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novo mundo
IMAGENS

O vídeo depois do Tubo
Por Giselle Beiguelman


Imagem de "Wall Piece" (2000), vídeo de um canal/instalação sonora, de Gary Hill
Cortesia do artista e Donald Young Gallery (Chicago)

O videoartista Gary Hill, que expõe em SP, conta que está empolgado com as novas tecnologias, mas tem medo delas


Gary Hill, 58, é um dos principais nomes da arte contemporânea. Sua obra é referência para a história da artemídia. Californiano, ele desenvolve projetos com vídeo desde os anos 1970.

Nesse quase meio século de produção, transitou por diversos formatos de vídeo e diferentes formas de apresentação da videoarte, alguns dos quais inacessíveis pelo desaparecimento de alguns dispositivos como a “TV de tubo”.

Recentemente, Hill disponibilizou boa parte de sua obra na internet. Promete disponibilizar mais coisas em breve. Apesar de apostar no potencial de acessibilidade que sites como Vimeo e YouTube promovem, acredita que a democratização da criação também pode implicar em nivelamento por baixo.

Em entrevista a Trópico, Hill comenta sua relação com as redes sociais de audiovisual como YouTube e Vimeo, o desaparecimento de determinadas tecnologias e seu impacto sobre a preservação de obras de artemídia e a popularização das câmeras de vídeo. Ele conta que está empolgado com as novas tecnologias e a difusão maciça de câmeras, mas diz: "Ao mesmo tempo morro de medo delas. Existem câmeras e videocâmeras por toda parte. Quando vou a algum lugar hoje em dia, raramente levo uma câmera. É um jeito de não ter alguma coisa entre o mundo e eu. Talvez seja uma forma de preservar um espaço para memórias e experiências que não estão presas ao plano da imagem –nem retocadas ou recortadas", diz.

A seguir, Hill fala também da obra “Unconditional Surrender”, inédita, que apresenta na exposição "Circunstâncias/ Circumstances", em cartaz no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo.

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Recentemente, você disponibilizou uma série de obras suas no Vimeo. O que levou você a colocar seu trabalho na internet?

Gary Hill: Um livro recém-lançado sobre meu trabalho, de George Quasha e Charles Stein (que são amigos e colaboradores de longa data), chamado “An Art of Limina: Gary Hill’s Works and Writings”, inclui textos sobre uma série de trabalhos mais antigos em “single-channel” e queríamos ter um recurso ou arquivo on line para esses trabalhos, para que leitores (e outras pessoas) tivessem melhor acesso a eles. Estou atualmente no processo de atualizar meu site, e esses vídeos –assim como a documentação em vídeo de algumas das instalações– estarão no futuro disponível no meu site.


A popularização de canais de vídeo na internet tem despertado grandes discussões acerca do futuro do audiovisual, da televisão e da videoarte. Para você, plataformas como o YouTube e o Vimeo apontam para a renovação das linguagens audiovisuais no campo da arte? Por quê?

Hill: Esses novos canais evidentemente permitem que um público muito maior tenha acesso ao meu trabalho, mas talvez o mais importante seja que eles propagam idéias para uma vasta quantidade de pessoas ao redor do mundo, e isso é, no mínimo, inspirador.


No seu canal no Vimeo há obras de várias épocas, algumas das quais produzidas em U-matic, um formato de vídeo que já se tornou obsoleto. Como você lida com essa volatilidade dos meios?

Hill: Consegui transferir a maior parte de meus trabalhos anteriores em vídeo “single-channel” para formatos mais atuais, mas claro que há alguns videoteipes em rolo de meia polegada que são bem difíceis de transferir e, provavelmente, perdi um ou dois deles.

Quer seja um vídeo “single-channel” ou uma instalação em grande escala, temos que lidar com essas questões se for para o trabalho durar. Só consigo gastar um determinado tempo fazendo isso, já que, claro, prefiro realizar novos trabalhos. O melhor que posso fazer é definir parâmetros sobre como um trabalho e suas ideias podem ser “atualizados” com a nova mídia. Até mesmo os zeros e números uns têm que ser clonados de tempos em tempos para garantir sua existência.


Existe alguma obra sua que se perdeu (ou que está ameaçada) em função do desaparecimento dos equipamentos adequados para rodá-los e projetá-los?

Hill: A maioria das perguntas que recebo relacionadas à conservação envolve trabalhos que incorporaram tubos de raios catódicos (CRT, Cathodic Ray Tubes), especialmente agora que foram removidos dos televisores e, é claro, estão ficando cada vez mais difíceis de encontrar.

Uma série de trabalhos meus, como “Inasmuch As It Is Always Already Taking Place”, de 1990, utilizam os CRTs como objetos e com atributos e metáforas muito específicas. Ainda não fui capaz de imaginar a peça sem o fenômeno dos CRTs (vácuos, tubos, o brilho da luz, o formato tipo contêiner deles).


A obra “Unconditional Surrender” tem uma versão especialmente concebida para o MIS. A instalação provoca um confronto entre mundo físico e virtual, combinando recursos de alta tecnologia –computação gráfica e modelagem 3D– com luz estroboscópica, que põe o visitante na posição de ser potencialmente vítima da batida da estrutura metálica de um pneu. De certa forma, é um exercício de Realidade Aumentada, um dos temas de ponta atuais. Você é influenciado por essas novidades em seu trabalho ou as relações, como essas feitas aqui, são apenas coincidências?

Hill: “Unconditional Surrender” só foi exibida uma única vez em Paris, no "In Situ/Fabienne Leclerc" (em 2008). Essa versão mais antiga era mais um objeto escultural, contido em si, mas estou interessado em ver como o espaço arquitetônico existente do MIS permitirá uma instalação ligeiramente diferente com uma escala mais significativa.

No que diz respeito à obra, não é realmente a respeito dos temas atuais que você menciona –até mesmo a tecnologia e a computação gráfica usadas são extremamente mínimas. Construí a “roda de aço” do modo mais genérico possível –é mais próxima de uma metáfora textual. Suponho que haja alguma coisa sobre o momento em que o virtual encontra o físico, mas não é uma declaração sobre realidade virtual.

Quando pensamos em civilização, progresso, morte e inevitabilidade, eles também são meio virtuais. Desta forma, a roda é mais uma idéia que um objeto virtual por si. Eu também observaria que o uso de luzes estrobo no trabalho é pelas explosões instantâneas de luz —nenhum efeito “estroboscópico” é utilizado.


Nunca se produziu tantas imagens como hoje em dia. A proliferação de câmeras portáteis e com possibilidade de conexão e publicação simultânea tem catalisado esse processo de produção. Você produz imagens com esse tipo de câmera? O que pensa desse processo de democratização de produção e publicação de imagens que Manuel Castells chamou de "self-mass communication"?

Gary Hill: A proliferação de ferramentas baratas, aliada ao acesso público em tempo real, possibilitou que mais pessoas se expressassem –isso é uma coisa boa. Existe o Facebook e o Twitter –talvez devesse haver “Mindbook” e “Dialogue”. Estou brincando um pouco, mas você entende o que quero dizer.

Meu relacionamento com a imagem no meu trabalho é, na melhor das hipóteses, ambivalente. Tento não deixar que estejam presentes por um período de tempo, através de uma série de estratégias. É uma questão de movimentá-las, interrompê-las e manipulá-las com a linguagem –agitá-las para que não possam descansar e se fixar. É realmente um trabalho em tempo integral de “desconstruir” a fera.

Na vida, a imagem continua a se insinuar em tudo –mudando seu corte de cabelo e aumentando sua velocidade em índices que ultrapassam o crescimento exponencial. É sua própria bomba-relógio.

Penso nesses novos materiais que estão sendo desenvolvidos para livros e roupas que incorporam imagens em movimento. Estou empolgado com essas novas tecnologias, mas ao mesmo tempo morro de medo delas. De repente existem câmeras e videocâmeras por toda parte. Todo mundo está trocando, capturando, gravando e arquivando imagens. Mas, quando vou a algum lugar hoje em dia, raramente levo uma câmera. É um jeito de não ter alguma coisa entre o mundo e eu. Talvez seja uma forma de preservar um espaço para memórias e experiências que não estão presas ao plano da imagem –nem retocadas ou recortadas.

Existe algo quase sagrado sobre a imaginação que desperta em mim de vez em quando. Eu preferiria muito mais sentir a interconectividade dos sentidos e considerar pensamentos que folhear uma pilha de imagens em papel brilhante ou mudar de canal a cada nanossegundo. A democracia pode criar o mais baixo denominador comum e isso não é, automaticamente, uma boa coisa. A arte não é democrática –é uma luta individual com questões irrespondíveis, mas claro que, de vez em quando, dois indivíduos se juntam, colaboram e a mágica acontece.


link-se

Canal de Gary Hill no Vimeo
Site de Gary Hill
Circumstances/ Cirscunstâncias - MIS – SP


A exposição:

"Gary Hill - Circumstances/ Cirscunstâncias". De 19/01 a 21/03, no MIS - Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo. Entrada: R$ 4 (meia: R$ 2). Maiores de 65 anos grátis. Grátis aos domingos.


Tradução de Lucia Speed


Publicado em 23/1/2010

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Giselle Beiguelman
É curadora do Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia e professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Editora da seção "Novo Mundo", de Trópico. cria e desenvolve projetos experimentais para redes fixas e móveis. Site: www.desvirtual.com

 



 
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