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a.r.t.e.
MÚSICA

Um crítico no transatlântico
Por Humberto Pereira da Silva

Arthur Nestrovski fala de seu novo livro, “Outras Notas Musicais”, e conta seus planos como novo diretor artístico da Osesp

Do final dos anos 90 para cá, o cenário da música clássica em São Paulo tem passado por grandes transformações. O marco dessas mudanças foi a inauguração da Sala São Paulo, em 1999, na sequência da renovação da Osesp. Nos últimos dez anos, o que se tem visto é o estabelecimento de uma nova vida musical na cidade, com uma atividade regular de concertos, a presença de regentes e solistas nacionais e internacionais.

Crítico de música, Arthur Nestrovski acompanhou de perto o processo, frequentemente analisando concertos e apresentações nas páginas do jornal “Folha de S. Paulo”. Agora, ele reúne a suma crítica do último decênio no livro “Outras Notas Musicais” (Publifolha, 591 págs.), cujo título faz alusão a sua obra anterior, “Notas Musicais” (2000).

Editor da Publifolha desde 1999, articulista que transita entre os campos da música e da literatura, Nestrovski também já publicou livros em que aborda questões teóricas da cultura –“Debussy e Poe” (1986) e “Ironias da Modernidade” (1996)- e sobre a música no Brasil –“Três Canções de Tom Jobim” (com Lorenzo Mammì e Luiz Tatit, 2004), além de antologias em que trata tanto de música popular quanto de arte no Brasil.

A partir de 2004, Nestrovski passou a se dedicar à atividade musical, como violonista e compositor. O resultado do trânsito entre música e literatura se pode notar em dois trabalhos que sairão em breve: o livro de ensaios “Palavra e Sombra” (Ateliê Editorial), em que examina autores recentes das literaturas brasileira e inglesa, e o CD “Pra Que Chorar” (Celso Sim faz a voz, e Nestrovski, o violão), com canções próprias, versões para canções de Schubert e Schumann e clássicos revisitados do cancioneiro brasileiro.

A entrevista a seguir, sobre o novo livro do crítico, foi feita poucos dias antes de Nestrovski ser nomeado novo diretor da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) _o que levou Trópico a procurar novamente o crítico, para saber de seus planos à frente da orquestra.

“Seria presunçoso –e perigoso!- anunciar grandes novidades com uma semana no cargo”, diz ele. No entanto, adiantou alguns de seus objetivos: ampliar a programação de atividades paralelas aos concertos, inclusive o número de publicações da Osesp; ter uma presença maior da orquestra em atividades especiais; e implementar as atividades educativas e de formação da plateia. “Não é que peguei o barco andando. Peguei um transatlântico em alta velocidade”, brinca. Na entrevista, ele também expressa seu descontentamento em relação ao papel da crítica na imprensa diária. “Os grandes meios de comunicação não são mais, e provavelmente não voltarão a ser, veículos de reflexão crítica sobre a cultura”, dispara.

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”Outras Notas Musicais” reúne boa parte do que você escreveu para a imprensa nos últimos dez anos. São cabalísticas 333 resenhas, principalmente para o jornal “Folha de S. Paulo”. O que o motivou a organizar esse material disperso, escrito ao longo de dez anos, na forma de livro?

Arthur Nestrovski: Para além do interesse mais pessoal (também ensaístico, ou literário) de reunir esse acervo de textos, o livro para mim tem ainda o propósito de traçar uma espécie de história da música nesses últimos dez anos, especialmente na cidade de São Paulo –que são provavelmente os dez anos de ouro da história da música na cidade e no país.

O que se viu aqui nessa década em termos de produção musical –local e internacional– provavelmente foi um privilégio inédito. Corresponde ao período justamente de instalação da Sala São Paulo e da renovação da Osesp. Só isso já significou a criação de um quadro artístico que se apresenta cerca de 40 semanas por ano, numa sala de concerto espetacular, tocando num nível muito alto, com regentes e solistas de destaque nacionais e (na maioria) estrangeiros.

A criação da nova Osesp teve efeitos benéficos sobre muitos outros quadros. Ao longo desse período, a Sinfônica Municipal foi obrigada a se organizar em outros patamares (tanto artísticos quanto administrativos), o Quarteto de Cordas da Cidade etc. – e muitos quadros fora de São Paulo também, como a nova Filarmônica de Minas Gerais. Quer dizer, houve um crescimento da produção musical nessa área como nunca se tinha visto.


Como era antes da Sala São Paulo e da nova Osesp?

Nestrovski: Em São Paulo antes disso o que se tinha era prioritariamente “turismo musical”, de alto nível. Mas a vida musical de uma cidade não pode ser feita prioritariamente pelos visitantes, pelos grandes músicos que passam por aqui, tocam dois concertos e vão embora. Isso não faz a fábrica musical de um lugar. Vida musical numa cidade você faz quando tem produção regular e constante –e foi isso que aconteceu nesses últimos dez anos.


O livro cobre principalmente apresentações ao vivo. Por que você o organizou de modo a privilegiar situações ao vivo no cenário musical paulista nesse período?

Nestrovski: Até em termos jornalísticos, era mais interessante resenhar concertos do que discos. Para a vida da cidade se tornou muito mais interessante acompanhar a programação de concertos do que os lançamentos internacionais. Para conhecer uma obra, você pode até preferir a gravação, pois se pode ouvi-la muitas vezes, e comparar com outras; mas a situação de um concerto ao vivo, aquilo que acontece entre um músico, a música e a platéia, isso é algo que disco algum consegue registrar.


A respeito de discos internacionais e da edição de CDs de música erudita no Brasil, frequentemente se é obrigado a importá-los, caso se queira estar atualizado. A que você atribui este estado do mercado de CDs no Brasil?

Nestrovski: Trago más notícias: não são só os CDs de música clássica que estão nesse estado. O último CD do Caetano (o maravilhoso “Zii e Zie”) teve uma primeira tiragem de 10 mil exemplares, número irrisório para quem já vendeu 1 milhão de discos no passado. Que o CD está em crise há muito tempo deixou de ser novidade.

Agora as boas notícias: é mais fácil do que nunca comprar CDs importados; e há inúmeros sites onde se pode escutar música clássica, seja de graça ou pagando uma taxa anual. Tudo somado, o acesso hoje provavelmente é maior do que jamais foi. E as plateias de música clássica estão crescendo, não diminuindo, no Brasil. Nesse sentido, não se pode deixar de citar os vários projetos sociais envolvendo música clássica (como a Sinfônica de Heliópolis e o Projeto Guri, para dar dois exemplos paulistas).

Não chega a ser motivo para se sair comemorando, dentro de um quadro geral que, obviamente, tem inúmeros buracos, muitos deles bem mais embaixo. Mas a pergunta soa um pouco ranheta, nesse contexto de crescimento –uma circunstância relativamente nova, que pode ser explorada em muitas frentes, para sair deste nosso velho círculo vicioso de preconceito cultural gerando desinformação e desinformação gerando preconceito.


A leitura do livro me fez pensar no papel da crítica nos órgãos de imprensa. Que importância você vê na crítica musical em cadernos da imprensa diária?

Nestrovski: Eu começaria falando da ausência da crítica, ou melhor, no que significa a diminuição progressiva ao longo dos últimos anos do espaço da crítica nos cadernos de cultura, tanto nos grandes jornais quanto nas revistas, sem falar nos pequenos jornais, onde ela praticamente desapareceu.

Eu diria que isso é um sintoma muito grave, porque a diminuição do espaço da crítica é a diminuição do espaço da cultura, substituído por um jornalismo de serviço. Aparentemente o espaço da crítica foi substituído pelo da informação: a informação sobre eventos culturais, sem reflexão ou resposta a esses mesmos eventos.

Isso é grave porque, no limite, a importância da crítica é a mesma importância que se concede às obras: elas se completam, uma à outra, e para tanto dependem do espaço de debate. Quando você diminui o espaço da crítica, está diminuindo o espaço da própria arte. São poucos os grandes jornais que ainda preservam algum espaço para a recepção crítica. Não existe a mais tênue reflexão de pensamento crítico na maioria imensa dos órgãos de imprensa, fora do que ainda resta em alguns veículos dos grandes centros.


Você destacaria algum veículo que abra espaço para a recepção crítica?

Nestrovski: Nalguma medida isso foi assumido por alguns sites, mas são raros. O Trópico é um exemplo. Algumas revistas têm aparecido, como a “Serrote”... Mas, mesmo nestas, não há propriamente resenha crítica de obras específicas. Nesses lugares o que se tem são textos mais abrangentes. Alguém poderia ter a iniciativa de fazer, por exemplo, um grande site de resenhas críticas de obras apresentadas nas cidades brasileiras cotidianamente.


Bem considerado seu diagnóstico, com a diminuição do espaço da crítica nos cadernos de cultura, restaria à universidade o papel de promover a reflexão sobre o cotidiano de eventos culturais no Brasil?

Nestrovski: A massa de produção acadêmica é espantosamente pobre no que diz respeito a comentários específicos sobre a produção cultural brasileira da atualidade.

Nunca vi um texto numa revista especializada acadêmica comentando um concerto específico. Isso, afinal, é algo que a gente se acostumou a esperar da grande imprensa. Mas será que a universidade, que afinal de contas deveria ser um espaço de reflexão crítica cotidiana, será que ela não seria o melhor espaço hoje para esse tipo de atividade? Nem vamos falar dos professores; mas por que os alunos da USP, da Unicamp, da Unesp etc. não arregaçam as mangas e começam a escrever?

Não estou falando de blogs e sites de relacionamento. Por que não criam um site para escrever sobre música, cinema, literatura, dança, teatro? Considerando o tamanho do alunado, seria em tese o mais formidável elenco de críticos, capazes de resenhar virtualmente tudo o que acontece. Isto é só um exemplo do que se poderia fazer, em vez de ficar chorando pitangas sobre a falta de crítica nos grandes meios de comunicação.

Talvez fosse bom cair na real: os grandes meios de comunicação não são mais, e provavelmente não voltarão a ser, veículos de reflexão crítica sobre a cultura. Isso ainda acontece, nalguma medida, em alguns deles (como a “Folha” e o “Estadão”), mas o espaço é cada vez menor e tende a diminuir.


Você foi professor universitário, tem formação em letras e música, compõe e toca violão. Como você se equilibra entre o mundo da literatura, da crítica musical e da criação musical?

Nestrovski: No Brasil não sou só eu que misturo tanto as coisas –e isso é algo interessante de se pensar. O Brasil, com todas suas deficiências, tem essa característica, que parece uma grande virtude: a possibilidade exercida por muitas pessoas de, estando na música ou na literatura, transitar em mais de uma área, de forma efetiva.

Se você pensar num compositor de canções como Chico Buarque, que é autor de importantes romances da literatura brasileira recente; num compositor de canções como Caetano Veloso, autor de um volume como “Verdade Tropical”, e um ensaísta que reflete de forma original e contundente sobre os destinos do país; se lembrar de poetas como Waly Salomão, Antonio Cicero, Paulo Leminski, Arnaldo Antunes... –cada um do seu modo intervém ativamente no repertório da canção popular, um repertório que no Brasil realizou e realiza uma intervenção fundamental sobre a cultura.

Quer dizer: esses cruzamentos são naturais, de uma forma que em muitos outros lugares seria surpreendente, mas que aqui, por uma série de contingências, se tornou habitual.


Você destaca que o termo “clássica”, na expressão “música clássica”, não é bom, uma vez que nem toda música clássica foi composta no período clássico. Mas você também não adota as expressões “música erudita” ou “música de concerto”. Entre os teóricos não há consenso ou há certa aceitação da expressão “música clássica”?

Nestrovski: Eu adoto aqui Wittgenstein, a “filosofia da linguagem ordinária”. Para os especialistas, “música clássica” é um termo ruim, porque não se está falando só do período clássico (fim do século XVIII até início do século XIX). Agora, para todo mundo que usa a língua portuguesa, quando se diz “música clássica”, a expressão já não tem esse sentido; isso é só os especialistas que pensam, um vício acadêmico.

Quando se diz “música clássica”, todo mundo sabe do que se trata: são situações de concerto, as pessoas tocam sinfonias, tocam sonatas, cantam ópera. Todo mundo sabe o que é. E o que seria o contrário da música “erudita”? A música analfabeta? Analfabetos musicais? Quem? Tom Jobim? Caymmi? Pixinguinha? Luiz Gonzaga? Edu Lobo? Gil? Convenhamos: música “erudita” é muito ruim. Fiquemos com “clássica”, mesmo.

 
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