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em obras
DESTRUIÇÃO

Inatualidade da cultura
Por Lina Bo

Desleixo com a preservação do patrimônio não é de hoje, como mostra artigo de 1958 de Lina Bo sobre incêndio em convento

O incêndio ocorrido no dia 17 de outubro na casa do irmão de Hélio Oiticica, onde estava abrigado o acervo do artista, reacende o trauma de bibliotecas em chamas. Até agora, todas as atenções se voltaram para a possibilidade de não haver mais nenhum Núcleo, Bólide ou Parangolé originais.

Se podem ser restaurados ou como reconstruí-los: os documentos do artista constituem a placenta necessária para responder essas questões. Nenhuma notícia divulgou se as milhares de páginas manuscritas em notebooks, cartas e textos datilografados queimaram naquela madrugada. Será porque a pergunta não interessa, ou porque não parece escandalizar ninguém, nem as autoridades nem o meio artístico?

Reproduzimos a seguir um artigo da arquiteta Lina Bo (1914-1992), "Inaturalidade da Cultura", originalmente publicado na página dominical do "Diário de Notícias", de Salvador, em 28 de setembro de 1958, no qual percebemos que a displicência não é de hoje... LISETTE LAGNADO

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Um telegrama lacônico transmitiu ao público que, domingo passado, o Convento do Carmo do Rio de Janeiro era destruído pelo fogo, inclusive a sua preciosa biblioteca de dez mil volumes. O comunicado foi publicado nos vespertinos, modestamente, ao lado das grandes manchetes relativas aos fatos internacionais, aos acontecimentos políticos e ao noticiário policial.

Por que a um suicídio, um desastre, uma declaração política se dá tanto relevo, enquanto assunto de cultura é relegado a plano secundário, ou mesmo não mencionado?

Por que então a imprensa não se ocupa, com mais assiduidade dos problemas de arquitetura, da arte, de todas as artes? Não é a construção de um mercado, um teatro, uma escola, um acontecimento público de interesse geral imediato? Um projeto de arquitetura divulgado em tempo útil, nos seus detalhes técnicos, plantas, cortes, poderia provocar discussões e polêmicas construtivas e muito danos poderiam ser evitados. Poder-se-ia objetar que falta no público a consciência crítica e a capacidade de julgamento, mas esta consciência crítica necessita ser criada e alimentada, e até que os problemas de cultura sejam relegados na terceira página e nos suplementos especiais e não entrosados no noticiário cotidiano, de público interesse, a maioria dos leitores continuará ignorando esses problemas. A civilização moderna ainda não utilizou este meio poderoso: a propaganda, para os fins desinteressados da cultura, em favor das grandes questões culturas: a construção de um edifício de uso coletivo, as grandes exposições de artes plásticas, os congressos, os espetáculos, continuam sendo monopólio dos poucos eleitos, e a massa está excluída e continua na ignorância a respeito da arte.

O Convento do Carmo do Rio de Janeiro está destruído com sua biblioteca. Um novo lacônico telegrama diz dois dias depois que será construído um novo convento moderno, munido de elevadores para substituir o velho edifício. Nesse adjetivo velho, usado, ao invés de antigo, está toda crise de nossa época: o cheiro de mofo da cultura abandonada a si mesma, do antigo não querido e não revivido, mas sim mumificado e esquecido. Quem construirá o novo convento do Carmo? Quem será o arquiteto? Quando surgir a nova construção, sob a indiferença geral, o público poderá ver, no lugar da antiga, uma arquitetura sem época, anônima, e ao observador saudoso do antigo edifício e consciente de uma ocasião perdida para uma construção verdadeiramente moderna, será talvez a única consolação aquilo que já havia chamado a atenção do repórter, quando anunciou a nova construção: “O Convento do Carmo e sua biblioteca foram destruídos; em seu lugar teremos um prédio novo com elevadores”.


Texto originalmente publicado em “Crônicas de arte, de história, de costume, de cultura da vida. Arquitetura. Pintura. Escultura. Música. Artes Visuais”, página dominical do "Diário de Notícias" (Salvador), nº 4, 28/9/1958. Republicado in: Rubino, Silvana e Grinover, Marina (orgs.), "Lina por Escrito: Textos Escolhidos de Lina Bo Bardi", Cosac Naify, São Paulo, págs. 93-95. Copyright: Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, São Paulo (SP).

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Lina Bo

Nasceu em Roma em 1914 e morreu em São Paulo em 1992. É uma das principais arquitetas brasileiras, autora dos projetos do Masp (Museu de Arte de São Paulo), do Museu de Arte da Bahia e do Sesc Pompeia, entre outros.



 
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