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DOCUMENTÁRIO

A TV massificante está em extinção, diz Nelson Hoineff
Por Carlos Adriano

Diretor de "Caro Francis", o jornalista diz que já não é preciso assistir novela das oito para se sentir parte da sociedade

Produtor e diretor de televisão, jornalista e crítico de cinema, teórico e agitador da comunicação, Nelson Hoineff transita por vários canais do audiovisual nacional, sintonizando o signo da televisão entre as antenas da expansão e da desmassificação.

Seja da produtora Comunicação Alternativa ou do Instituto de Estudos de Televisão, realizando programas e documentários ou encontros e seminários, este afável e afiado carioca nascido em 1948 tem militado na crítica do (não tão) remoto controle das corporações midiáticas e do acomodamento fácil do espectador na poltrona doméstica.

Dois documentários lançados simultaneamente no último Festival do Rio, em setembro, formam um díptico curioso sobre aspectos da indústria da comunicação no Brasil, a partir de duas fortes personalidades (em que pese e se salve o clichê do jargão) “midiáticas”, o apresentador de televisão Chacrinha e o jornalista Paulo Francis.

Embora haja uma tentação de “double bill” (o antigo programa duplo dos cinemas) que conduz a tratar estes filmes absolutamente díspares como um par complementar, apenas um deles está ainda em cartaz em São Paulo: “Caro Francis”. O outro, “Alô, Alô, Terezinha!”, sobre Chacrinha, foi exibido no ano passado

No meio considerado maciço por excelência, a TV, ele cravou marcas e marcos de renovações e descobertas, dirigindo o departamento de programas jornalísticos da Rede Manchete e dirigindo programas jornalísticos no SBT, na Bandeirantes, no GNT, na TV Cultura e na TVE Rio, além de produzir séries para o Discovery Channel.

“Documento Especial”, “Primeiro Plano”, “Realidade” e “Curto-Circuito” são alguns dos programas do diretor, que também assinou séries de televisão ou documentários independentes, como “O Século de Barbosa Lima Sobrinho”, “TV Ano Zero” e “O Homem Pode Voar: Alberto Santos-Dumont”. Em 2010 deve terminar seu novo documentário, sobre Cauby Peixoto.

Com estudos acadêmicos e pesquisas de ponta em Nova York e Tóquio, Hoineff fez especialização em HDTV e novas tecnologias de distribuição para a televisão. Na "Mostra do Redescobrimento Brasil+500", dirigiu o primeiro filme nacional realizado no sistema de alta definição, encravado no módulo Cine Caverna por ele projetado: “...antes. Uma Viagem Pela Pré-História do Brasil”.

Se passamos do meio à mensagem, passemos do digital ao papel. No chamado jornalismo impresso, Hoineff atuou como editor do “Jornal do Brasil” e colaborador dos jornais “Última Hora”, “Folha de S. Paulo” e “O Globo” e das revistas “Manchete”, “Veja” e “Variety”.

Entre seus livros publicados constam “TV em Expansão: Novas Tecnologias, Segmentação, Abrangência e Acesso na Televisão Moderna” (ed. Record) e “A Nova Televisão: Desmassificação e o Impasse das Grandes Redes” (ed. Relume-Dumará).

Na entrevista abaixo, Hoineff fala da motivação e da linguagem dos documentários, aponta “a veia transgressora” que une os dois personagens, comenta que “a relação do intelectual com o establishment se tornou mais promíscua porque ocorreu também um imprevisível processo de “caretização” e –como possível arma contra a massificação dos meios– opina: “A proliferação dos blogs é o que de mais importante aconteceu em muitos anos para a democratização do pensamento”.

Hoineff fala também da televisão pública no Brasil. “Ou uma televisão pública serve à sociedade ou a está traindo. E para que uma televisão pública esteja do lado da sociedade, ela tem que estar exercitando permanentemente a possibilidade de ampliar seus limites. Tem que ousar, subverter, enfrentar”, diz ele.

Na sociedade do espetáculo atual, hipermidiatizada, a informação virou show na mesma desmedida de uma saturação de canais, mas com brechas de improvável respiro. “Já não é preciso assistir novela das oito para se sentir parte da sociedade”, sentencia Hoineff. "A televisão massificante está em extinção", completa, anunciando “a grande notícia do nosso tempo”: “O mercado já não domestica o consumidor”.

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Os filmes "Caro Francis" e "Alô, Alô, Terezinha!" foram produzidos, ou ficaram prontos, simultaneamente? Como você os distingue, em termos de linguagem?

Nelson Hoineff: Pelo cronograma, “Alô, Alô, Terezinha!” deveria ter ficado pronto antes e “Caro Francis” depois. Mas o primeiro atrasou um pouco e o outro adiantou. Por coincidência, portanto, ficaram prontos praticamente ao mesmo tempo.

Houve um momento em que estávamos filmando um e outro e houve também um momento em que os editávamos simultaneamente. Há um vértice entre os dois, que só percebi quando já estava filmando: a transgressão. Chacrinha e Francis eram igualmente transgressores, cada um, evidentemente, à sua maneira.

A linguagem dos dois filmes, contudo, é diferente. Em “Alô, Alô”, procurei seguir uma forma narrativa que eu havia desenvolvido 20 anos antes para o “Documento Especial”. Irreverente, politicamente incorreto, apostando na grandeza dos personagens, tratando-os horizontalmente. Filmei “Alô, Alô” como se estivesse gravando o “Documento”.

Já “Caro Francis” é diferente. Queria fazer um filme sobre Francis, que foi um grande amigo (Chacrinha eu conheci apenas por alguns segundos num hall de elevadores) e que não fosse uma peça com qualquer veleidade de isenção jornalística. Não. A idéia era fazer um filme descaradamente a favor do Francis e decidi, de cara, denunciar isso no título.

Parti de cinco ou seis nós que eu sabia importantes na vida do Francis (a migração do trotskismo para o conservadorismo, a saída da "Folha de S. Paulo", a decepção por não ter se tornado um romancista tão importante quanto o jornalista que foi, a ação da Petrobras etc.) e fui desfazendo esses nós através da visão privilegiada de pessoas que conheceram o Francis muito bem, a maioria, é claro, amigas dele.


Qual a maior dificuldade para abordar esses personagens, tanto pelo tom, mas também em termos materiais mesmo (de material filmado existente)?

Hoineff: Acho que sempre quis fazer um filme sobre Chacrinha. Na minha juventude, quase adolescência, eu via Chacrinha na TV e curtia demais. Isso não era muito aceitável então.

Um garoto de 17 anos, com pretensões intelectuais, gostar do Chacrinha, era inaceitável. Depois da Tropicália tudo mudou, mas antes era diferente. Bem mais tarde, já fazendo televisão, percebi que havia nos meus programas uma veia transgressora que talvez estivesse guardada ali desde que eu comecei a ver Chacrinha.

Há uns 30 anos, no festival de Gramado, o irmão do Chacrinha, Jarbas Barbosa, me disse que eu era o único jornalista jovem que gostava do Chacrinha. Eu respondi ao Jarbas: "Um dia vou fazer um documentário sobre ele." Acabei fazendo.

Já Francis, como disse antes, era um dos meus melhores amigos. Alguns anos depois de sua morte, Sonia Nolasco e eu estávamos conversando sobre o Francis. Ela me sugeriu: "Por que você não faz um filme sobre ele?".

Nos dois casos, o pessoal da produção teve um árduo trabalho no recolhimento do material, mas em ambos todas as fontes foram impecavelmente colaborativas, sobretudo as famílias e as emissoras por onde eles passaram.


Como foi, em termos de produção e concepção, trabalhar essencialmente com material televisivo?

Hoineff: O que sei fazer é justamente televisão. Eu me sinto muito à vontade com o material televisivo -e acho que, nos dois casos, o tratamento é muito influenciado pelo que tenho feito na TV. Isso foi muito consciente, meio que uma aposta.


Além do trabalho pela memória nacional, como você avalia estes dois filmes em termos de relação com o público (pelo apelo popular e midiático de seus personagens)?

Hoineff: A distribuidora Imovision transformou “Alô, Alô” num grande filme, algo que nunca imaginei. Deu a ele um tratamento que eu nunca tinha visto qualquer distribuidora dar a algum documentário. Aprendi muito com isso e sou muito grato a ela.

“Francis”, para todos nós, é um enigma. Tem um forte apelo para as camadas mais intelectualizadas, mas suspeito que também desperte o interesse de segmentos mais populares.


Você vê algum elo entre as figuras de Chacrinha e de Paulo Francis? Há quem diga que o Francis, ao final da vida, virou um tipo de showman do jornal noturno da Globo.

Hoineff: A veia transgressora, a que já me referi, sem dúvida é o que há em comum aos dois. Chacrinha e Francis apostavam no politicamente incorreto e eram igualmente corajosos nessa aposta. O Francis criou um personagem único na televisão.

A gente discute isso no filme, várias pessoas falam sobre a composição desse personagem, entre eles o Sergio Augusto, o Helio Alvares (que era seu cinegrafista em Nova York), o Helio Costa (que dirigia a sucursal da Globo de Nova York). Foi um personagem brilhante, que Francis, em grande medida, incorporou na vida real.


Chacrinha representava na TV uma esfera popular de contaminação entre fronteiras (o fino e o grosso etc.). Assim como não há mais cinemas de rua, substituídos pelos cinemas de shopping centers, a TV espelharia uma cisão social? Haveria possibilidade de uma reconciliação entre cultura e povo em moldes mais críticos?

Hoineff: Muito dificilmente, a essa altura. Mas a gente tem que entender que a televisão aberta, massificante, generalista, está aos poucos cedendo lugar a formas mais diversificadas de comunicação. Já não é preciso assistir novela das oito para se sentir parte da sociedade.

As novas gerações já sabem disso, por isso o seu consumo cultural se pluralizou. Exercendo sua opção é que os jovens exercem a crítica, que antes não era possível. Acredito que a tecnologia esteja promovendo uma forte união social. A televisão massificante está claramente em extinção. A síndrome da Cauda Longa é irreversível.


Paulo Francis representava no jornalismo uma esfera opinativa, de crônica de comentário. Como você avalia esse espaço hoje, em meio a tantos blogs? O que pensa dessa aparente democratização de expressão e essa saturação de tantos canais de informação e tantas vozes?

Hoineff: A proliferação dos blogs é o que de mais importante aconteceu em muitos anos para a democratização do pensamento. Francis fazia na grande imprensa o que muitos blogueiros fazem hoje.

Como diferenciais, evidentemente, existiam a vastidão de sua cultura (mesmo em meio a tantas imprecisões), a força de seu estilo e justamente a coragem de ser tão opinativo em meios massivos. Isso no filme é discutido durante o episódio que resultou na sua saída da "Folha".


Chacrinha e Paulo Francis são “emblemas” da “mídia nacional”, para usar dois clichês que dominam tanto a TV como o jornalismo. Consciente ou inconscientemente, consequente ou inconsequentemente, representavam uma instância crítica, programada ou involuntária. Quais as funções críticas que a TV poderia e deveria cumprir e não está exercendo?

Hoineff: Educar a socidade para o plural. Fazê-la desconfiar do que ouve ou vê.


E quais as funções críticas que o jornalismo poderia e deveria cumprir e não está exercendo?

Hoineff: O jornalismo brasileiro tem se tornado mais crítico, ressalvada a leviandade que ainda embala muitos veículos. Parece contraditório e acho no mínimo emblemático das mudanças que estão ocorrendo.


TV e jornalismo podem ser de utilidade pública, instrumentos de cidadania, educação e cultura, ou estão condenados ao entretenimento e à cooptação das corporações? Como você avalia a TV e o jornalismo cultural hoje no Brasil? Qual sua avaliação sobre as chamadas TVs educativas?

Hoineff: Há um longo caminho a ser percorrido pela televisão pública no Brasil. O país seguiu o modelo inaugurado nos Estados Unidos em 1941, comercial e privado. A primeira emissora “educativa” só apareceu, em Recife, 18 anos depois da implantação da TV no país.

A televisão pública nunca ganhou organicidade. Ou é diretamente ligada às esferas governamentais, ou emperrada por regulamentações que a engessam. O recente desastre da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação) é uma pequena demonstração disso. Ou uma televisão pública serve à sociedade ou a está traindo. Não há meio termo.

E, para que uma televisão pública esteja do lado da sociedade, ela tem que estar exercitando permanentemente a possibilidade de ampliar seus limites. Tem que ousar, subverter, enfrentar. Nada disso é uma tradição do serviço público no Brasil, embora a televisão devesse estar liderando essa possibilidade. Porque o Brasil tem uma base impressionante de espectadores e uma das mais sólidas culturas televisivas do mundo.

 
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