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a.r.t.e.
FLOWER POWER

A matéria dos sonhos
Por Alex Miyoshi


À esq.., foto de Burk Uzzle feita durante o festival de Woodstock, em 1969; à dir., "O Beijo", de Klimt
Reprodução

Um quadro de Klimt, uma imagem histórica de Woodstock e o elogio ao amor e à liberdade no novo filme de Ang Lee

Riscados pela poeira, pelos fios acumulados em 40 anos, os primeiros fotogramas de “Aconteceu em Woodstock” simulam a passagem do tempo. O cartaz do filme, desbotado e marcado por dobras, é igualmente falso.

Seria possível dizer que os artifícios são dispensáveis: Woodstock parece tão afastado e o filme tão verdadeiro, que apenas isso evidenciaria os contrastes entre épocas de fato não muito distantes.

Tão difícil é recompor um passado recente, seja ele fantasioso ou rigorosamente calcado na realidade. O simulacro do desgaste dos anos, porém, tem grande valor: estratagema cinematográfico, ao invés de escamotear ou fingir um passado, agrega a contundência da veracidade documental não a ele, mas ao nosso tempo.

“Aconteceu em Woodstock” não é um ponto de inflexão na filmografia do cineasta, mas um aprofundamento de suas inquietações, levantadas em filmes anteriores. A obra de 2009 versa sobre o acerto de contas entre pais e filhos, assim como “Tempestade de Gelo”, de 1997, e “Hulk”, de 2003.

No primeiro, duas famílias norte-americanas vizinhas, no início dos anos 70, lidam com as pulsões liberadas naqueles anos. O saldo é colhido e compartilhado por pais e filhos. No segundo, pouco compreendido por crítica e público, as relações de Bruce Banner com o pai ganham ares épicos. Para além de um filme de super-herói, “Hulk” é uma metáfora das questões cientificistas e psicológicas do século XX, fundamentais também no início do XXI.

Não é bem por esse viés que “Aconteceu em Woodstock” tem sido sublinhado. Uma das perguntas mais colocadas a Ang Lee na imprensa relaciona o homossexualismo do filme com o de outro, “Brokeback Mountain”, de 2005. Mas o tema é periférico em “Aconteceu em Woodstock”. Sua questão central são os relacionamentos entre o protagonista, o jovem Elliot Tiber, e seus pais. Ou, se quisermos, trata também da responsabilidade recíproca entre a geração mais nova e a anterior.

A negociação entre o fazendeiro Max Yosgur e os organizadores do evento, nesse sentido, é exemplar. Limpar a bagunça após o final do show, não sendo o ponto crucial da negociação, não deixa de ser um dos mais importantes. Não é apenas um lidar com heranças ou com a carga que filhos e pais projetam-se mutuamente. Trata-se, antes, de compreender o outro, de não ignorá-lo e de somente assim viver a verdadeira liberdade.

A insistência da questão do homossexualismo como suposto motivo condutor de Ang Lee diz mais sobre o que está fora do filme. Enxergá-lo por essa ótica não só é limitado como esclarece o conservadorismo de nossos dias. A despeito das evidentes conquistas sociais nas últimas décadas, ainda imperam os limites estreitos dos rótulos e o desconforto ao menor sinal de afeto que escape dos chamados “padrões convencionais”. “Aconteceu em Woodstock” não é uma defesa do homossexualismo ou, em termos muito piores, da tolerância para com ele: trata do amor em sentido mais amplo, em todos os aspectos. Essa é a bandeira do filme.

Há uma célebre fotografia que virou emblema de Woodstock, estampando a capa do álbum de canções e o cartaz do filme oficiais do evento, ambos de 1970. O filme de Ang Lee não reproduz essa imagem. Mas a evoca e a reapresenta de algum modo transformada.

A fotografia é de Burk Uzzle, que se notabilizou pela série de imagens tomadas em Woodstock. Escolhida pelos organizadores do festival, ela apresenta um jovem casal abraçado -uma mulher e um homem enrolados num edredom florido sobre o gramado e cercados por outros jovens. Uma bandeira em forma de borboleta tonifica o que há de mágico nessa foto, guardando, não obstante, a real função do objeto: um adorno material, de plástico, como tantos outros espalhados na relva.

O conjunto lembra um quadro famoso: “O Beijo” (1908), de Gustav Klimt. Nessa tela pintada a óleo e ouro, vê-se também um casal, um homem e uma mulher, ele mais robusto, acolhendo-a nos braços. Ela entregue, mas também o sustentando, estruturada, embora ajoelhada no quadro.

Em ambas as imagens, o homem é mais alto. Seu rosto não é mostrado, ao contrário do dela. A proteção masculina é maior, mas a forma do útero que os envolve também é marcante. Na fotografia e no quadro, o cobertor colorido e a natureza se harmonizam com o casal: em Klimt, os vegetais sobem às vestes e cabelos; em Uzzle, o abraço se faz na natureza e os cachos do rapaz mimetizam as copas das árvores.

As representações unindo homem e mulher são recorrentes nas artes. Em um best seller literário dos séculos XVIII e XIX, “Paulo e Virgínia”, as gravuras mostram um menino e uma menina abrigando-se da chuva, num manto desenhado em formato de coração. Francesca da Rimini e Paolo Malatesta, personagens históricas da “Divina Comédia”, são retratados como fibras entrelaçadas, em eterna suspensão.

Nas formas musicais, algo semelhante ocorre com Tristão e Isolda, de Wagner, em conjunção ideal num único ser. Em todos esses exemplos, há sempre uma figura masculina e outra feminina. A representação do amor romântico, por excelência, não sendo apenas a de um casal, consolidou-se no imaginário como a de um casal heterossexual.

“Aconteceu em Woodstock” traz outras imagens. Elliot, o protagonista, conhece uma garota e um garoto, que o conduzem em viagem lisérgica no interior de uma van, transformada, pouco a pouco, em espaço de cores e beleza. Estacionado no topo de uma colina, o veículo converte-se em tenda do maravilhoso.

Após a viagem, saindo da van à noite, Elliot dirige-se à grande arquibancada natural do evento, um mar de pessoas, o palco como núcleo pulsante de luz. O mar transfigura-se num imenso lençol, cobrindo a todos indistintamente.

O filme tem momentos memoráveis, como o do policial que conduz Elliot numa moto, passando pela multidão heterogênea, indo em procissão ao concerto –sequência magistralmente captada pela câmera de Eric Gautier. Ou a chegada de um helicóptero, sua acolhida por uma trupe de ninfas e faunos e a impressionante encarnação de um anjo. Mas as cenas mais tocantes, talvez, sejam as que mostram as relações entre Elliot e os pais. Mais do que a mudança de comportamentos, os choques culturais e dificuldades para assimilá-los, “Aconteceu em Woodstock” é um filme sobre a liberdade, no seu sentido mais alto.

Para quem não viveu a passagem dos anos 60 aos 70, “Aconteceu em Woodstock” é uma espécie de sonho. O doce legado desse sonho, de apenas três dias, ampliou-se na obra de Ang Lee. Os sentimentos fraternos e a felicidade que pairam sobre o mítico acontecimento estão nela. Em nosso tempo opaco e sem cor, imerso em desestimulante conformismo, “Aconteceu em Woodstock” é uma lembrança de que a matéria dos sonhos, ainda que delicada, resiste sempre.


O filme:

“Aconteceu em Woodstock” (Taking Woodstock). Direção: Ang Lee. EUA, 2009. Com Demetri Martin, Imelda Staunton e Emile Hirsch. Duração: 120 minutos.


link-se

Fotografias de Burk Uzzle - http://www.burkuzzle.com/

Publicado em 20/12/2009

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Alex Miyoshi
É arquiteto e professor, doutorando em história da arte no IFCH-Unicamp, onde faz pesquisas sobre arte e arquitetura dos séculos XIX e XX. Edita a "Revista de História da Arte e Arqueologia" na mesma instituição.

 
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