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audiovisual
MOSTRA EM MADRI

Melodramas da libertação
Por Christina Stephano de Queiroz


Cena do filme "Rojo Oriental", da tunisiana Raja Amari
Reprodução

Mesmo sob a sombra da censura, filmes árabes discutem a força do desejo feminino

Em uma sequência de quadros de Sandro Botticelli (1444–1510), no Museu do Prado, está retratada a história de Nastagio degli Onesti, que, apaixonado, pede a mão de sua amada em casamento. Ela o rejeita e, em um passeio pelo campo, refletindo sobre sua dor, depara-se com o fantasma de Guido degli Anastagi, envolvido em uma perseguição desesperada.

Esse outro jovem também padecia da dor da rejeição: ao ser desprezado pela amada, ele se mata. Ela, completamente indiferente ao suicídio, nem imagina o castigo que a Providência lhe preparava: o fantasma de Guido estava fadado a, uma vez por semana, persegui-la até alcançá-la. Quando finalmente conseguisse, deveria deitá-la de barriga para baixo e, com uma faca, arrancar seu coração pelas costas. Não satisfeito, ainda teria de jogar seu órgão despedaçado para que os cachorros o devorassem.

A pintura renascentista conta a história de homens que, enlouquecidos pelas mulheres, vivem o sentimento amoroso como um desatino, um descontrole. Mesmo concebidas sob a influência de um entorno artístico “ocidental”, as imagens de Botticelli estabelecem uma relação curiosa com a concepção que a cultura árabe tem do amor e da mulher.

De acordo com a visão árabe, o amor e o erotismo são forças criadoras primordiais. Para os muçulmanos, não existe separação entre corpo e alma, entre instinto e razão, como ocorre em outras religiões. E essa característica influencia a maneira como se observa a arte feminina de sedução –chamada de “fitna”, palavra que é sinônimo de caos, desordem e desobediência a Deus.

Essa idéia da mulher como perturbadora da ordem e causadora de um desejo incontrolável foi central na mostra “Amor y Deseo en el Cine Árabe”, organizada recentemente pela Casa Árabe de Madri. Com o objetivo de abordar pontos de vista de diferentes diretores e épocas sobre essa noção, os filmes projetados também retrataram a urgência do desejo amoroso e a impossibilidade de sufocá-lo, mesmo nos ambientes mais repressivos.

Realizados sob a sombra da censura, os filmes coincidem, ainda, ao mostrar visões do amor e do desejo desde uma perspectiva feminina. “O conceito de ‘fitna’ sempre esteve presente no cinema árabe: a mulher sempre foi retratada como um símbolo emblemático, capaz de desequilibrar a sociedade”, analisa Alberto Elena, organizador da mostra e professor na Universidade Carlos III, de Madri.

Para o especialista, no entanto, há uma diferença na leitura que se faz dessa mulher desestabilizadora, hoje, se comparada à visão dos filmes da década de 50. “Antes, nos filmes, as mulheres eram sempre boas e castigadas se cometiam alguma falta à tradição. Carregavam, assim, um estigma negativo. Agora, são personagens positivos, seres desejantes que querem experimentar sua sexualidade e não ser reconhecidas como vítimas da sociedade”, compara.


Sentimentos rebeldes

Rodado em 1957, o melodrama “Insomnio”, do egípcio Salah Abu Seyf (1915–1996), pode servir como ponto de partida para ilustrar essa mudança de visão. Fugindo do padrão de comportamento dos personagens femininos da época –que sempre encarnavam a heroína sofrida, casta e ingênua, que se convertia em vítima dos homens e da tradição-, a protagonista Nadia rompe com estereótipos.

Interpretada pela estrela Faten Hamama, que, inicialmente, se recusou a aceitar o papel por medo da reação do público, Nadia é uma jovem rica de 18 anos que mantém uma relação obsessiva de ciúmes e possessão com o pai divorciado. A situação chega a um limite quando o seu progenitor se casa novamente, e Nadia utiliza todas as suas forças para destruir o matrimônio feliz. À medida que observa o próprio desejo sexual se desenvolver, ela passa a sentir-se cada vez mais incomodada com a felicidade do pai.

Seu conflito psicológico cresce, e ela não sabe como se comportar diante desse ciúme destruidor. Afetada pela completa ausência da mãe, apresenta um comportamento ambíguo, pois sabe que atua mal ao buscar a ruína do casamento, mas, ao mesmo tempo, não sabe como evitá-lo.

Para o professor Alberto Elena, assim como outros melodramas, “Insomnio” conta uma história desde o ponto de vista da vítima feminina, fazendo com que seu sofrimento seja encarado como algo admirável. “O melodrama é o gênero da compaixão e sempre se articula em torno da figura do desejo suspendido ou insatisfeito. Nesse caso, é um desejo aniquilador e autodestrutivo, além de socialmente perigoso, que somente permite restaurar a ordem por meio da renúncia e da resignação dos personagens que vivem essa situação”, diz.

Nadia encarna esse desejo desequilibrado e aniquilador, mas não é vítima passiva, e sim mulher maliciosa que não sabe lidar com os próprios instintos –e o ciúme doentio é uma evidência disso.

O diretor Salah Abu Seyf -um dos primeiros egípcios a fazer cinema realista em uma época em que predominavam filmes comerciais “a la Holywood”- foi transgressor ao retratar essa mulher feroz, ao mesmo tempo ambígua e confusa. Porém, no final, a força da moral fala mais alto, e o comportamento malicioso e descontrolado da personagem é castigado -algo que pode ser considerado um efeito da intransigente censura do país que, nos anos 50, proibia filmar classes sociais mais humildes, entre outras coisas.


Acusações de pornografia

Outros filmes mais contemporâneos da mostra também foram alvo de repressão, como é o caso de “Dunia”, que teve o roteiro vetado e foi acusado de ser pornográfico. Para poder se expressar com liberdade, a diretora libanesa Jocelyne Saab teve de optar por caminhos alternativos, entre eles o uso de cores nas roupas e nos cenários que representassem estados de ânimo dos personagens.

Assim, como resposta ao seu comportamento desequilibrado e transgressor, Nadia sofre grave queimaduras. A punição pelo desrespeito às leis sociais e o fato de haver sido submetida a um castigo pressupõe, ainda, uma idéia de passividade ante o destino, o que se relaciona com a idéia de “maktub”, que, na cultura árabe, significa “está escrito”. Em outras palavras, essa noção diz que o homem muçulmano nasce, vive e morre sob a vontade de Deus e nada em sua vida ocorre sem uma razão.

A última cena mostra-a suplicando o perdão do pai, que personifica o peso da tradição e da família. Por isso, se a obra de Abu Seyf é transgressora, no sentido de expor abertamente os sentimentos ambíguos de uma mulher que descobre sua latente sexualidade, por outro lado acaba por castigar essa atitude.

Elena conta ainda que, por muito tempo, o melodrama foi considerado um gênero tradicional e conservador, ideia que considera totalmente equivocada. Para ele, a leitura que o filme de Abu Seyf permite sobre a questão da mulher prova que o gênero foi usado por diretores árabes para tocar em temas polêmicos e afrontar a censura. “Esses filmes ajudam a exigir mudanças sociais, por meio de componentes realistas que tratam de problemas da sociedade do momento”, observa.

A protagonista de “Dunia” também personifica a luta da mulher muçulmana para experimentar a sua sexualidade. Mas, como efeito do tempo, que suavizou a influência da tradição na vida cotidiana da sociedade, o seu conflito psicológico é outro.

A protagonista, de 20 e poucos anos, estudante de poesia e bailarina de dança do ventre, busca o verdadeiro sentido do amor. Para isso, escreve uma tese sobre o sentimento, ao mesmo tempo em que quer “viver o amor autêntico” em encontros clandestinos que mantém com um amante.

Nesse filme, o conflito psicológico está relacionado, de um lado, com o desejo de fundir-se com um homem e, de outro, com o de experimentar o corpo livremente. Dunia quer viver o amor, mas será possível experimentá-lo em uma sociedade dominada por códigos moralistas? Onde o amor se realiza, onde atinge sua máxima potência? Na cama com um homem ou na leitura de poesias?

Tendo como modelo a imagem de mãe –mulher independente e sensual, também notável bailarina de dança do ventre–, Dunia parece querer descobrir o sentido do amor, tanto na esfera prática como na intelectual. Ajudada por um professor –que é atacado e fica cego devido às suas idéias libertárias–, a protagonista empreende sua busca em meio a um ambiente onde as mulheres mais velhas tentam impor seus códigos repressivos às mais novas.

Em uma das cenas mais fortes do filme, uma avó segura sua neta de nove anos para que lhe cortem o clitóris com uma gilete –prática que, segundo Jocelyne Saab, atinge 97% das mulheres egípcias. Contrariada por seu professor, Dunia acaba por se casar com o amante, mas, mesmo assim, não consegue liberar sua sexualidade e acaba por abandonar o marido.

Diferente de Nadia que descobre a força do desejo, mas não sabe como controlar seu impulso, Dunia percebe a potência de sua sexualidade e tenta, serenamente, encontrar um caminho para desfrutá-la. Pode-se dizer, assim, que houve um avanço com relação ao papel feminino, uma vez que a protagonista acaba assumindo seus sentimentos, mas tem carência de modelos psicológicos para encarná-los na prática.

Talvez sua mãe tivesse sido sensual, mas não houvesse encontrado o meio de materializar essa sensualidade, a não ser por intermédio da dança. No final do filme, a protagonista aparece sozinha e dança no alto de uma montanha, deixando no ar as respostas para as perguntas que fez.


A dança como libertação

A terceira imagem de mulher da mostra é personificada pela atriz palestina Hiam Abbas, em “Rojo Oriental”, de Raja Amari, diretora da Tunísia. Ela interpreta Lilia, viúva solitária que vive somente para tricotar e esperar a filha chegar da escola.

Um dia, segue um músico de cabaré, Chokri, com quem suspeita que a filha tem uma relação amorosa. Ao entrar no recinto, espaço exclusivo para homens e mulheres de “reputação duvidosa”, se encanta com as cores e movimentos das bailarinas de dança do ventre e também com a música extasiante -figuras tão importantes no filme como a própria protagonista.

Surge, então, uma afinidade espontânea entre ela e a estrela do cabaré, chamada Folla e que lhe estimula a bailar. A dança lhe sai do corpo como um fluxo de ar, tão natural e inerente quanto os movimentos da respiração. Mas o diretor do cabaré reclama que Lilia dança para ela mesma, como se estivesse sozinha de frente para um espelho, e pede a Folla que a ajude a melhorar.

A personagem passa, então, a ter uma vida dupla: de dia é exemplar dona de casa e, à noite, dançarina de cabaré. Com a dança do ventre, libera a sexualidade reprimida, e sua beleza aflora. Acaba por se envolver com o namorado da filha, mas ele logo avisa que a história não deve prosseguir. E, diferentemente do que se pode pensar, Lilia sai da situação sentindo-se feliz e de cabeça erguida.

Na visão do organizador da mostra, “Rojo Oriental” é o filme que melhor representa esse giro na imagem da mulher árabe. “Lilia, a princípio, era uma vítima, mas consegue dar a volta por cima. O filme começa como um típico melodrama e termina como uma comédia subversiva”, comenta.

Ao fazer uma análise do perfil das três protagonistas citadas, pode-se ainda dizer que, enquanto Nadia, a mais nova, enlouquece com a força da sua sexualidade, e Dunia, de idade intermediária, busca um caminho para experimentá-la, Lilia, mulher mais velha e experiente do que as outras jovens personagens, aprende como desfrutá-la.

Dessa forma, elas retratam diferentes maneiras de lidar com o desejo, que estão relacionadas não somente com o caráter mais ou menos repressivo da sociedade, como também com o próprio amadurecimento da mulher.

Por fim, os filmes ainda coincidem ao retratar a relação entre mãe e filha, que, no caso de Nadia, é marcada pela ausência, o que resulta em uma total falta de parâmetro para a personagem. Em “Dunia”, a mãe está morta, mas, pelo menos no âmbito da dança do ventre, ela segue presente. É um modelo forte e marcante para ser seguido, e a própria protagonista diz: “Minha mãe vive dentro de mim”. Já a relação de espelhamento que se estabelece em “Rojo Oriental” é diferente logo de início, pois é a mãe que conta a história -e não a filha.

Lilia se espelha na filha e busca sua vitalidade perdida na jovem, a ponto de se envolver com o namorado dela. E esse desenfreio no seu desejo não lhe causa sentimento de culpa ou pudor.

Lilia, que a princípio se entrega a Chokri com voracidade, no fim o abraça com atitude maternal. Celebra o casamento dele com sua filha por meio de uma dança sensual e discreta. Seus passos delicados e fortes mostram que, agora, se sente à vontade com seu corpo e é soberana do seu desejo.


Publicado em 17/10/2009

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Christina Stephano de Queiroz
É jornalista e faz doutorado na Universidade de Barcelona, na cadeira Construção e Representação de Identidades Culturais.

 
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