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a.r.t.e.
MPB

O violão popular sem nostalgia
Por Henry Burnett

Instrumento se transformou no Brasil em um emblema da canção e da própria história da música do país

"a madeira violácea do violão
comunicando aos convivas, com voz
doidivana divina, a comunhão
das taças na sala de taco após

as bodas do iluminado dragão
e o estrondo da granada que em nós
a mão amada detonou, algoz,
sem destruir, por pouco, o coração

bebamos agora sem medo, refeitos
do atentado do amor e seus efeitos
desnorteantes, bélicos e belos

brindemos aos gigantes amarelos
se erguendo ao dia, às minas no jardim,
à viola, ao vinho, ao violáceo fim"

(Paulo Vieira, do livro inédito “Retruque”)


Em uma bela crônica chamada “Literatura de violão”, do livro "Flauta de Papel", Manuel Bandeira relembra a figura de um violonista espanhol –citado por Baudelaire em seu clássico "Os Paraísos Artificiais"– que acompanhava o virtuoso e célebre violinista Paganini em suas viagens boêmias. Bandeira se admira com o fato de que os ouvintes que se embasbacavam com os improvisos de Paganini também percebessem e se maravilhassem com os sons médios do violão do espanhol, que, acreditava Bandeira, naturalmente seria apagado pelo timbre estridente do violino.

Relembro da crônica num momento em que um belo e ousado disco gravado com violão, voz e ruídos chama atenção e expõe uma admiração quase exacerbada de parte da crítica, o CD "Sem Nostalgia", de Lucas Santtana. O que atrai os bons ouvintes para esse instrumento artesanal em pleno século XXI, quando a técnica de produção musical adquiriu um potencial quase infinito e o violão poderia ser considerado peça de museu?

No Brasil, o instrumento transformou-se num emblema da canção, que, por sua vez, é um emblema da própria história da nossa música. Se pesquisarmos sobre as origens da canção popular urbana, encontraremos rico material iconográfico sobre o uso quase onipresente do instrumento pelos compositores populares. Na música folclórica igualmente.

Uma das razões que explicam a popularidade do instrumento é sua simplicidade. Diferente do piano, do violino, do sax e de tantos outros instrumentos, o violão se deixa tocar de modo diletante por qualquer um. Sempre foi assim. Qualquer jovem pode tomá-lo nas mãos e, em poucas semanas, começar a montar alguns acordes básicos, com os quais pode acompanhar um número grande de canções.

Tal facilidade resultou numa popularização sem igual, aliada ao fato de que, em moeda atual, pode-se comprar um violão razoável com R$ 200 (mas eles chegam a R$ 10 mil ou mais). Comprar na banca de revista os antigos, e talvez ainda hoje utilizados “vigus” (abreviatura da revista “Violão e Guitarra”), abria a possibilidade de ampliar o repertório em centenas de temas. Daí à composição foi um passo. Dessas facilidades todas nasceu a maioria absoluta dos compositores nacionais.

Salvo Tom Jobim, poucos artistas consagrados não o utilizaram para compor e tocar. Enumerar aqui seria criar um texto só com nomes. Noel Rosa compunha com ele, Dorival Caymmi imortalizou o formato violão e voz, João Gilberto fez dele uma obrigação. Depois Chico Buarque, Caetano, Djavan, Alceu Valença, Adriana Calcanhoto, Vitor Ramil... a lista, de verdade, não teria fim.

Ao contrário do que essa presença tão marcante poderia gerar –um nivelamento estilístico–, ocorreu a conhecida geração de uma multiplicidade sem par na música urbana do século passado. Ao mesmo tempo, essa grande produção é constantemente contrastada com nossa pouca cultura clássica.

Pelo menos do ponto de vista tonal, é uma calúnia, pois o violão erudito brasileiro é dos mais expressivos. Villa Lobos, Dilermando Reis, Canhoto da Paraíba, Paulinho Nogueira, Baden Powell, Turíbio Santos, Raphael Rabello ou, mais recentemente, Yamandu Costa. A lista, se não é igualmente gigante, encheria também várias páginas.

Sabemos o que essa crítica significa. Requentada em décadas, trata-se daquela mesma lengalenga contra nossa “miséria musical”. A mesma que já foi separada tantas vezes entre erudito e popular, nacional e estrangeiro, sofisticado e atrasado... A lista de nossas falhas vai longe e, ainda bem, a música de violão também.

A reivindicação de Manuel Bandeira –acerca da necessidade de se escrever mais para violão– foi atendida quase ao revés: multiplicaram-se tentativas de estabelecimento dos pentagramas para a herança cancionista. Os chamados "songbooks" popularizados por Almir Chediak agora são publicados por várias outras editoras.

Claro que, aqui, estou tratando apenas desse violão dos bardos contemporâneos, que serve para acompanhar o canto, um violão que nem sempre atinge ou precisa atingir o domínio dos virtuoses –como sempre, o Brasil tem suas exceções: João Bosco e Gil, por exemplo. Por isso, e também por diletantismo, não sei como anda a escrita instrumental.

A simplicidade com que se pode dedilhar o violão e sair tocando sozinho também mascara a complexidade do instrumento. Se por um lado ele se deixa dominar, por outro exige dedicação similar aos demais instrumentos de orquestra. No domínio instrumental, nossa variedade de intérpretes é mundialmente reconhecida: pensemos no Duofel, em Toninho Horta, Marco Pereira, Paulo Belinati, Badi e o duo Assad.

Daí o estranhamento de não ter havido evolução na história do seu longo uso no Brasil. Evolução no sentido de ter sido desde sempre um companheiro dos autores, e que seu uso permaneceu limitado. Mas basta ouvir alguns compositores se acompanhando ao violão para logo perceber que cada um toca a seu modo, mesmo sem grande virtuosidade.

Ele também é dado a mistérios. Sabemos como soa o violão de Caymmi e o de João Gilberto. Mas não sabemos como soa o de Chico Buarque ou o de Milton Nascimento. Ben Jor trouxe o violão para o domínio percussivo, seguido e expandido por Lenine, Nelson Cavaquinho fez dele algo tão arrastado e sujo como sua voz, e ao preterir o cavaquinho por ele nos deu o sumo da tristeza que não precisa de mediação nem de invenção de alegrias fúteis.

Lucas Santtana tem dito que não faria sentido gravar um disco "violão e voz" no formato usado por Caymmi, João ou Caetano. Desconfio. Não por discordar da necessária transgressão que ele opera ao intitular seu experimento de “Sem Nostalgia”, mas por ver que ele também deixa ouvir, ao mesmo tempo em que explora ruídos aos montes, o timbre limpo do que parece ser um velho Di Giorgio.

O que seu disco faz pelo instrumento é retirá-lo da pecha de “acaba festa” (aquele momento que, no meio da balada, um sujeito avisa que vai “fazer uma de viola”); seu disco é conceitualmente um marco, pela independência e pelo talento com que explora os desdobramentos redivivos do nosso seis cordas.

Adriana Calcanhoto mostrou no seu recente disco “Maré” o quanto o violão ainda rende de lirismo e beleza límpida, apolínea. E não é um disco conservador. Talvez seja ela a única a conseguir juntar pontas entre o “passado” e a “modernidade” sem parecer uma discípula. Ela apenas não rejeita a sonoridade cristalina da canção tradicional. Não por acaso, no documentário “Palavra Cantada”, ela é figura central. É de sua boca que ouvimos algo digno de bom ufanismo, que os estrangeiros ainda se interessam pelo português por uma única razão: para poder cantar nossas canções.

Está por chegar o novo projeto de Gilberto Gil, gravado... com violão e voz. Vai se chamar “Bandadois”. Quem quiser, já pode conferir um dos pontos (creio que baixos) do novo projeto, no You Tube: a participação de Maria Rita. Poucos compositores são tão completos com o violão em punho. A base do novo disco/DVD, ao que parece, é o excelente “Giluminoso”, lançado encartado no livro homônimo, de Bené Fonteles, em 1999, e relançado algum tempo atrás pela Biscoito Fino/Gegê. Gil regrava algumas de suas canções mais importantes, reinventando-as em lindos arranjos ao violão. Resta esperar. Não tem erro.

Claro que tudo isso é fruto da desenfreada necessidade do “novo”. Às vezes, o “velho” é o futuro que passou e nem vimos. O que pode ser mais contemporâneo que Nelson Cavaquinho ao violão? O problema é sempre achar que, parafraseando ao revés outro poeta, toda loucura é genial e toda lucidez é velha.


Publicado em 2/11/2009

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Henry Burnett
É doutor em filosofia pela Unicamp e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo. http://www.myspace.com/burnetthenry

 
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