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política
LIVRO

Quem controla a “sociedade de controle”?
Por Denise Mota

Pesquisadora analisa os desdobramentos da crescente vigilância social e aponta mecanismos de resistência

No restaurante, na rua, em casa, no trabalho. A “sociedade de controle” está em todo lugar e avança a passos agigantados. Lançado recentemente, o livro “Sorria - Você Está Sendo Controlado” (ed. Summus) enumera, discute e propõe táticas de resistência a esse estado de permanente vigilância que vivemos.

A discussão é proposta pela psicóloga Sonia Regina Vargas Mansano, professora do Departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade de Londrina, que iniciou a pesquisa por conta de sua tese de doutorado em psicologia clínica “Sociedade de Controle e Linhas de Subjetivação”, estudo defendido na PUC-SP. Como marco teórico, a reflexão conta com o pensamento de Michel Foucault e Gilles Deleuze para a análise de muitos exemplos cotidianos de controle, desde placas que perguntam “Como estou dirigindo?” ao famoso “Visite a nossa cozinha” ou o inescapável “Sorria, você está sendo filmado”.

Em múltiplas searas do cotidiano, o controle vem sendo implementado e refletido. Nos últimos tempos, também o cinema começa a se ocupar das várias facetas dessa realidade.

Filmes como “As Viúvas das Quintas-Feiras” (2009), recentemente estreado na Argentina –que trata de um triplo homicídio dentro de um condomínio fechado—, o mexicano “A Zona” (2007), relato da perseguição a um bandido empreendida pelos moradores também em um bairro de luxo, ou o britânico-dinamarquês “Red Road” (2006), narrativa premiada pelo júri em Cannes sobre uma funcionária pública que se utiliza das câmeras de Glasgow para fazer justiça com as próprias mãos, espelham esse traço marcante da contemporaneidade.

Estima-se que, só na Grã-Bretanha, já existam 4 milhões de câmeras instaladas em 500 localidades da região com o fim de vigiar a população. Na França, 300 cidades contam com o mesmo sistema, estabelecido com o objetivo principal de reduzir a criminalidade. Diversos estudos realizados na Inglaterra atestam, no entanto, não existir relação entre a utilização desses dispositivos e a geração de uma sociedade menos violenta.

“A constatação de que estamos cada vez mais rodeados por dispositivos de controle, os mais variados, foi uma das condições para definir esse tema de pesquisa. Chamou minha atenção a maneira naturalizada com que as diferentes formas de controle são realizadas e inseridas no cotidiano como algo banal, corriqueiro e, numa outra dimensão, como são amplamente desejadas, desmanchando a ideia de que o controle é simplesmente imposto de fora por alguns. Dar visibilidade a isso, recorrendo à descrição de situações do dia-a-dia de pessoas comuns, foi o objetivo maior desse trabalho”, diz Mansano, na entrevista a seguir.

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A proibição do fumo em São Paulo pode ser considerada uma estratégia de controle nos moldes contemporâneos?

Sonia Mansano: Essa proibição aconteceu por intermédio de uma lei, ou seja, por intervenção do Estado. Ela se aproxima daquilo que Michel Foucault denominou em seus estudos como “biopoder”. Este, de maneira bastante rápida, pode ser compreendido como um tipo de poder que, também por iniciativa de Estado, incide sobre a vida, fazendo com que ela seja administrada de modo contínuo, inclusive nos hábitos mais cotidianos.

Essa forma de governar foi sofrendo transformações no decorrer da história e, em nossos dias, ela é concretizada a partir de várias áreas de conhecimento que atuam no sentido de melhorar a qualidade de vida da população. Um dos fatores que fortalece esse tipo de estratégia governamental é a veiculação de índices estatísticos que servem para disseminar informações e garantir o apoio da população (ou de parte dela), provocando o desejo por um prolongamento da vida e levando as pessoas a acolher esse tipo de proibição em favor da saúde.

Assim, trata-se de uma estratégia de controle no contexto contemporâneo, toda pautada numa forma de governar marcada pelo biopoder. Cabe analisar, entretanto, em nome de qual tipo de vida essa iniciativa governamental ganha força e apoio numa parcela do coletivo.

    
As comunidades têm uma relação ambígua com as câmeras de vigilância nas ruas. Muitas pessoas acham que isso é positivo, porque evitaria o crime. Outras as consideram invasivas. O Google agora tem um sistema que, por meio de câmeras instaladas em cidades, torna possível ver esses locais, em um sistema que é um misto de divertimento, vigilância e turismo virtual. Esse crescente uso de câmeras em locais públicos, que tem encontrado pouca resistência dos cidadãos, não estaria preparando as mentalidades para um controle extensivo e maciço da vida urbana?

Mansano: Em uma entrevista datada de 1978, Foucault diz: “Se o mundo está a ponto de se tornar uma espécie de prisão, é para satisfazer as exigências humanas”. Temos, nos exemplos trazidos por você, a confirmação de que os dispositivos de controle funcionam à medida que colocam em evidência a expressão de um desejo da população, muitas vezes pautada no medo e na expectativa de aumentar a segurança.

O investimento desejante na visibilidade de si e do outro pode ser identificado claramente em seus exemplos. Assim, em diferentes situações, a população em geral é estimulada e convidada a participar dos dispositivos de controle, por meio de ações simples e pontuais. Essa adesão não necessariamente é acompanhada por uma apreciação sobre a dimensão política que está colocada nas práticas de vigilância. Então, no mínimo, vale questionar: a quais dispositivos estamos sendo convidados e convocados a servir neste tempo histórico?

   
Em outra instância dos dispositivos de controle, e que se reportam à vida privada, vemos o êxito internacional de fenômenos televisivos, como os realities shows e a proliferação de blogs, fotologs, vídeos postados na internet, em que muitos expõem não só gostos e hábitos, mas imagens íntimas, confissões. De que forma a sociedade de controle se articula com o desejo de fama imediata, de reconhecimento, de inserção nos circuitos de visibilidade e poder na sociedade contemporânea?

Mansano: Os dispositivos de controle articulam-se nesse cenário que você desenhou. Mas cabe analisar, pelo menos em parte, as maneiras como essa conexão é efetuada. O mais interessante dessa constatação de que as pessoas investem na auto-exposição é recordar que nem sempre foi assim.

A sociedade brasileira, ao longo do século 20, manteve padrões de privacidade. Algumas transformações históricas intervieram para modificar esse quadro. Em termos gerais, podemos assinalar uma mudança no plano dos valores dominantes e socialmente reconhecidos que passou a acolher a possibilidade da “confissão” como uma primeira modalidade de auto-exposição.

Isso aconteceu, por exemplo, nas pesquisas sobre as mudanças nas instituições familiar e escolar, bem como nos consultórios de médicos e psicólogos. Mas a exposição da vida privada nesses espaços institucionais ainda mantinha-se restrita a poucos interlocutores, uma vez que o relato das vivências mais íntimas era, em certa medida, temido.

A partir da relação que se estabeleceu entre a população e esses especialistas, a prática disso que estamos chamando de confessional disseminou-se, passando a existir também na ausência dos profissionais, ou seja, ela ganhou expressão nas relações sociais do dia-a-dia.

Assim, o que há de novo é a expansão desse movimento inicial, pelo qual a “confissão” vai ganhando maior importância e espaço, por exemplo, na mídia. Hoje, a possibilidade de sair do anonimato acaba sendo um projeto amplamente investido por parte dos cidadãos que expõem a sua vida privada. Chama a atenção o fato de que essas iniciativas acabam, por vezes, sendo associadas a algum tipo de diversão ou sendo avaliadas como uma maneira de ampliar a rede de socialização.

   
O governo britânico tem empreendido uma série de medidas dirigidas a combater a insegurança e o terrorismo por meio do controle de pessoas através de equipamentos de vigilância. Em abril deste ano, a ex-ministra de Interior Jacqui Smith chegou a propor que se construísse uma central governamental com dados de toda e qualquer comunicação que se desse por qualquer meio -e-mail, telefone, textos. Em seu livro, você menciona que o medo é um dos mais poderosos aliados da sociedade de controle, uma vez que não só o justifica como coopta indivíduos a colaborar com ele. De que forma acontecimentos como o 11 de Setembro, os atentados de Madri em 2004 e a supostamente onipresente e ininterrupta atuação da Al Qaeda, por exemplo, incorporaram novos valores, tensões e elementos para o controle social?

Mansano: As ações terroristas que você menciona demonstram que o controle, ainda que amplamente disseminado, não se configura como absoluto. Desse modo, lá na cidade considerada sede do capitalismo mundial, amplamente vigiada pelos equipamentos mais sofisticados de controle, o terror se manifestou.

Isso serve para reconhecer que, para além de uma eficiência real dos dispositivos de controle, há também uma expectativa idealizada por uma vigilância absoluta, de natureza defensiva, que nessa hora se desfez. É na constatação desse limite do controle que o medo emerge como componente subjetivo veiculado em diferentes instâncias.

Um outro ponto a ser considerado é que a ameaça de um ataque terrorista coloca populações e governos em estado de alerta permanente. É como se, diante do incontrolável, fôssemos perdendo a capacidade de avaliar o tamanho da ameaça e suas possibilidades reais de efetuação. Mesmo quando o ato terrorista não é concretizado, os efeitos da ameaça acabam sendo grandes, pois fica evidente a desconfiança de que “não foi dessa vez, mas poderá ser na próxima”. Vale dizer ainda que essa ameaça se faz presente na vida do cidadão comum, anônimo e, por vezes, geograficamente distante da possibilidade de enfrentar um ataque terrorista.

   
O sociólogo Michel Maffesoli afirmou recentemente que a busca da construção de sociedades assépticas, formadas por indivíduos sem desvios de conduta, é um dos fatores que terminam por gerar realidades cada dia mais violentas. Não há escapes para a violência natural do ser humano, ele defende, e dá como exemplo a onda recente de estrangulamentos, praticados como brincadeiras, por crianças e adolescentes nas escolas francesas. Como você vê esse raciocínio e de que modo, por conta da sua pesquisa, analisa a relação entre sociedade de controle, intolerância ao “diferente” e negação da existência de idiossincrasias humanas?

Mansano: A expectativa por uma sociedade asséptica, livre de qualquer manifestação violenta, está em circulação nos diferentes contextos da vida em sociedade. Nossa primeira questão é: uma expectativa idealizada como essa tem chances de se realizar? Se vale o registro histórico, e ele vale muito, podemos dizer que não. Nesse sentido, a violência subsiste e se manifesta de diferentes formas.

Quando a sociedade era caracterizada pelo dispositivo disciplinar, as instituições encarregavam-se da contenção dos atos violentos. Segundo Deleuze, o enfraquecimento dos espaços institucionais fechados (sociedade disciplinar) e a consequente circulação livre dos indivíduos pelo espaço social aberto acontecem de maneira concomitante à elaboração de novos dispositivos, voltados agora para a vigilância e capazes de acompanhar, em parte, o movimento desses múltiplos agentes sociais, controlando-os.

Nesse sentido, os espaços abertos estão cada vez mais vigiados e equipados com tecnologias avançadas que buscam dar maior visibilidade àquilo que pode transgredir a manutenção da ordem social.

Assim, uma análise sobre a violência advinda desse cenário de controle coloca-nos num impasse: houve algum momento histórico em que a violência esteve ausente? Não estaríamos diante de uma expectativa idealizada que anseia por uma sociedade livre de atos violentos?

     
Em “Sorria…”, você aponta a possibilidade de que se criem individualmente comportamentos de “resistência” a essa sociedade de controle. Quais seriam esses comportamentos? Que alternativas possui o cidadão comum?

Mansano: A resistência, de acordo com o referencial teórico desse estudo, envolve a criação de novas formas de vida que se atualizam a partir do encontro com o outro. Desse modo, seu exercício traz uma dimensão que é de ordem política, uma vez que a ação individual está sempre pronta a ser apropriada coletivamente, enquanto estratégia de criação compartilhada, assim como o que é de domínio coletivo pode ser utilizado, com mudanças, numa situação particular.

 
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