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prosa.poesia
INÉDITO

Atores
Por Leandro Sarmatz

As histórias Harry Abbott, intérprete do Führer; do velho e o pequeno Junger; e de Emil Fleischer, o Conde Drácula

"Muitos nazistas se comportavam como atores shakesperianos".
Douglas Sirk


HARRY ABBOTT

Harry Abbott, o ator americano, um ex-viciado em metadona, estava ficando louco -pelo menos é o que andavam dizendo no set. Vivendo há mais de três meses isolado na Amazônia com W. H., o diretor alemão, além de uma numerosa equipe de atores e figurantes das mais diversas nacionalidades, Abbott estava ali para protagonizar um filme fantasioso sobre ninguém menos que Adolf Hitler. O enredo deveria se concentrar na suposta captura de um Führer já octogenário, que sobrevivia como um bicho no meio da floresta brasileira.

Às vezes Abbott chorava o dia inteiro, às vezes preferia ficar pelado dentro d´água até sair completamente murcho quatro horas mais tarde ou então punha-se a provocar alguém da equipe até que isso resultasse numa briga. Na maior parte do dia, porém, o ator parecia um autista ou alguém muito perturbado: olhar empastado, mãos entrelaçadas, murmurava algo completamente ininteligível. Ele não estava batendo bem, comentavam.

Talvez ele tivesse os seus motivos. Aos 42 anos de idade e escondendo de todos o fato de que poucas horas antes da viagem à floresta seu médico em Los Angeles lhe havia diagnosticado um linfoma, Abbott era obrigado a suportar diariamente penosas quatro horas na barraca de maquiagem para parecer um velho num estado deplorável. Sinceramente ninguém sabia como ele tolerava essa tortura. Na verdade, passava a maior parte do tempo embriagado. Após a maquiagem, era preciso que a equipe estivesse bem coordenada: as altas temperaturas e a umidade provocavam o suor, e este fazia com que a cara maquiada do ator se decompusesse em menos de uma hora de filmagem. Havia ventiladores imensos para onde quer que se voltasse o olhar, mas toda essa parafernália se mostrava inútil diante do poder da selva. O calor impregnava tudo como uma segunda pele. Aí só restava filmar cenas em que o Führer não aparecia ou interromper o trabalho até o dia seguinte. Nem é preciso dizer o quanto essa rotina era desgastante para todos.

Para recriar um mínimo de condições civilizadas, fora montado uma espécie de assentamento indígena de luxo. Duas dezenas de barracas, dispostas segundo a lógica muito particular de W. H. -um diretor calejado em filmar em meio às dificuldades e em locações nos lugares mais inóspitos do planeta-, serviam de moradia, sala de preparação dos atores, refeitório, enfermaria, sala de reuniões. Essa última era destinada aos dois financiadores que apareciam de helicóptero uma vez por mês para conferir o andamento dos trabalhos, ficavam ali pouco mais de cinco horas e depois voltavam para Manaus, onde um jato particular os conduzia de volta à Europa. Havia também, é claro, a barraca particular de Abbott, que chamava a atenção por ser a maior de todas e que mais parecia o bangalô de um daqueles velhos administradores da África colonial.

Ninguém, nem mesmo o diretor alemão, se aventurava nesses domínios. Parte disso se devia a motivos concretos (exigência contratual), outra parte era preocupação sanitária. Que tipo de fedor e sujeira estariam à espera de um visitante? Quando não estava filmando ou se metendo em confusão, Abbott se encerrava na barraca e dali não saía sequer para realizar as refeições, único momento em que a equipe inteira, do diretor ao mais humilde dos operários do set -em sua maioria recrutados entre a população ribeirinha da região- confraternizava sem hierarquia. Somente Lewgoy, um experiente ator brasileiro já entrando nos 60 anos, que fazia o papel de um famoso caçador de nazistas, vez por outra se arriscava para saber como Abbott estava passando. Aparentemente, suas visitas eram toleradas. Mas também Lewgoy sempre se esquivou de tocar no assunto com os outros.

***

Harry Abbott, e é claro que isso não escapou ao diretor alemão, tinha as mesmas iniciais, embora trocadas, do próprio nome do Führer. No mais, seu tipo físico lembrava apenas remotamente o de seu personagem. O que de mais próximo havia era o olhar, resultado, talvez, de duas décadas de estrelismo, subserviência dos produtores de filmes e recorrentes tratamentos de desintoxicação. Era um olhar fixo, frio e penetrante como o de uma águia. Alguns nativos morriam de medo e evitavam encará-lo diretamente. Diziam que dava azar. Mulheres humildes, muitas delas descendentes de indígenas, que nos domingos de folga apareciam no set para visitar seus maridos, evitavam levar crianças de colo. Os pequenos poderiam definhar até a morte.

Até agora, embora já tivesse passado um período bastante largo, W. H. havia conseguido poucas cenas satisfatórias com Abbott. Alguma coisa lhe dizia para seguir filmando outros entrechos, como o esconde-esconde entre o Mossad e a pequena, porém fiel, guarda pessoal do Führer na floresta, e o desespero do caçador de nazistas que, debilitado por uma febre tropical, vê em cada sombra a macabra figura de um SS. Esse tipo de cena e mais alguns ajustes no roteiro já ocupavam uma boa parte do dia da equipe que veio de fora. Quanto a Abbott, diziam, era uma questão de tempo; com a idade, ele acabou desenvolvendo um método muito particular (embora oneroso para os produtores e exasperante para as equipes) que consistia em permanecer no set o maior tempo possível quase sem atuar, até que, por algum tipo de capricho ou mesmo de espasmo calculado, erguia-se e desempenhava à perfeição o papel para o qual fora contratado, deixando todos boquiabertos.

Acontece que dessa vez a coisa não estava saindo conforme o combinado. O tal momento nunca se aproximava, os financiadores externaram sua insatisfação no último encontro com o diretor e o clima com os outros atores estava péssimo. Abbott, diziam sem medo de que o próprio ator escutasse, estava acabado. Seu tempo havia passado; o que queriam dele produtores e diretores era apenas o nome quase mítico para estampar nos cartazes dos filmes e levar mais platéias às salas de cinema. Não que o ator fosse uma dessas celebridades. Era mais um acteur culte, um sujeito que há pouco mais de duas décadas sempre soubera escolher com bom-gosto e inteligência os roteiros que lhe eram submetidos.

E agora -o que fazer com alguém que, pelo visto, não tinha futuro algum pela frente? Talvez esse tipo de pensamento também ocorresse a Abbott, que estava longe de ser velho, mas que guardava em segredo a sua doença. Ele também não era nenhum principiante. Ao saber do linfoma, meses atrás em Los Angeles, poderia ter cancelado as filmagens até que o tratamento quimioterápico surtisse efeito sobre seu corpo. Era o que seu médico havia recomendado. Quando saiu do consultório, Abbott ainda não tinha decidido o que fazer. Se ficasse em tratamento, talvez perdesse a chance de fazer um filme com W. H., um diretor petulante que o havia convencido que, mesmo quarenta anos mais novo, poderia fazer um Führer ainda em circulação na década de 70.

Era por isso que Abbott estava lá. Apesar do aparente alheamento e do comportamento estrambólico no set, ele sabia o que todos comentavam a respeito dele. Não pretendia lutar contra isso. Eles que imaginassem o que quisessem. Ademais, estava pouco se lixando. Dentro de sua barraca-bangalô, a despeito das garrafas de bebida alcoólica jogadas num canto ao lado do sofá, tudo parecia perfeitamente organizado. A mesa onde fazia suas refeições estava quase sem migalhas. Quando não se alimentava exclusivamente de chocolates e outras guloseimas que trouxera de casa, era Lewgoy que contrabandeava até a barraca alguns sanduíches ou um pedaço suculento de peixe preparado pelos nativos.

Junto à cabeceira de sua cama havia uma pequena biblioteca com volumes sobre Adolf Hitler, o famoso livro de Raul Hilberg sobre o Holocausto, além uma brochura muito popular de Frederick Forsyth, lançada poucos anos antes, que tinha um enredo vagamente familiar ao do filme. Quando não se sentia com disposição para filmar, passava longas horas folheando esses volumes, fazendo pequenas anotações diretamente no roteiro e também dormia bastante. Aquela floresta estava acabando com ele. Ele achava que não ia escapar vivo.

***

E então algo aconteceu, o truque mágico de Harry Abbott fez as filmagens funcionarem maravilhosamente bem, como sempre ocorria. Estava-se entrando no quinto mês de trabalho dentro da floresta. A disposição e a capacidade de entrega do ator (artigo muito valorizado entre os diretores) eram inexcedíveis. Seu Führer octogenário era um triunfo de contenção dramática e inteligência. Não havia nada de sobrenatural, é preciso que se diga. O que todos presenciavam ali era o trabalho duro de um ator experimentado, mas ao mesmo tempo podia-se vislumbrar -de uma maneira bastante convincente- uma versão alternativa da história do século XX em todo o seu esplendor.

Perto da última semana de trabalho, porém, um incêndio varreu o acampamento. Ninguém parecia ter a mais vaga idéia de como as coisas principiaram. Uma fagulha aqui, uma ventania inesperada, e logo as chamas pareciam que iam consumir todas as barracas. O piloto de um helicóptero do exército brasileiro, que estava patrulhando a região, percebeu o que estava acontecendo e conseguiu chamar pelo rádio outros dois camaradas seus. Em questão de minutos todos foram resgatados quase incólumes; no máximo algumas pessoas estavam arranhadas pelo esforço de tentar subir em árvores ou exibiam pequenas torções devido ao desespero de correr mata adentro. Foi quando W. H. deu por falta do ator americano.

Abbott, é claro, já não estava mais lá.


O PEQUENO JUNGER

Foi só no último inverno da guerra, o mais horripilante de todos -quando o que restava do contingente alemão era aniquilado dia após dia e o Führer enlouquecia entre as paredes de seu bunker-, que o velho ator Junger se convenceu de que não havia mais nada a fazer, a não ser ficar de luto e conservar o seu segredo.

Já fazia 15 meses que não recebia notícias daquele jovem soldado que criara como seu filho. Desde que o “Pequeno Junger” (como era conhecido pelo público dos cinemas mesmo depois de ter saído da adolescência) recebeu o chamado às armas e foi lutar no front russo, Junger nunca mais soube nada dele. Antes, julgava-o um afortunado, sobretudo nos primeiros anos do conflito, pois havia muitos filmes para atuar, a UFA ainda não começava a sofrer com os cortes e as privações do esforço de guerra, a carreira do Pequeno Junger ia de vento em popa, mantendo-lhe distante dos coturnos e das obrigações da caserna.

Então veio o colapso do Reich, e o Pequeno Junger -como bom ariano- foi alistado. Disse adeus ao cinema e ao velho Junger numa manhã em que Berlim inteira cheirava a poeira de prédio e a rato carbonizado.

Desde então Junger acostumou-se aos pesadelos (o mais frequente deles era um desenho-animado tendo como protagonista o Pequeno Junger) e à ansiedade sobre a possível descoberta de seu segredo.

Um dia, às vésperas de deixar de Berlim, Junger atravessava receoso, com medo de algum bombardeio, o quarteirão que levava de seu apartamento em Prenzlauer Berg a uma antiga mercearia parcialmente destruída, quando encontrou Glazner, outro velho ator do seu tempo. “Glazner”, é certo, parece um sobrenome judaico: evidentemente o ator era ariano, mas esse quase engodo foi-lhe benéfico no início da carreira (muitos empresários teatrais eram judeus do Leste que enriqueceram em Berlim), embora a partir de 33 tenha sido motivo de alguma dor de cabeça. Após as saudações habituais, Junger comunicou-lhe que estava deixando a cidade para tentar escapar dos conflitos. Buscava um pouco de paz e segurança no campo, longe o quanto conseguisse das bombas e dos aviões aliados. Glazner, que se considerava um patriota, achou a idéia uma completa asneira. Insinuou que Junger talvez tivesse algo para esconder. Um segredo militar. Um baú de provisões. Judeus no porão. Estava blefando, é claro, e Junger sabia disso, o que não o impediu de ficar mortalmente ferido com as insinuações de Glazner. Logo ele, que lhe fora tão próximo quando ambos estavam na casa dos 30 anos. Despediram-se, e Junger prometeu a si mesmo nunca mais fazer camaradagem com gente do teatro enquanto vivesse. Imediatamente, porém, lembrou-se que foi Glazner, um cínico, quem um dia lhe ensinou algo precioso:

“Há três classes de atores: os atores judeus, os atores homossexuais e os atores sem classe”.

O velho Junger deixou Berlim logo no alvorecer do dia seguinte. Evitou olhar para trás e assim contemplar as ruínas.

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