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BIOGRAFIA

Devoração silenciosa
Por Cilaine Alves Cunha/Jornal de Resenhas

Esgotado há décadas, "A Juventude de Machado de Assis", de Jean-Pierre Massa, ganha nova edição

Trópico edita a seguir artigo que faz parte do novo número de "Jornal de Resenhas"; parceria vai publicar mensalmente um artigo ainda inédito


Raridade bibliográfica, "A Juventude de Machado de Assis", de Jean-Michel Massa, ganha finalmente uma segunda edição. A obra deslocou, a partir de sua publicação, em 1971, os critérios metodológicos das biografias então existentes sobre Machado de Assis, desmontando a imagem que dele se fazia. Concebido como biografia intelectual, o livro entrelaça vida, obra e tempo, recuperando a experiência juvenil do escritor e o período da história cultural do país, então pouco conhecidos.

Ao iniciar as suas pesquisas, Massa defrontou-se com uma linhagem de estudos sobre a vida de Machado de Assis que, protagonizada em 1916 pelas conferências de Alfredo Pujol, consolidou-se na década de 30, sobretudo com Lúcia Miguel Pereira. Essa tradição tornou-se responsável por uma escrita biográfica que empresta da ficção machadiana, da medicina eugenista, da psicologia e do melodrama romântico os fios com que tece a narrativa de sua vida.

Em "Prosa de Ficção", Lúcia Miguel Pereira sedimentou um padrão de abordagem do período que se tornou referência. Partícipe de uma geração que, com Gilberto Freyre, começa a valorizar a presença do mulato na cultura, seu "Machado de Assis - Estudo Crítico-biográfico" (1936) hiperdimensiona, no entanto, o papel da mestiçagem, da origem familiar e da epilepsia na fatura do escritor.

Ao aplicar temas de sua ficção –como a ascensão social, o favor e a dependência– para interpretar sua vida, Lúcia Miguel desenha o perfil de um Machado impactado pela “dolorosa consciência” de sua origem pobre e mestiça. Também a epilepsia teria determinado sua romântica personalidade tímida e retraída, já debilitada, segunda a autora, por “antecedentes paternos mórbidos”.

Jean-Michel Massa reorganiza em um padrão mais coerente os escassos dados que já se conheciam sobre a vida de Machado. Descarta depoimentos contraditórios, antes privilegiados, muito posteriores à morte do escritor, preferindo recorrer a fontes documentais. A composição da biografia apoiou-se em grande medida no farto material que Massa reuniu em "Dispersos de Machado de Assis" (1965), uma compilação de textos de Machado até então inéditos em livro. Desfez ainda a equivocada autoria de alguns e colocou a de outros em dúvida. Sob a compreensão de que a crônica é um gênero que oferece menor possibilidade de ficcionalizar a vida, "A Juventude de Machado de Assis" privilegia a leitura da crônica literária, teatral e política do autor de "Dom Casmurro". A pesquisa de sua biblioteca e a análise de seus poemas, peças teatrais e contos escritos até 1870 adensam os resultados obtidos.

Os capítulos iniciais do livro revisam as biografias existentes, corrigindo seus equívocos. Relativizam a origem paupérrima de Machado, mostrando que os Assis vieram ascendendo há três gerações, já que o pai do escritor, filho de escravos forros, tornou-se, como pintor de paredes e dourador, um profissional respeitado pela família que o protegia e pela paróquia.

Massa considera como lenda a hipótese de que Machado tenha aprendido a ler furtivamente num colégio de elite enquanto vendia balas para a madrasta, entre outros esforços que ela teria empreendido, supostamente decisivos para a alfabetização do enteado. A suposição alimentou o mexerico de que, ao ascender na carreira burocrática e literária, o escritor tivesse desprezado uma figura decisiva nesse processo.

Para o biógrafo, como os pais eram letrados, assinantes do "Almanaque Laemmert", o adolescente já estava provavelmente alfabetizado aos 15 anos de idade, quando do segundo casamento do pai. Para minimizar a suposta fragilidade da saúde do criador de Brás Cubas, o biógrafo põe em evidência o fato de que ele sobreviveu ao sarampo que sacrificou a irmã, à fatal tuberculose da mãe e à febre amarela que assolou o Rio no século XIX. Lembra ainda que o ritmo e a rigorosa disciplina de trabalho que Machado se impôs são incompatíveis com uma saúde permanentemente fragilizada.

O restante do livro procura desvelar, pelo fio cronológico, o pensamento, as circunstâncias da obra literária e a ação cultural e política do jovem Machado de Assis. Articula a descrição de sua vivência pessoal –os círculos de amizade, os amores, o casamento, as atividades no jornalismo e na cena política e teatral– com a criação literária e com o panorama da vida cultural, política e econômica do Rio de Janeiro entre 1855 e 1870: as revistas e jornais em que Machado se empregou, as associações artísticas de que participou, as reuniões em torno do editor Paula Brito, os saraus literários e as reviravoltas no cenário político do Rio.

Para recompor os passos da vida intelectual de Machado de Assis, Massa seleciona três momentos ou balizas. Desde 1855, a incursão inicial no lirismo romântico contou com a forte presença do amigo e poeta Francisco Gonçalves Braga, adotado como mestre. Machado destina então à literatura a função de edificar e aperfeiçoar o espírito.

Desde 1862, a amizade com o jornalista Charles Ribeyrolles, com o escritor Augusto Zaluar e a leitura de Eugène Pelletan e Victor Hugo desembocam paulatinamente em sua adesão ao regime republicano e aos princípios do liberalismo. O engajamento desencadeia a defesa da utilidade da arte para diagnosticar os problemas da vida social, difundir ideais políticos e o protesto contra as mazelas do país.

A partir de 1867, após um decepcionante envolvimento no jornalismo político e na cena partidária, Machado declara-se livre das escolas literárias. Começa a adotar o estilo conciso e prudente e a intensificar o humor na ironia tomada como técnica de “devoração silenciosa”. Procurando afirmar a arte como arte –invenção e artifício–, define o seu exercício como leitura e interpretação da vida cotidiana e, diga-se ainda, como imitação crítica de textos do passado e do presente. No fim desse processo, em 1869, Machado atinge a maturação de seu talento, pronto para se lançar também no romance.

De um tempo a outro emerge da leitura do livro um Machado de Assis nem infeliz, pária ou aristocratizado. Sobressai-se ainda a imagem do arabesco que dá conta de uma prática literária que, ao se definir, debruça-se sobre si mesma, para se refazer, rearticular e se redefinir em novas bases, própria do ironista que tem na reflexão e na análise da auto-reflexão seu principal método de pensamento.

Ao longo do livro, algumas marcas do tempo comparecem na idéia de caráter nacional, em frases como “espírito de contradição que caracteriza os franceses” e “coquetterie masculina tão peculiar às civilizações latinas”. A defesa apaixonada da quase exclusividade da cultura francesa, e em menor grau da portuguesa, na conclusão do processo de formação intelectual de Machado de Assis corresponde à prioridade concedida, na biblioteca machadiana, a autores como Lamartine, Chateaubriand, Mme. de Staël, George Sand, Alfred de Vigny, Victor Cousin, Alexandre Dumas, pai e filho, Alfred de Musset, Émile Augier, Octave Feuillet etc.

Permanece na sombra o diálogo de Machado com os moralistas franceses, os clássicos greco-latinos e outras tradições européias. A pesquisa do grau de conhecimento que Machado adquiriu dos idiomas alemão, espanhol, inglês, italiano e francês foi desdobrada por Massa no pequeno volume "Machado de Assis, Tradutor" (ed. Crisálida).


O livro:

"A Juventude de Machado de Assis (1839-1870)", de Jean-Michel Massa. Tradução: Marco Aurélio de Moura Matos. Ed. Unesp. 582 págs., R$ 70.


Publicado em 14/11/2009

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Cilaine Alves Cunha/Jornal de Resenhas
É professora de literatura brasileira na USP e autora de "O Belo e o Disforme - Álvares de Azevedo e a Ironia Romântica" (Edusp/Fapesp)".

 



 
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