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FÁBULA

Literatura sem perdão
Por Wilson Bueno

"O Imitador de Vozes" traz 104 narrativas curtas e cruéis do escritor austro-holandês Thomas Bernhard

O malditaço Thomas Bernhard (1931-1989) está de volta às livrarias brasileiras. Depois de “O Náufrago” e de “Extinção”, duas das 19 novelas que escreveu em sua breve ainda que intensa existência, além de quase uma vintena de peças teatrais e um sem-número de ensaios, temos agora, traduzido ao português por Sergio Tellaroli, “O Imitador de Vozes” (Companhia das Letras, R$ 39) –mais uma das singularíssimas “fabricações” ficcionais do escritor austro-holandês.

Desta feita, nada menos do que 104 peças curtas onde o som e a fúria –deste que é, sem erro, um dos expressivos autores do século XX–, mais que narram, perturbam e arrepiam, murros no estômago do leitor desavisado. As obsessões de Bernhard se repetem. Não sem fascínio.

É, sabemos, desta classe de autor –e nisso, em diversos graus, não muito diferente, aliás, da maioria de seus pares– cujos temas parecem ser sempre os mesmos ainda que cinicamente aspirem a uma nova “identidade”... Só que em Bernhard os repetidos giros ao redor de suas obsessões são, a maioria das vezes, chicotadas de igual impulso.

Sugere o tempo todo –e não só, claro, neste “O Imitador de Vozes”– que os humanos somos em absoluto inviáveis, não demos certos sobre o planeta; demonstrações irreversíveis do fracasso de um Deus que, a rigor, não existe, posto que se existisse não permitiria o cotidiano horror observado neste vale de lágrimas. Perdemos para os bichos mais sórdidos –de lacraias a escorpiões, de víboras a batráquios venenosos. Ninguém sai de um texto de Thomas Bernhard a mesma pessoa, esta é que a grande e crua verdade. E, sempre –se tem pudor–, com uma ponta de nojo por pertencer ao gênero triste.

Se em “O Náufrago” (1983), seguramente uma obra-prima, na qual o escritor austríaco faz as suas “Variações Goldberg” sobre o maior intérprete de todos os tempos justamente das referidas peças de Bach, o atormentado pianista Glenn Gould, tendo como “leitmotiv” o que a genialidade ensandece, dilacera e vilipendia, em “O Imitador de Vozes”, feito Jack, o esquartejador, Bernhard vai por partes.

O desconforto de estar vivo –mais que a perplexidade alguma vez jubilosa desse “acontecimento” tão comum em alguns autores, mesmo os céticos–, faz das recém-lançadas pequenas grandes ficções de “O Imitador de Vozes” um notável acontecimento na literatura da segunda metade do século passado.

Claro, Bernhard jamais existiria sem Kafka, o que sugere um enunciado vulgar mas se examinado melhor veremos que nem tanto. Nove entre dez escritores, sobretudo da chamada nova literatura norte-americana, para ficar só nessa hipótese, por exemplo, não passam de pastiches “aggiornati” de gastos “realismos” pré-kafkianos. E não podem, a rigor, ser chamados de escritores, ao menos na legítima acepção de que escritores sejam autores de peças literárias, artífices da “ampliação” do imaginário humano.

Thomas Bernhard, em “O Imitador de Vozes”, e não só neste, diga-se logo, prova que não é mais possível escrever, depois de Kafka, do mesmo modo que se escrevia antes dele. A “modernidade” de Kafka vai muito além do que se entende por “vanguarda” ou quejandos. Kafka, impossível contestar, dá nova vida à literatura como expressão humana. Estilhaça geografias, nomes de personagens, as próprias personagens, toponímias, entrechos, “locação”, verbos e “sujeitos”, verossimilhanças e outros recursos com que insistem os eternos naturalistas. Até mesmo a decantada “subjetividade”, tão cara a russos e troianos, perde a sua razão de ser na “refundação” da velha “ars litteraria” que o gênio de Praga empreende –com raro esplendor.

Bernhard pegou a lição pela raiz. Não afloraria em nenhuma outra época senão a segunda metade do século passado. E embora nascido na Holanda, toda a sua formação se deu na Áustria, tornando-se, em alto e vigoroso sentido, um escritor de expressão alemã, um “germanófilo” por excelência –que mais não seja no uso do velho idioma, ainda que este tenha sido destroçado irreversivelmente pelo nazismo, como assinala George Steiner, em ensaio famoso.

Nunca mais a língua alemã foi a mesma, segundo o pensador francês (também de origem austríaca e germanista de primeira hora), depois das câmaras de gás que ignorantaços iranianos deste aturdido início de novo milênio têm a ousadia de afirmar, com sujos fins, que não existiram –lembre-se com ênfase, ainda que de passagem...

Nas 104 peças deste corrosivo “O Imitador de Vozes” não há um momento de vacilo, gentil leitor. Ao se propor a devassa da alma humana, Thomas Bernhard vai fundo e por vezes impiedosamente. Não poupa nada nem coisa alguma. A escrita anda sobre o fio da navalha. De uma crueza às vezes cínica; às vezes assustadora. Como nos dois ou três textos que nos permitimos reproduzir, e comentar, a seguir.

Com um adendo indispensável: o livro não é um livro de “fragmentos” como pode sugerir, à primeira vista. O fragmento, igualmente necessário ressaltar, dá conta de um todo “ausente” e será sempre “parte” do que “ficou de fora”. No livro de Bernhard isso não ocorre, tudo está ali, como em Kafka, mesmo que a peça seja uma só frase, limitada a sujeito, verbo e predicado.

Um aforismo, então? Perguntariam os mais apressados. Não, o aforismo é sempre filosófico & filosofante. Thomas Benhard é um amoral estóico, resignado com a essência de nossa precariedade. Não há “moral” aqui, mas a constatação do inextricável absurdo humano. Como nos “aforismos”, igualmente nem tão “aforísticos” assim, de Franz Kafka –o estalar do chicote sobre o lombo de nossa indissociável hipocrisia. Mais nada.

Como neste cândido exemplo que leva o título também cândido de “Gigante”:

"No cemitério de Elixhausen, trabalhadores encarregados de construir uma cova para um queijeiro falecido desencavaram de uma profundidade de apenas setenta e cinco centímetros o esqueleto de um homem que deve ter tido dois metros e setenta e quatro centímetros de altura, provavelmente sepultado ali cento e cinqüenta anos antes. Diz-se que, até onde a memória alcança, os habitantes de Elixhausen sempre foram pessoas baixinhas."

Mais cândido, impossível, leitor. A não ser que invocássemos o velho Perrault ou as fábulas “edificantes” do doutor La Fontaine, capaz de punir a Cigarra com a fome e o frio só porque, no verão, ao contrário da diligente Formiga, com seu inútil canto jamais cuidou de prover o inadiável inverno...

Outra lubricidade aí, leitor? Terrível como viver nas dobras do risco e do acaso, matéria e essência de cada dia? Quer mesmo? Ei-la, com o singelo nome de “A Empregada”:

"Aconteceu-nos semana passada de cinco vacas, uma após a outra, lançarem-se contra o trem expresso no qual precisamos retornar a Viena, que as despedaçou por completo. Depois de os condutores e mesmo o maquinista, que viera correndo com uma picareta, terem limpado os trilhos, o trem seguiu adiante, após cerca de quarenta minutos parado. Pela janela, pude ver a empregada que, aos gritos, corria em direção a uma propriedade rural em meio ao crepúsculo."

Ou este outro texto encerrado em nada além do que dois períodos gramaticais, onde um advérbio de modo, pasmem!, pode deflagrar, implícita ou explicitamente, a surpreendente sentença de um tribunal:

"Um funcionário do correio acusado de ter assassinado uma mulher grávida declarou no tribunal não saber por que havia matado a grávida, mas que havia matado sua vítima tão cuidadosamente quanto possível. A toda pergunta do juiz, ele sempre respondia com a palavra cuidadosamente, motivo pelo qual o processo contra ele foi arquivado."

Dessa natureza e perfume as demais 101 histórias que compõem o “O Imitador de Vozes”, inclusive, a destacar –por último mas não menos importante–, o texto-título, uma obliterante fábula, amoral por excelência, e breve como convém às fábulas que só querem dizer uma coisa: os humanos somos mesmo sinistros. É ler para crer –de vez– na assertiva.

Manicômios, assassinatos, suicídios, catástrofes domésticas, desencontros, casos policiais, racontos-agulhas, o bote da serpente, incêndios, torturas, menosprezo, calúnias, cinismos. Em “O Imitador de Vozes”, Thomas Bernhard mais uma vez não perdoa ninguém; nem a si próprio, cúmplice que é das escabrosas revelações que nos põe a cara perfeitamente exposta à primeira bofetada.

Antes de todos, a sua mesma, como primeiro “leitor” de suas próprias, e indispensáveis, escabrosidades –a cara tomada pela “accídia”, um ríctus, o esgar no canto do lábio de um escritor e dramaturgo austro-holandês chamado Thomas Bernhard.


Publicado em 22/9/2009

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Wilson Bueno
É escritor, autor, entre outros livros, da novela "Meu Tio Roseno, a Cavalo" (Editora 34) e de "A Copista de Kafka" (Planeta).

 
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