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SAGRADO

Por uma antropologia fundamental
Por Hilário Franco Júnior

O filósofo René Girard, que tem nova obra lançada no Brasil, busca uma teoria completa da cultura humana

Trópico edita a seguir artigo que faz parte do novo número de "Jornal de Resenhas"; parceria vai publicar mensalmente um artigo ainda inédito


A trajetória intelectual de René Girard, conhecido entre nós graças à tradução de seu "A Violência e o Sagrado" (Paz e Terra/Unesp, 1990), é atípica. Apesar de eleito para a Academia Francesa em 2005, talvez goze de menos prestígio no seu país natal do que nos EUA, onde se doutorou e lecionou por décadas. Arquivista e paleógrafo de formação, ele viria a desenvolver uma teoria geral da cultura fundada no diálogo com a crítica literária, a antropologia, a psicanálise, a sociologia, a história, a filosofia, o darwinismo.

No princípio da carreira, opondo-se ao esteticismo literário então em voga, estudou no campo do romance –sobretudo em Proust, mas também em Cervantes, Stendhal, Flaubert e Dostoievski– as relações internas do triângulo sujeito-modelo-objeto, no qual detectou o mecanismo que chama de desejo mimético. Quer dizer, aquele centrado não nas qualidades do objeto desejado, e sim no fato de ele ser desejado por alguém tomado como modelo.

Por essa hipótese, o desejo não se dá pelo contato direito entre sujeito e objeto, e sim pelo contágio das relações humanas, de maneira que aquilo que é chamado de diferença é rivalidade mimética na qual “cada um ocupa sucessiva e depois simultaneamente todas as posições e não existem mais posições distintas”.

Transpondo a seguir essa análise para textos antigos, especialmente da tragédia grega, ele verificou que a “mimese de apropriação” ou desejo de possuir o objeto do outro, está na origem da “crise mimética” que envolve toda a sociedade e pode conduzi-la à sua própria destruição. Esta é evitada, contudo, pela descoberta de um mecanismo que cria maior coesão social. A violência (coração e alma do sagrado) e a imitação (sem a qual todas as formas culturais desapareceriam) escapam da circularidade da vingança ao serem concentradas sobre uma única vítima expiatória.

Com tal procedimento a sociedade humana é introduzida na esfera do sagrado, e com esta surge a cultura. Tais ideias estão expostas em amplo painel –uma dezena de livros, várias dezenas de artigos– de forte unidade interna, no qual cada nova publicação alarga, aprofunda, matiza ou corrige elementos anteriormente apresentados. De "Mensonge Romantique et Vérité Romanesque" (1961) até "Achever Clausewitz" (2007), a obra de Girard constituiu-se em círculos concêntricos, conjunto fortemente articulado que ele denominou “antropologia fundamental”.

Isto é, aquela que pretende superar as limitações que atribui a outras áreas do conhecimento. Contra o estruturalismo, com o qual concorda que as relações são mais importantes que os objetos, Girard insiste sobre o fato de toda relação pressupor o desejo, o que explica por que toda oposição repousa sobre uma identidade profunda entre os oponentes, cada um vendo no outro não apenas um rival, mas ao mesmo tempo um modelo.


Unidade profunda

Contra a psicanálise, observa que nela Édipo aparece já estruturado sem que seja explicada a emergência dessa estrutura, daí a necessidade de uma “dinâmica desestruturante”. Contra a tendência moderna de eleger objetos de estudo estreitamente recortados, Girard busca a unidade profunda, “uma teoria completa da cultura humana que vai se delinear a partir desse único princípio”, pois “a pesquisa científica é redutora, ou ela não é nada”.

A esse mosaico surpreendente, algumas vezes brilhante, algumas vezes excessivamente especulativo, peças importantes foram acrescentadas ou refinadas pelo livro de 1978 que acaba de receber tradução brasileira: "Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo".

Ele é estruturado como um diálogo com dois psiquiatras, Jean-Michel Oughourlian e Guy Lefort, na tentativa de tornar a exposição da teoria de Girard mais clara e mais ágil. Objetivo atingido apenas em parte. De um lado, porque não há uma verdadeira troca de ideias, os interlocutores quase sempre servem apenas de “escada” para que o autor responda a certas objeções feitas por terceiros e precise determinados pontos de sua teoria.

De outro lado, porque as inúmeras referências à etnologia e às sociedades arcaicas com frequência não estão fundadas em dados empíricos, deixando o texto em alto nível de abstração. O título do livro –sem ocultar certa presunção– é uma citação do texto bíblico (Mateus, 13,35), que de acordo com a interpretação de Girard alude ao assassinato fundador. Ou seja, a crucifixão de Jesus teria destruído o “mecanismo do bode expiatório” que se baseia na culpabilidade da vítima sacrificada. A inocência de Jesus desnudou a “mentira” dos mitos de forma que “os Evangelhos subvertem a ilusão universal e instauram uma nova era na história da humanidade”.

A função central do Cristo foi ter revelado a origem violenta da humanidade ao expor o próprio mecanismo vitimário. É sua mensagem que leva cada indivíduo a se reconhecer como perseguidor, e assim a renunciar à violência. Argumentação atraente, contudo viciada. Jesus era inocente apenas para quem acreditava nele. É bastante discutível afirmar que os Evangelhos “tornam os sacrifícios sangrentos detestáveis a nossos olhos. Eles destroem para sempre o religioso arcaico”.

Será? Não é do próprio sacrificado a afirmação de que “toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo” (Mateus, 7, 19)? Não foi em nome disso que por séculos hereges foram queimados? Que muçulmanos foram massacrados nas Cruzadas? Que judeus foram eliminados em pogroms medievais, modernos e contemporâneos?


Faceta mítica

Os Evangelhos, diz Girard, têm uma faceta mítica sem serem mitos, já que identificam e denunciam a ilusão dos perseguidores: “se os Evangelhos fossem mitos, em vez de condenar os linchadores, seria a vítima que eles condenariam”. Todavia, o autor reconhece que tanto no relato da Paixão quanto nos mitos anteriores o bode expiatório é divinizado.

Quer dizer, os Evangelhos são, sim, um mito, construído a partir do olhar do grupo favorável ao sacrificado enquanto os relatos anteriores revelam o olhar do grupo sacrificador. O que mudou entre as versões é que uma se define pela negatividade (condenar) e outra pela positividade (divinizar). A diferença não é mítica, é ideológica, é a existência de uma vítima condescendente com seu papel de vítima. Funcionalmente nada muda, a sociedade é salva pelo sacrifício, consentido ou não.

Enfim, o livro é não poucas vezes polêmico, em certas passagens de leitura pesada, em outras de argumentação pouco convincente, mas inegavelmente carrega a marca das grandes obras –colocar em xeque “verdades” inercialmente aceitas, apontar novos caminhos, instigar a reflexão.


O livro:

"Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo", de René Girard. Tradução: Martha Gambini. Ed. Paz e Terra. 512 págs., R$ 75


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Publicado em 21/9/2009

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Hilário Franco Júnior

É professor da pós-graduação em história social da USP, autor de "A Eva Barbada" (Edusp), "O Ano 1000" (Companhia das Letras) e "Coconha" (Ateliê Editorial), entre outros livros. 



 
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