1
entrevista
DESNORTE

Portugal e a doença da identidade
Por Renato Mendes

Em novo livro, o filósofo José Gil reflete sobre a subjetividade portuguesa, do salazarismo até os dias atuais

 

Considerado um dos “25 grandes pensadores do mundo” pela revista francesa “Le Nouvel Observateur”, o filósofo português José Gil tornou-se também um êxito editorial com “Portugal Hoje - O Medo de Existir”. O polêmico livro foi reimpresso 11 vezes e vendeu mais de 50 mil exemplares. Portugal é novamente tema da reflexão do filósofo, na sua nova obra: “Em Busca da Identidade: O Desnorte”, lançada recentemente pela editora Relógio d'Àgua. A partir de conceitos de Ferenczi e Foucault, José Gil reflete sobre as subjetividades portuguesas e identifica na história mais recente de Portugal os processos que as originam.

Para o autor, o mal português é a hiperidentidade, construída em boa parte no período da ditadura salazarista. “Vivemos numa introjeção estilhaçada, entre o fim de uma neurose, o começo de uma psicose e a multiplicação de possíveis. A única maneira de remover o obstáculo da identidade é destruí-la como instância territorializante. Deixarmos de ser primeiro portugueses para poder existir primeiro como homens”, escreve. A Revolução dos Cravos (1974) divide o tempo português em dois momentos opostos e passa a ser um marco no processo de subjetivação -um processo de reconquista do eu, que é impraticável.

“O Desnorte” é um livro suscinto, mas de enorme densidade e sofisticação intelectual. A leitura remete o leitor para conceitos essenciais de pensadores que o inspiram -a introjeção e a subjetivação. Mas José Gil transgride, quando estende as fronteiras do seu pensamento ao coletivo.

Ao abordar de maneira frontal temas que tocam a subjetividade portuguesa, deve-se destacar a isenção do autor, qualidade escassa nos estreitos limites do país. A esse respeito e de modo a reafirmar o papel de expansão que o pensamento de José Gil desempenha na esfera intelectual, “O Desnorte” é laboratório que ensaia a desconstrução do “eu” português.

Nascido em 1939, em Muecate (Moçambique), José Gil formou-se em filosofia na Sorbonne, em Paris, em 1968. Regressou a Portugal em 1976 e assumiu o cargo de adjunto do secretário de Estado no Ensino Superior e da Investigação Científica no quarto governo provisório do país.

Em 1981, tornou-se professor convidado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde permaneceu até 2009, quando se aposentou. Seu doutoramento, concluído em 1982, na Universidade de Paris VIII, foi feito sob a orientação do historiador da filosofia François Chatêlet.

O autor possui várias obras relevantes, que tratam de filosofia, artes, dança e literatura. Com somente dois livros publicados no Brasil, “Diferença e Negação na Poesia de Fernando Pessoa” (Relume Dumará) e “Movimento Total – O Corpo e a Dança” (Iluminuras), o autor diz que “Fernando Pessoa e a Metafísica das Sensações” foi praticamente o seu primeiro livro a ser lido no Brasil, em grande parte através de fotocópias que se fizeram. Em 2010 viajará ao país para participar de um colóquio internacional sobre “O Acaso”, promovido pela professora Maria Cristina Franco Ferraz colaboradora de Trópico.

Foi em Lisboa, no antigo bairro da Ajuda, em seu escritório repleto de livros, que o filósofo concedeu a entrevista a seguir, de quase duas horas. José Gil refletiu sobre as relações entre seus dois últimos livros, abordou o discurso político como elemento fundador de subjetividades, desconstruiu a expressão portuguesa “chico-espertismo” –equivalente ao “jeitinho” brasileiro- e apontou as causas para o nacionalismo larvar europeu.

*

De que forma “O Desnorte” está unido às reflexões do seu livro anterior, “Portugal Hoje - O Medo de Existir”?

José Gil: Em primeiro lugar recusei-me sempre a afirmar e aceitar que se procurasse no “Medo de Existir” uma descrição da identidade portuguesa: "os portugueses são pessoas que não assumem responsabilidades, que são invejosos" etc. Tudo isso, a cada entrevista que me faziam, vinha como se fosse um traço da identidade dos portugueses.

Acho que vem até ecos dessas respostas nas entrevistas que foram publicadas no fim do livro, nas últimas edições. Eu respondia sempre que não se trata da identidade dos portugueses, não é isso que me interessa. Eu não ando à procura da identidade, não sei o que é. A própria noção de identidade me parece muito controversa. O que eu procurei –por falta de melhor termo- foi descrever uma mentalidade, as mentalidades do povo português. Mentalidades que podem sedimentar-se, que podem durar muito tempo, mas que podem se modificar.

O “Medo de Existir” não trata da identidade portuguesa, eu não quero tratar disso. Mas há um problema dos portugueses com o que eles são. Quis analisar o que é esse problema dos portugueses e, ao mesmo tempo, ver se havia uma ligação entre o problema da identidade e aquele problema que está no centro do livro “Medo de Existir”, que é: por que isso não muda? Por que há uma resistência tão grande à mudança das mentalidades portuguesas? Então, essas questões deram origem a primeira parte do livro “Em Busca da Identidade: O Desnorte”. Esse é o primeiro elo que liga os dois livros.

O segundo elo é o seguinte: paradoxalmente, o sucesso do “Medo de Existir” está também ligado ao fato de ser uma descrição impressionista, ou de pequenas fenomenologias, dos comportamentos dos portugueses; e haver pouca preocupação de fundamentação conceptual.

Por exemplo, eu escrevi muito sobre a inveja, mas não neste livro e em nenhum livro que eu tenha publicado. A inveja de um ponto de vista da filosofia política, porque você encontra a inveja em Hobbes e em uma série de teóricos do contrato social. Mas nada disso aparece no livro, porque eu não explicito, e é porque utilizo de uma maneira comum, que o livro foi compreendido tão facilmente.

Se eu tivesse feito um ensaio sobre a inveja, sobre a não inscrição, o livro não seria lido. Aliás, eu não escrevi para ser lido, aquilo foi um acontecimento que me ultrapassou. Senti, então, a necessidade de escrever algo que fosse mais fundamentado. Porque esta foi também uma das críticas que me fizeram ao “Medo de Existir”. O que é isto?, perguntaram. Isto não é sociologia, isto não é psicossociologia, não é psicanálise coletiva –isso não existe, não é filosofia, o que é isto?

Aliás, eu disso tinha consciência, porque digo nas últimas páginas do livro. Mas, agora, senti necessidade de fazer qualquer coisa que fosse conceptualmente mais articulada, mais elaborada e que não é propriamente um livro que seja legível por qualquer pessoa, como de certa maneira é o “Medo de Existir”.

Quando eu procuro definir os processos de subjetivação, como se forma uma subjetividade, qual a sua relação com os processos de formação do poder, vou buscar ideias de Michel Foucault que não são fáceis, que precisam de um estudo. E sobretudo é melhor que se conheça Foucault para se entender diretamente o que eu quero dizer. Ora, foi isso que eu fiz. Vou utilizar e elaborar conceitos, pelo menos não me vão fazer esta crítica, de que o livro é simplesmente descrição ligeira e superficial.

Portanto, a parte de elaboração conceptual, de explicitação e aplicação dos conceitos de Foucault interessou-me verdadeiramente para ir um bocadinho mais longe na análise da situação do homem atual, do homem da sociedade da modernização, mas também porque eu queria fundamentar uma série de conceitos. Se reparar nos conceitos de subjetividade e subjetivação, eles são utilizados como se fossem conceitos comuns, que as pessoas compreendessem muito simplesmente no “Medo de Existir”. De certa maneira, uma leitura da descrição dos processos de subjetivação pode fazer retroação sobre os que lêem o “Medo de Existir”.

Em uma palavra, “O Desnorte” é um livro de maior dificuldade para o leitor comum, porque recorre a uma elaboração conceptual mais sofisticada do que o “Portugal, Hoje – O Medo de Existir”.


A doença da identidade e a hiperidentidade têm a sua causa no “vírus do eu”, que é ditador e opressivo, escreve o senhor. Como se dá o surgimento e a evolução desta doença?

José Gil: Não sou historiador das ideias, seria necessário um genealogista de tipo Foucault. Não lhe posso dar uma baliza no tempo histórico português para o começo dessa doença da identidade. O que posso fazer é mostrar como ela é realmente uma doença, em primeiro lugar, e como se transforma e toma outros aspectos patológicos, quando passa do salazarismo para o 25 de Abril (Revolução dos Cravos).

Para isso é preciso saber o que foi o salazarismo, e isso não é muito fácil para quem não o tenha vivido. Se tivesse que resumir a relação com a identidade durante a época de Salazar, eu diria o seguinte: o salazarismo forneceu um discurso e sobretudo uma série de narrativas que, de certa maneira, satisfaziam a identidade. A identidade salazarista estava evidentemente ligada ao regime opressivo e a toda uma série de redes de poder que se entreteciam na própria prática, que também vinham expostas nos discursos –e sobretudo nos discursos de Salazar.

Essa rede constituía o nacionalismo português. O nacionalismo ditatorial, fascista, salazarista, que era vivido em uma relação afetiva e sentimental muito forte, que o poder queria insuflar. Era eficaz, pois insuflava a população, criando um laço com o país, um país fechado –o nosso império; fechado sobre si mesmo com diversos extratos, que eram os tais que se entreteciam.

Este laço com o país ia reproduzir-se de uma outra maneira no laço com a família, pois havia uma identidade familiar com o poder salazarista, no laço com a história e com as narrativas da nossa saga dos descobrimentos, da formação da nossa identidade portuguesa, do nosso país desde o nosso primeiro rei, a geografia que estudávamos enquanto crianças, a história dos reis, da glória, que nós éramos únicos no mundo, que éramos heróis etc. Tudo isso forjava uma identidade, que evidentemente era reprimida. Não na sua forma identitária, mas era reprimida enquanto ela se encarnava em uma singularidade.

O que a identidade do ser português salazarista nos negava era precisamente a singularidade. E por quê? Porque não havia liberdade. Era o preço que se pagava para sermos portugueses como Salazar o queria.

Esqueci-me de falar em um outro laço importante, que é o laço com a religião. Deus, pátria e família eram a tríade do discurso salazarista, que precisamente formava os três polos da identidade. E, de certa maneira, a família era quase o polo-modelo. Toda a relação era familiarista, a relação com a nação, com o povo, com os outros.

Tudo isso define uma identidade. Mas define uma identidade patológica, na medida em que a singularidade era reprimida. Para eu ser o que o Salazar queria que eu fosse como português, tinha que deixar de ser o que eu sou, tinha que subordinar a minha relação à nação.

Se eu quisesse ser artista, ou fazer uma outra coisa –ter uma liberdade qualquer de me fazer, não era possível. O molde que era a narrativa estava lá. Eu tinha que me deformar através de uma identidade. As narrativas que correspondiam às práticas cívicas do salazarismo constituíam esse molde da identidade, que nós vivemos durante quase 50 anos. É muito tempo –50 anos!


O senhor aplica um conceito de Ferenczi para descrever novas formas de subjetivação em busca da identidade. Poderia falar a respeito?

José Gil: Quando eu falo em patologia, evidentemente que estou a cometer aqui um pecado, quase uma blasfêmia, porque estou a transpor uma noção médica, da patologia psíquica individual para o coletivo. Ora, nós não sabemos ainda, ninguém sabe o que é uma patologia social, agimos sempre por analogia, por semelhança.

Em primeiro lugar, a tentativa de o fazer torna-se mais fácil com a utilização de determinados conceitos, que eu fui buscar a Ferenczi: o conceito de introjeção. Há uma descrição, de que eu cito um extrato, que é lindíssima –infelizmente, sobre o que faz um neurótico e o que é um neurótico. E, se o senhor já viu um neurótico –eu já vi muitos-, vê como Ferenczi, que era um homem de uma sutileza penetrante de inteligência, que viu e descreveu tal e qual faz um neurótico.

Um neurótico é aquele que está constantemente a falar de si. É o eu. O eu dele está em toda a parte. Está-se em uma conversa qualquer e aparece um tipo, canonicamente neurótico ou profundamente neurótico, e ele açambarca a conversa –sobretudo é um histérico, e vai relacionar cada coisinha, cada aspecto, cada assunto da conversa com o seu eu, com os seus gostos.

Ele vai, de acordo com Ferenczi, introjetar o mundo, e está constantemente a introjetar o mundo, quer dizer, está a açambarcá-lo. De que forma? Engolindo o mundo; só ele existe no mundo; o mundo é ele. Isso que é compreensível, é descritível e tem pertinência individual, no plano individual.

 
1