matar, e ele construiu uma cadeira para vender sua ideia.

Mas essa não foi a única experiência de Edison com eletricidade e morte. Ele tentava também construir uma caixa de comunicação, uma versão do rádio, para falar com aqueles “que haviam deixado a vida presente”, em suas palavras. A cadeira elétrica poderia enviar ao além, e Edison queria escutar o outro lado. Nos anos 1920, realiza ao lado da médium Bert Reese, uma série de experiências com telepatia.

Seu objetivo (da mesma forma que o de Alexander Graham Bell, que teria inventado o telefone com a esperança de falar com seu irmão morto) era fazer um uso muito particular da ciência. Esse é o período definido pelo crítico Christophe Kihm como o da passagem do mundo dos vivos para o dos espíritos. Isto é, até o predomínio da tecnologia mecânica –que pede a ação do corpo e do movimento– a relação era com o concreto, com a matéria . No período elétrico o predomínio passa a ser o do espírito, o do que não pode ser visto ou tocado, envolto em uma embalagem científica, a conhecida capa positivista. A eletricidade se mostra o espaço intermediário entre os vivos e os mortos.


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A série “Médium” chegou as TVs norte-americanas via NBC em 3 de janeiro de 2005. Criada e produzida por Glenn Gordon Caron (um histórico nome da indústria de séries televisivas do país), sua proposta era –e ainda é— mostrar o cotidiano de uma médium, Allison Dubois, que trabalha junto à promotoria de uma cidade do Arizona. Sua tarefa é ajudar na investigação de casos criminais, algo facilitado por seu raro talento: sonhar com espíritos ou ser visitada por eles, que retornam para exigir alguma forma de reparo. Quando foi lançada, “Médium” fazia um dos contrapontos ao império da ciência das séries da década anterior, representadas por enredos em torno de médicos ou especialistas forenses explicando ao espectador os poderes da genética para a identificação do culpado.

Mas um dos fatos mais atraentes do projeto é a existência de uma real Allison Dubois, que teve a rotina adaptada para a TV. Dubois é uma médium profissional. Em fevereiro passará por Houston, Austin e San Antonio. No mês seguinte será a vez de Los Angeles, New Orleans e Nashville, para em abril parar em noites de conversa em Denver, Salt Lake City e Portland.

A agenda está tomada até 11 de dezembro, o final de uma turnê pela Austrália. Nesses encontros, Allison fala de sua relação com os mortos, que retornam para ela desde os seus seis anos. Sua mãe era assim, e da mesma forma a avó. Um traço familiar. Como um olho azul. Isso é contado na televisão por meio de episódios semanais, nos quais a atriz Patricia Arquette encarna Allison, seu rosto e seus gestos. Allison tem três filhas e é casada com um engenheiro espacial. A série se esforça nesse realismo, e algumas das histórias filmadas se baseiam diretamente em episódios vividos pela verdadeira Allison.

Para o produtor Glenn Gordon Caron trata-se de mostrar, por meio da aventura, de que maneira vive uma mulher que acredita falar cotidianamente com os mortos. Se isso é real ou não, pouco importa. A questão, para ele, é saber o que ela e o marido poderiam conversar antes de dormir, um cientista diante de eventos que recusam a razão, relatados cotidianamente por sua esposa.

No retorno feito pelos mortos de Allison Dubois –na TV– não existe traço de religiosidade. Na verdade existem momentos de ostensiva ausência desta. Regularmente ela luta para que culpados sejam condenados à pena de morte. Não há qualquer problema para a personagem quanto a isso, e voz da razão do marido não se pronuncia quanto ao tema.

O que os retornantes de Allison mostram é uma clara duplicação do mundo dos vivos. Os fantasmas são guiados pelos mesmos tipos de paixão daqueles que não deixaram ainda este mundo: ódio, vingança, amor e justiça. E com a mesma dubiedade moral. Um dos personagens recorrentes é um falecido agente do FBI, que dá dicas para a médium sobre assassinos em série, mas que engana Allison a fim de concretizar um plano pessoal. Como convencer outros médiuns a assassinarem pessoas que, no futuro, cometeriam crimes. A intenção do fantasma é resolver tudo rapidamente, e com um revólver.

Assim, nesse mundo fantasma em duplicata, a diferença em relação aos vivos vai se apagando. O fantasma fala, deseja e se comporta a partir de determinadas reflexões e sentimentos no qual o “misterioso” de sua condição nunca está presente, porque nada é comentado. Os mortos e vivos parecem habitar um mesmo plano, não há diferença visível. Se, como afirma o filósofo Pierre Zaoui, “a percepção concreta do cadáver abre também uma zona de abstração intensa, como se o fantasma do corpo exigisse uma última coisa antes de desaparecer: compreender o que aconteceu”, em “Médium” esse momento de abstração nunca se realiza.

Na realidade daqueles fantasmas, o mistério da morte não existe, o que há é apenas a continuação, por uma outra via, do cotidiano dos vivos. A busca de um sobrenatural na era elétrica se traduz na TV na procura de perfeição e realismo proporcionado pela era digital, que não imagina um fantasma como o espectro na escuridão, mas, de outro modo, apenas a reprodução do que é visto e entendido no plano real.

O sobrenatural é apenas o espelho da realidade, e não a sua total e misteriosa transformação. Em 2001, o diretor japonês Kyoshi Kurosawa explorava em seu filme “Kairo” uma situação semelhante. Seus fantasmas retornavam aos vivos pela internet (realizando enfim o sonho de Thomas Edison e Graham Bell), mas não eram apenas visitas. Eles vieram para ficar, e em uma Tóquio habitada apenas por fantasmas, os vivos que ainda resistem ao chamado do suicídio já não conseguem saber quem é ou não um retornante. Vivos e mortos podem se encontrar porque estão em um mesmo lugar. Já quase nada os separa.


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Durante a década que precedeu a passagem para o novo milênio, e neste primeiro decênio de novo século, a morte, mais do que o renascimento, tem ocupado o imaginário. Seguindo o estado emocional das gerações que enfrentaram a dramática passagem na contagem do tempo (novo século ou novo milênio), o discurso do fim, da corrosão, prevalece sobre uma possível esperança gerada diante de uma nova era.

Há a morte da espécie, consequência da morte do planeta. Morte do Ocidente, morte da política, morte da arte, morte do cinema, morte dos projetos revolucionários, morte dos jornais, morte da alta cultura. Nos discursos sobre os avanços tecnológicos ou na fala dos neodarwinistas do século 21, há a morte de Deus, julgado como loucura diante da infalibilidade da genética. Mas o que as mortes geram, anunciadas ou não, é uma sucessão de fantasmas. E, como se sabe, os fantasmas assombram as certezas dos vivos.

Em setembro de 1977, durante o 2o Festival Internacional de Ficção Científica na cidade de Metz, França, o escritor norte-americano Philip K. Dick (autor de “Blade Runner”, o grande gênio da ficção paranoica, com enredos mostrando ao leitor que a realidade não é fechada e concreta, mas composta de várias camadas) faz um estranho, confuso e (passadas mais de três décadas) ainda traumático discurso.

Dick passou parte de seus últimos anos acreditando estar vivendo uma vida dupla. Em uma, ele era o autor de romances populares. Na outra, vivia no ano 2 da era cristã. Na verdade, essas duas vidas se confundiam em sua mente. Uma de suas hipóteses era a de que o Império Romano não tinha de fato acabado, e continuava a combater e aniquilar cristãos –a grande luta dos tempos. Assim, o ano de 1977 seria apenas uma ilusão criada pelos romanos para nos fazerem crer que o tempo passou.

Esquizofrenia e paranoia nascidas do consumo quase diário de anfetaminas e LSD -isso explicaria o comportamento pouco normal. Mas em Metz, durante a conferência, ele apresentou não um apanhado sobre o romance ou as relações entre literatura e ciência. O que tinha para contar era uma revelação, uma depuração de seus pensamentos, a conclusão do que significava viver em realidades que se confundiam.

Philip K. Dick pareceu finalmente ter entendido. “Estou certo de que vocês não acreditam em mim, e não acreditam nem mesmo que eu mesmo acredito. No entanto, é verdade. Vocês estão livres para acreditarem em mim ou não, mas acreditem ao menos nisso: não é uma brincadeira, é muito sério e importante. Vocês devem entender que mesmo para mim é algo perturbador declarar tal coisa. Existem as pessoas que dizem se lembrar de vidas anteriores; eu me recordo de outra vida presente”. A verdade que Philip K. Dick pretendia revelar ao público de fãs, críticos, autores e ensaístas era essa: “Eu estou vivo, e todos vocês estão mortos”, uma frase tirada de um de seus livros, que ele passava a acreditar ser resultado de visões místicas.

Dick já vivia com os retornantes. E viver com eles significa participar de seus desejos e ambições, ser assombrado por eles. Ser assombrado pelo que já aconteceu, pelo que já passou. Nessa atmosfera, cada ação no presente passa a ser apenas uma conversação incansável com o passado, com o reino dos desaparecidos e seus projetos, que continuam de algum modo ativos. Como no Brasil, em que a política é determinada pelo fantasma do populismo, do golpe de Estado, do udenismo, do moralismo que se torna base de sustentação nos discursos de reacionários de esquerda ou de direita. Nessa condição, o passado não é apenas uma lição aprendida ou negada. Ele é tão vivo quanto o presente, ocupa, como os fantasmas de Kyoshi Kurosawa e os que visitam Allison Dubois, um mesmo plano.

A assombração do passado domestica o presente, aponta para um futuro de repetição sem fim, porque os fantasmas retornam para repetir o que antes conheceram como vida.

1 - Christophe Kihm, “Médiums = Médias”. “Fresh Théorie II” (éditions Léo Scheer, Paris, 2006).


2 - Pierre Zaoui, “Vivre Sans, Vivre Avec: Aprés la Mort”. Magazine Vacarme 36 (Association Vacarme, Paris, 2006).

 
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