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EXPLOSÕES

A graça do pum
Por Renato Janine Ribeiro/Jornal de Resenhas

Divertido e erudito, “A Arte de Peidar” faz uma classificação dos flatos e descreve o seu bom uso

Trópico edita a seguir artigo que faz parte do novo número de "Jornal de Resenhas"; parceria vai publicar mensalmente um artigo ainda inédito.

Crianças soltam pum –a palavra bonitinha, infantil, suave. Ninguém com um mínimo de bom senso vai inibi-las, sobretudo se forem pequenas. Já adultos não devem fazê-lo em público. É mal educado. No entanto, o primeiro tratado importante sobre boas maneiras, talvez o único de seu porte escrito por um filósofo, o “Manual de Civilidade dos Modos de Meninos” (1530), de Erasmo, admite os flatos. O filósofo humanista manda não cuspir à mesa (nem na mesa, aliás), numa lista razoável de conselhos da boa educação. Mas, quando chega ao pum, diz que retê-lo não é bom, porque faz mal à saúde.

O que levou as pessoas educadas, desde meados do segundo milênio, a renunciar a uma série de atos espontâneos em sinal de respeito ao outro? E por que a renúncia a certos atos e não a outros?

São questões que surgem à leitura deste divertido “A Arte de Peidar”. Devo dizer que tenho algumas dúvidas quanto ao título em português, que traduz o verbo francês “Peter”. É que a palavra francesa é menos forte que a portuguesa. Em francês, “pet” pode ser o “flato”, mas também qualquer explosão. “Ça me pète dans la figure” quer dizer, apenas, que algo “me explodiu na cara”, que algo me abalou fortemente. O próprio autor lembra a ligação de “pet” com “petardo”. “Pum!” penso eu. Talvez “pet” seja mais forte que “pum”, mas será mais leve que “peido”.


Retenção de gases

Pois Erasmo recomendava que ninguém contivesse o pum (vou traduzir assim, embora elogiando a qualidade do trabalho do tradutor). As explosões internas, se retidas, fazem mal à saúde. É a mesma convicção de Pierre-Thomas-Nicholas Hurtaut. A melancolia pode resultar de uma excessiva retenção de gases. Soltem seus puns, sejam felizes.

A pergunta inevitável é: por que segurar os flatos se tornou norma da boa educação, se não faz parte do pacote inicial erasmiano? Não podemos diminuir a importância da obra de Erasmo, não só em outros livros, mas especificamente na construção da civilidade. Ele não só foi o maior filósofo a teorizar sobre as boas maneiras como, além disso, sua obra é um divisor de águas entre a relativa rusticidade medieval (“rus”: campo; daí, derivamos as palavras “rústico” e “rural”) e a urbanidade (ou civilidade: “urbs”, “civitas”) renascentista e, depois, moderna.

O princípio básico das boas maneiras está em mostrarem nosso respeito pelo outro. A educação se comprova quando evito gestos que podem ser desrespeitosos. Isso não quer dizer, necessariamente, uma conduta higiênica. Leituras higienistas das proibições datam, sobretudo, do século XIX. É quando se sustenta que os interditos alimentares dos judeus, por exemplo, se deveriam a uma preocupação com a saúde. No Oriente Médio, comer carne de porco é mais perigoso do que na Escandinávia: por isso, os judeus (mas suponho que não os vikings) proíbem a carne suína.

Mas a antropóloga Mary Douglas, em seu notável “Pureza e Perigo”, refutou essa tese. O que leva a proibições não é uma precoce sabedoria médica, mas uma necessidade classificatória. Os legisladores mosaicos querem evitar a mistura de categorias. Por isso deixam de comer, não apenas porcos, mas também peixes sem escamas, que não fazem mal à saúde.

Da mesma forma, os interditos (ou recomendações, porque não levam ninguém à perda da alma) erasmianos não são ditados por preocupações sanitárias. Não é porque contagiarei, com meus micróbios (que na época ninguém conhece), o meu vizinho de mesa que não devo beber diretamente da sopeira, como se ela fosse um gigantesco copo. É por respeito a ele.

O respeito significa, assim, contenção. Contenho alguma espontaneidade, sobretudo física. As principais restrições dizem respeito ao toque físico e às funções fisiológicas. Com exceção das culturas chamadas de “selvagens”, poucas são as que permitem exibir as partes pudendas. Mas a modernidade acentua as restrições a urinar e evacuar diante do outro, e mesmo os modos de comer à sua frente.

O “outro” assim respeitado, aliás, é com frequência uma “outra”. É como se a Idade Média fosse uma enorme fazenda e, num certo momento, os rurais/rústicos começassem a conviver, na cidade, com mulheres. Não vão mais adotar o jeito de quem anda sujo e, coberto de lama ou mesmo de excremento de animais, não vê maiores problemas nos dejetos, seus ou dos bichos. Novos modos se impõem.

O pum é, porém, o problema. Por um lado, ele remete a uma função fisiológica associada à sujeira. Por outro, contê-lo faz mal à saúde. Notem que Erasmo não diz que soltar pum faz mal à saúde e por isso deve ser refreado (ele poderia, na hipótese higienista, dizer que certos maus modos, como de novo beber da sopeira, transmitem doenças).

Ele usa a saúde não para impor a proibição do pum, mas para recusá-la. Mas como firmar a fronteira entre o necessário à saúde e o desrespeitoso ao outro? Certos flatos fedem. Trazem a latrina, pelo mau cheiro, para o meio da sala. O autor da “Arte de Peidar” sabe disso. Por mais que se divirta teorizando supostas causas biológicas dos puns, fazendo sua tipologia (peidos de donzela, de pedreiro etc.), descrevendo seu bom uso (por exemplo, para pôr fim ao tédio causado por uma conversa aborrecida), ele não se anima a uma defesa em regra dos peidos fedidos. No entanto, mesmo o pum inodoro lembra a existência das fezes. Obviamente é por isso que evitamos soltá-los em público. Fronteira difícil...


Linguagem pomposa

Uma última pergunta: o livro é engraçado? Foi editado com esse propósito. Contudo, me pergunto se ele não terá passado um pouco do ponto. Se assim for, será um fato irônico, porque é o tipo de obra que circulava bem na sociedade aristocrática do século XVIII (que conhecia a “doce vida”, a “douceur de vivre” dos tempos de “antes da Revolução” de que falava Talleyrand), mas que foi algo reprimido pelo moralismo do século seguinte.

Porém a obra lembra brincadeiras que hoje remanescem entre alguns advogados. Penso no uso de uma linguagem pomposa para tratar do nada. No Direito, emprega-se uma linguagem difícil para apreciar questões difíceis e de respeito. Contudo, justamente porque tanta seriedade acaba cansando os próprios advogados, em algum momento eles se divertem, utilizando essa forma requintada para discorrer sobre coisas de nenhuma importância.

É a mesma lógica do trote, que subsiste justamente nas faculdades mais tradicionais: a transgressão é mais forte ali onde a regra também tem maior força. É uma carnavalização para aguentar a seriedade. Brincadeiras de advogados podem ser o trote, a peruada, o pendura. E pode ser também a família reunida, e um filho advogado dizendo “data vênia” para passar o prato.

A “Arte de Peidar” parece pertencer a esse gênero, com a notável diferença de que não é obra de ou para advogados, e sim de um autor erudito do século XVIII, versado nas figuras literárias, fluente em latim, e que usa disso tudo para forjar grandes brincadeiras. O problema é que essas brincadeiras já não nos fazem rir tanto, porque seus referenciais –como a erudição e o latim– saíram de nossa cena comum.

Ou seja, não basta a segunda metade do século XX ter escancarado o “inferno da Biblioteca Nacional” da França, retirando livros obscenos dos seus sótãos e trazendo-os à luz: alguns deles não têm, mais, a graça que tiveram. E aqui falo tanto das citações latinas, que muitos não entenderão, quanto da invocação de um imaginário deus egípcio, de nome Pet, brincadeira culta que acaba perdida para quem não sabe que “pet” em francês é “pum/peido” e que com maiúscula soa, mesmo, parecido com um deus egípcio, talvez com Petbe, deus da vingança.


O livro:

“A Arte de Peidar”, de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut. Tradução: Bruno Guilherme Feitler. Ed. Phoebus. 96 págs., R$ 23.

Publicado em 20/12/2009

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Renato Janine Ribeiro/Jornal de Resenhas
É professor titular de ética e filosofia política na USP, autor de "O Afeto Autoritário" (ed. Ateliê) e "A Última Razão dos Reis" (Companhia das Letras), entre outros livros..

 
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