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LITERATURA

Canetti solta os demônios
Por Wilson Bueno

"Sobre os Escritores" reúne as rascantes reflexões do Nobel de 1981 em ensaios, aforismos e palestras

Do vasto acervo confiado à Biblioteca de Zurique por Elias Canetti (1905-1994), Nobel de literatura de 1981, e um dos mais importantes escritores de língua alemã do século XX, autor do nunca assaz louvado romance “Auto-de-Fé”, muito embora sua determinação de que só fosse divulgado 20 anos após sua morte, ou seja, em 2024, desde 2005 a filha Anna vem dando a público algumas peças desse autêntico patrimônio cultural.

Agora, entre outros, acaba de ser publicado, no Brasil, sob o selo da coleção Sabor Literário, da José Olympio Editora, uma pequena antologia de ensaios, anotações, aforismos e conferências do mestre búlgaro, “Sobre os Escritores” ("Über Die Dichter"). As rascantes reflexões de Canetti, uma espécie assim de marca registrada do autor, como não poderia ser diferente, dão a nota e o tom de todo o volume. Da primeira à última linha.

Canetti odeia a crítica literária, considera-a rasteira e permissiva. Nas inúmeras entrevistas que concedeu em vida chegou a classificá-la de “atividade de desocupados”. Anulava-a com um raciocínio, para variar, acidamente sensato –a arte literária não pode ser medida, pesada, sopesada, como não podemos medir ou pesar um vulcão. Ou gosta-se ou não se gosta de suas erupções.

Ah, gentil leitor, ninguém sai o mesmo deste “Sobre os Escritores”. Como diz com precisão um dos organizadores da coletânea, o germanista suíço Peter von Matt, “a sua veneração era devoração; o seu desprezo, um vômito”. A edição brasileira, diga-se logo, traz uma tão minuciosa quanto brilhante apresentação do mestre Ivo Barroso, além do lúdico & lúcido posfácio de Von Matt, o que enriquece ainda mais o livro, na já famosa coleção criada pela editora Maria Amélia Mello.

Quase uma centena de prosadores-poetas, ou poetas estrito senso, passam sob os furibundos bigodes de Elias Canetti. Guiados pelo condão do entusiasmo ou do nojo, legítimo considerar, ninguém escapa e ninguém se salva.

Convém aludir também às cambiâncias da língua alemã ali onde “dichter” tanto pode significar “poeta” quanto “escritor”. E aí o mestre búlgaro usa e abusa da ambiguidade latente de ambos os significados. Nunca sabemos se ao mencionar, por exemplo, Kafka, um notório prosador, Canetti está a se referir a um ficcionista ou a um “acovardado” autor de elegias... É sempre tênue a fronteira que separa um “fetiche” do outro, num caldeirão onde, ao fim e ao cabo, tudo parece se misturar.

Dono de um saber enciclopédico, ancorado sobretudo na leitura voraz que empreendeu de praticamente toda a filosofia, e não só a “tradicional”, mas igualmente a dos hindus, persas, chineses, além da que subjaz nas lendas ou nos mitos –judaicos ou não–, plurilíngue em várias áreas de interesse, notável estudioso da Bíblia, Canetti é um dos últimos eruditos, tal como ainda o concebia o mais que findo século XX.

Em nosso tumultuário início de novo milênio, neste século XXI rasteiro e marcado pelo terror sem nome nem cara, não há mais lugar para saberes “renascentistas”, digamos, além do twitter, dos blogs e dos chats da hora.

Elias Canetti é um dos derradeiros dinossauros de um tempo em que a velha "ars litteraria" ainda transformava as pessoas, promovia autênticas revoluções individuais e não se limitava a constituir apenas uma das muitas ocupações do "dolce far niente" dos fins de semana de enfarados executivos, ao lado do jet-ski, dos barcos de luxo ou das lanchas voadoras...

E, como tal, não se espere do gênio búlgaro afagos ou deslumbramentos. Ler, para ele, é mais que escrever. E ler a literatura que se ama ou se odeia é paradoxalmente a mesma coisa, dentro desta ótica disturbada e disturbadora de quem viveu o livro (e, claro, por consequência, a literatura) não como “divertissement”, mas como letais doses de veneno.

Viver, para Canetti, é um pesadelo do qual só acordamos depois de mortos, se é que morremos. Até esse fato, mais que óbvio, Canetti coloca pernosticamente em dúvida. Segundo ele, os escritores morrem porque são, em essência, imortais. Vivemos deles, nos nutrimos de seus cadáveres insepultos, amamos neles a sua morte imortal.

Ao falar de Sófocles ou de Platão, de Plutarco ou de Ovídio, do para ele “pífio” Sartre ou dos “tristemente pequenos”, em sua grandeza (!), Marcel Proust ou Saint-Simon, de Kant ou de Hebbel, penso que Canetti resume tudo no seguinte parágrafo quando trata dos diários do suicida Cesare Pavese, um dos raros italianos mencionados por ele, além de Dante:

“Quando ontem à noite eu quis morrer na mais profunda humilhação, abri seus diários e ele morreu por mim. É difícil acreditar: através de sua morte, eu renasci hoje. É possível reconstituir esse processo misterioso, mas não quero fazê-lo. Não quero tocar em nada. Quero calar sobre isso”.

Autor de um estudo referencial sobre Kafka, “O Outro Processo - Cartas de Kafka a Felice”, editado no Brasil pela Companhia das Letras, em 1990, na reunião de ensaios “A Consciência das Palavras”, apesar de instrumentalizar suas reflexões no que há de mais freudiano e/ou psicanalítico, Canetti, sabemos, abominava Freud. Neste “Sobre os Escritores”, não mais que duas linhas a referir o velho –e seminal– Doktor Sigmund:

“Freud só se tornará interessante depois de ficar totalmente esquecido durante muito tempo. Se eu fosse Freud, sairia correndo de mim mesmo”.

O livro recém-lançado no Brasil abriga algumas conferências de Canetti, todas referentes aos escritores que emprestaram o nome a prêmios literários que recebeu dentro ou fora da Áustria. A mais longa e seguramente a mais candente delas diz respeito a Karl Krauss (1874-1936), o ídolo que ele desejava matar, de preferência a pauladas, como sugere o (lancinante) texto da palestra.

Da aula proferida por Kraus, a que é levado a assistir, por amigos, em 1924, até muitos anos após a precoce morte do autor, e depois também de ler, reler e treler toda a obra do poeta e dramaturgo, o desejo, mais que latente, do conferencista, é o de assassinar em público –e de preferência escandalosamente– o escritor que lhe consumiu tanta energia e à sua revelia, à revelia do leitor Canetti, o transformou para sempre.

Nunca deixa transparecer se para pior, ainda que insinue integralmente isso em sua exasperação constante, em seu ódio nem um pouco dissimulado, em sua paradoxal paixão pelo escritor nascido na então Boemia (hoje parte da República Tcheca).

Destaca, na famosa conferência, o ódio ao ódio que Krauss o levou a carregar, num texto cuja lucidez mais que corta, queima e incendeia, como tudo, aliás, no idiossincrático Canetti:

“Um inimigo de Karl Krauss era para mim um ser desprezível, amoral; e, mesmo que não me pusesse a eliminar essas pretensas pragas, também tinha sim, preciso confessá-lo, envergonhado –sim, não posso dizê-lo de outro modo: os meus ‘judeus’, pessoas de quem eu desviava o olhar quando as encontrava em estabelecimentos públicos ou na rua, que não mereciam um único olhar meu, cujas vidas não me interessavam, que para mim eram desprezadas e excluídas, cujo toque me profanaria, que eu com toda seriedade não considerava mais parte da humanidade: as vítimas e os inimigos de Karl Krauss”.

Mas nem tudo são flores nesta reunião de ensaios de Canetti. Muitas das anotações que procede sobre escritores de diversas raízes e matizes, por vezes numa repetição enfadonha em torno dos mesmos temas, sugerem raspas de tacho em que são pontuais os herdeiros de grandes nomes literários.

Há justo aí a pressa que o autor assinalou expressamente para que a recusassem admiradores ou desafetos, familiares ou discípulos. O ano de 2024, em que protocolou, por via testamentária, para que viessem a lume, sobretudo as suas memórias, convenhamos, está ainda muito longe.

“Sobre os Escritores”, um volume de 210 páginas, sugere uma urgência e, com isso, um atabalhoamento “organizatório” que o escritor búlgaro certamente receberia, bem a seu modo, a exemplo de uma deliciosa “insolência”, logo depois do Nobel:

“Os organizadores de antologias são indivíduos nefastos que roubam do leitor o discernimento, a capacidade de escolher entre uma coisa e outra. Não há nada mais intolerante do que organizar o inorganizável”.

Mas Canetti não podia falar muito em “tolerância”, em sentido amplo, como lembra o ensaísta argentino Tomás Eloy Martinez, citando Susan Sontag, num artigo mais ou menos recente para o “New York Times”, do qual me permito, por sua lucidez paradoxalmente ( de novo!) canettiana, transcrever aqui um breve excerto:

“Os candidatos ao Nobel de 1981 eram Canetti, o argentino Jorge Luis Borges e o colombiano Gabriel García Márquez, que receberia o prêmio no ano seguinte. García Márquez sempre foi muito discreto e evitou pronunciar-se sobre o fato de que Borges fora um postergado perpétuo. Ele citou, sim, que alguns acadêmicos de Estocolmo valorizavam muito mais os poemas borgianos do que suas ficções.

Segundo Muchnik, Canetti disse algo parecido naquela véspera de glória: ‘Eu não daria o prêmio a Borges. E não por razões políticas, que não são poucas, inclusive a medalha que ele recebeu das mãos desse tal Pinochet. Não o daria porque sua literatura é trivial, bem escrita mas superficial como o xadrez.’

Canetti era um gênio e, como escreveu Susan Sontag, ‘era também parcial, injusto e intolerante com os povos sem história’. Por isso entendia tão mal a Borges, que, sendo originário de um povo sem história, sentia a necessidade de criar-lhe uma".

Por essas e por outras, vale ler e até reler mais este título da sempre oportuna coleção Sabor Literário. É que, no caso, s Canetti é um demônio lascivo e tonitruante, ou um sinistro “serial killer” a nos ensinar o que deve ser esquartejado, a seu tempo e hora. Impiedosamente. Por puro amor – à verdade.


O livro:

"Sobre os Escritores", de Elias Canetti. Tradução de Kristina Michahelles. José Olympio Editora. 210 págs., R$ 32.


Publicado em 14/11/2009

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Wilson Bueno
É escritor, autor, entre outros livros, da novela "Meu Tio Roseno, a Cavalo" (Editora 34) e de "A Copista de Kafka" (Planeta).

 
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