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política
HISTÓRIA

A supressão do passado
Por Leneide Duarte-Plon

A historiadora Régine Robin fala sobre exposição em Paris dedicada à Queda do Muro de Berlim

A Queda do Muro de Berlim, há 20 anos, implicou em sucessivos apagamentos da era comunista na cidade, a começar do próprio tecido urbano. Nomes de ruas foram modificados, como a Lenin Platz, que se tornou praça das Nações Unidas. Estátuas, monumentos e prédios foram destruídos, como o Palácio da República, erguido em 1976.

A eliminação dos traços do passado é o foco principal da importante exposição "Berlin 1989-2009, l’Effacement des Traces" (Berlim 1989-2009 – O Apagamento dos Vestígios), no Musée d’histoire contemporaine de Paris (Hôtel National des Invalides, até 31/12). Com curadoria da socióloga e historiadora Régine Robin -juntamente com Sonia Combe e Thierry Dufrêne-, a exposição mostra através de uma série de meios (fotos, mapas, vídeos e objetos), que o fim do Muro e a reunificação da Alemanha, além de por em prática uma extinção programada da memória, também implicou na demonização do passado comunista.

"A RDA passou a ser posta no mesmo plano que o Terceiro Reich, sem nenhuma consideração sobre as nuances e análises que podem ser feitas. Naquele momento, como já haviam apagado a suástica, era preciso apagar a foice e o martelo, ou o compasso, o símbolo da RDA, além de todas as marcas do comunismo que se tornava, naquela análise, um regime maldito”, diz Robin na entrevista abaixo. Especialista na história da capital alemã, Robin é autora do premiado livro “Berlin Chantiers” (editora Stock, 2001). Filha de judeus poloneses, nascida em Paris, ela teve uma grande parte de seus familiares mortos em campos de extermínio nazistas. Atualmente, vive entre três cidades: Montreal, Paris e Berlim.

"É completamente fascinante ver o que Berlim se tornou, o número de estrangeiros, sobretudo artistas, que vive lá, a criatividade que se vê. Ao mesmo tempo, é uma cidade falida, onde o desemprego é bem visível, ao contrário de Frankfurt ou mesmo de Hamburgo", afirma.

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O tema da exposição é o “apagamento dos vestígios”. Por que, com a queda do Muro, foi preciso apagar os vestígios da RDA (República Democrática Alemã) e do comunismo? No seu livro "Berlin Chantiers" você fala da “desmemória”, aquela que esquece, lava, apaga, não quer deixar nenhum vestígio da RDA.

Régine Robin: Não era obrigatória a extinção dos vestígios. Mas foi a maneira como Helmut Kohl (chanceler da Alemanha entre 1982 e 1998) se apressou em fazê-lo, e aproveitou o momento de emoção para propor a votação da reunificação. Esta reunificação foi feita no contexto da Constituição do Oeste, isto é, sem deixar nenhum lugar nem nenhuma negociação ao Leste. Assim, os Länder do Leste foram assimilados, mas no contexto constitucional que já existia na República Federal Alemã (RFA).

Além disso, no plano ideológico, tudo foi acompanhado de discursos como: “A RDA era uma ditadura do Partido Unificado Alemão”. Consequentemente, a RDA era assimilada ao Terceiro Reich, uma maneira de dizer que esse país infeliz, que estava sendo reunificado à democracia, só tinha conhecido, depois da queda de Weimar, o nazismo e depois essa horrível ditadura, a Leste. Assim, a RDA era posta no mesmo plano que o Terceiro Reich, sem nenhuma consideração sobre as nuances e análises que podem ser feitas.

Naquele momento, como já haviam apagado a suástica, era preciso apagar a foice e o martelo, ou o compasso, o símbolo da RDA, além de todas as marcas do comunismo que se tornava naquela análise um regime maldito.

Existe uma lógica: apagar tudo significava derrubar a estátua de Lênin, mudar os nomes das ruas, destruir um certo número de edifícios e particularmente a decisão, que foi longa, de derrubar o Palácio da República. Mas nele, providencialmente, foi encontrado amianto (material considerado cancerígeno). Então, imediatamente foi interditado e depois demolido. Todos os manuais escolares, inclusive milhares de livros da RDA, foram destruídos.


Assim, quiseram esquecer o papel da União Soviética na vitória contra o regime nazista, não?

Robin: Isso ficou sendo um parênteses. Ninguém se atreve a destacar isso. Os russos foram imediatamente transformados em inimigo principal. O discurso era: “Eles violentaram as mulheres em Berlim, ocuparam a metade do território, transformaram a futura RDA em satélite”... E depois, em 1945, tratava-se de uma derrota para os alemães.

Isso foi muito difícil de ser admitido, num longo discurso do presidente Richard von Weitzäcker, que disse a propósito do 8 de maio, data do fim da Segunda Guerra: "Claro, foi para nós uma derrota, uma catástrofe –era assim que se chamava o fim da Segunda Guerra no Oeste–, mas não devemos esquecer que ela nos livrou do nazismo e, de certa forma, foi uma vitória”. Mas esse discurso foi feito apenas em 1985, muito depois de 1945. Os russos, então, nem são citados. Eles eram o pior, o inimigo principal.


Um dos momentos mais impressionantes da exposição é o vídeo sobre a destruição do Palácio da República. Construído em 1976, ele foi totalmente destruído entre 2005 e 2009. Por que era preciso demoli-lo a um custo faraônico, de cerca de 31 milhões de euros?

Robin: O amianto não era o principal problema. A torre Montparnasse foi desamiantada, não demolida. Houve uma enorme discussão sobre esse problema. Era muito complicado.

O Palácio da República havia sido construído no lugar do antigo Palácio dos Hohenzollern, da dinastia prussiana. Ora, esse palácio dos Hohenzollern foi bombardeado durante a guerra. E, quando houve a divisão de Berlim, ele ficou na parte Leste. Mas, quando a RDA foi criada, em outubro de 1949, o problema se colocou: “O que fazer do edifício semidestruído?” Restaurá-lo teria custado caro demais. Teria sido possível, pois foram restaurados muitos outros edifícios de Unter den Linden, como a Ópera. A RDA restaurou muitas coisas que custaram muito caro.

A restauração do castelo teria custado muito caro, mas, sobretudo, era um símbolo detestado. O castelo dos reis da Prússia -e o que isso tem a ver depois de 1945? Então, ele foi demolido em 1950. E durante 20 anos não houve nada, apenas uma grande praça. Depois, decidiram construir, num contexto um pouco modernista, num estilo um tanto duro, o Palácio da República.

Depois da reunificação, uma associação privada foi formada a Oeste. Eles diziam: “No lugar desse palácio, que representa esse regime odioso (o comunismo), vamos reconstruir o castelo dos Hohenzollern”. E finalmente, quando o Parlamento decidiu destruí-lo, resolveu não mais reconstruir o castelo dos Hohenzollern, apenas a fachada original.

Já escolheram o arquiteto, um italiano, para refazer a fachada e, atrás dela, haverá prédios culturais, modernos. Mas havia essa idéia de que era preciso apagar qualquer vestígio da RDA e, nesse caso, era acentuado pelo fato de que havia ali o castelo dos reis da Prússia.


As ruas que receberam novos nomes revelam também um desejo e uma necessidade de apagar o passado comunista de Berlim-Leste. Quando se comemora no Ocidente a Queda do Muro, festeja-se a vitória do capitalismo sobre o comunismo. O que ficou do passado comunista em Berlim Leste?

Robin: Não se coloca nesses termos. A revista do "Le Figaro" tem uma foto do muro e a palavra "La Liberté". Não se fala de capitalismo. Sempre se coloca ideologicamente, em termos de liberdade e democracia. Ninguém ousa dizer que se comemora a vitória do capitalismo. Ora, trata-se exatamente disso.

Há alguns vestígios do mundo comunista na cidade. Deixaram tudo o que não podiam retirar. Como o monumento a Ernst Thälmann, o chefe do Partido Comunista quando Hitler chegou ao poder, que foi assassinado em Buchelwald. Havia um enorme monumento no estilo do realismo socialista, pesadão, nada bonito. Pediram à empresa que retirou a estátua de Lênin para retirá-lo. Como ele era muito mais pesado que a estátua de Lênin, o orçamento foi muito mais elevado. O governo acabou achando que podia deixá-lo onde estava, pois ninguém mais sabia quem foi Thälmann.

Há também a famosa estátua de Marx e Engels, com o primeiro sentado e o segundo, em pé. É um pouco ridícula, mas não a tiraram. Nas discussões da época diziam: "Lênin é um estrangeiro, Marx é alemão”. Não rebatizaram também a praça Rosa Luxemburgo, embora tenham tentado, nem a avenida Karl Liebknecht.


Rebatizaram a Lenin Allee?

Robin: Sim, claro, a Lenin Allee se tornou Landsberger Allee, o nome que ela tinha sob a República de Weimar. E a Lenin Platz tornou-se praça das Nações Unidas.

O caso mais célebre é a praça Clara Zetkin. Eles rebatizaram porque, apesar de ser uma militante feminista, era uma das fundadoras do Partido Comunista Alemão. Ora, esse partido conduzirá o país a uma das ditaduras mais horríveis que se possa imaginar, logo não se podia manter o nome. Voltou a se chamar Dorotheestrasse, o nome da princesa Doroteia.

Algumas ruas mantiveram o nome, como a Richard Jorgestrasse, onde eu tinha meu studio. Richard Jorge era um comunista informante da União Soviética no Japão. Ele foi morto pelos japoneses. Alguns nomes escaparam, alguns monumentos ficaram como símbolos que não são explícitos. Em alguns cafés ou restaurantes pode-se ver a bandeira da RDA na parede, ainda há quem se identifique com ela.

Chamam isso a Östalgie, um trocadilho feito de Öst, Leste, e nostalgia). Existe também uma memória familiar da época. Há uma forte personalidade dos bairros no Leste, que eu conheci no momento da Queda do Muro e foram se tornando caros. Os pobres foram expulsos, à medida que os antigos proprietários recuperavam os apartamentos de onde foram expulsos em 1945. Eles foram quase todos renovados e duplicaram, triplicaram ou mesmo quadruplicaram de preço.

Ainda assim, Berlim é menos cara do que Paris e Londres. Os lugares que ficam mais perto do Oeste costumam ser mais caros, como o Mitte. Quando eu tinha meu studio em Berlim e voltava para uma temporada, havia sempre uma nova galeria, um novo café, e os vizinhos diziam: “Quando os artistas começam a vir, os aluguéis aumentam”.


A exposição lembra que um dos únicos ícones de Berlim Leste que resistiram à reunificação e à supressão foram os Ampelmännchen, os homenzinhos dos sinais de trânsito. Por que os berlinenses mantiveram esse ícone?

Robin: Primeiramente porque ele é bonito, o homenzinho do sinal, vermelho e verde. Mas a verdadeira razão veio depois. Tudo foi demolido e veio então a proposta de mudar esse símbolo, também unificando-o. Então, curiosamente, associações se formaram para salvar o homenzinho, como um “caso de Estado”.

Ele se tornou um símbolo do Leste, e ninguém queria mudá-lo. Finalmente, não se fala mais em mudar, e mesmo algumas ruas de Berlim Oeste adotaram o bonequinho. Ele ficou e, com a mercantilização generalizada que se abateu sobre os símbolos, ele superou o urso como símbolo de Berlim.

O pequeno Ampelmann aparece em chaveiros, camisetas, bolsas, tudo o que se possa imaginar. É ambivalente, porque ao mesmo tempo que ocorre a mercantilização desenfreada, pode ser visto como um símbolo de resistência ou identitário. Ele está em toda parte. Há um outro símbolo da mercantilização absoluta, o carro Trabant.

Esse carro era caro para os habitantes do Leste, comprado com fila de espera, mas era também um automóvel pobre, comparado aos do Oeste, mesmo ao Volkswagen _o que dirá com o BMW. Mas ele se tornou um símbolo. Muitos compram um Trabant antigo. Claro, trocam o motor, decoram a carrosseria, desfilam com ele pelas ruas. Existe até um tour em Berlim a bordo de um Trabant, com ou sem chofer.


Em Berlim, vendem pedaços do muro aos turistas. O jornal "Le Monde" fez uma reportagem sobre um comerciante que enriqueceu, comprando um enorme pedaço do muro para revender. O que pensa disso?

Robin: Há uma pessoa que foi em empresas e comprou pedaços monumentais do muro, triturou tudo e fez uma espécie de granulado, que revendeu a empresas privadas e ao Estado. E esse granulado serve para renovar as estradas depois da reunificação. Ele diz: “O muro está em toda parte, até mesmo sob nossos pés”. Um outro quebrou pedaços do muro, uns maiores para os museus.

Os pequenos pedaços são vendidos em lojas em Berlim, todas do mesmo proprietário, que enriqueceu com esses pedaços do muro. Você pode comprar um pedacinho a 3 euros, mas existem também os de 50 euros etc. O que eu penso? Acho que é como o colarinho Mao, uma distorsão do símbolo que se torna uma mercadoria...


Como a imagem de Che Guevara ...

Robin: Exatamente. Na exposição coloquei o pedaço do muro em um recipiente transparente feito para guardar queijos, a fim de ironizar um pouco o símbolo. Por que as pessoas querem um pedaço do muro? Pode-se dar diversas explicações. Talvez para possuir um pedaço da história.

 
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