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INÉDITO

A paixão desconhecida de Saint-Exupéry
Por Wilson Bueno

“O Amor do Pequeno Príncipe” traz cartas do autor francês a uma jovem de 23 anos, escritas durante a Segunda Guerra

Se em 1919 Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) houvesse passado nos complexos exames de admissão para a Escola Naval da Armada Francesa, com toda certeza a humanidade não teria conhecido uma das mais célebres e arrebatadoras fábulas modernas –a do Pequeno Príncipe, em seu planetinha do tamanho de uma casa, povoado por personagens de tocante ternura e carregados de intensa referência simbólica. E que, perto de 70 anos de seu lançamento, segue sendo lido e relido em quase uma centena e meia de línguas, seguramente um dos mais populares livros contemporâneos.

Certo que nove entre dez intelectuais ainda torcem o nariz para a história do principezinho reencontrado por um aviador francês depois de uma pane no deserto do Saara. O piloto, que estreou na literatura com menos de 26 anos, já com pegada poética digna de nota, também pioneiro da aviação civil e militar, ao lado, entre outros, dos legendários Jean Mermoz e Henri Guillaumet, viria a se tornar igualmente um dos grandes nomes das letras francesas do século XX.

Não só por “O Pequeno Príncipe”, o livro que o imortalizou, como também por outros títulos marcados por uma escritura delicada e humaníssima, em que valores, cada vez mais em desuso, são frequentemente exaltados –a amizade, a fraternidade, a coragem, a paixão pela velha Terra dos homens, o ludismo essencial da infância.

Anotações de um homem para quem céus, nuvens e estrelas, a infinita grandeza dos espaços aéreos, eram extremamente familiares –em suas ousadas rotas solitárias a pilotar os precários aeroplanos que primeiro cruzaram o Atlântico. Dessa marcante experiência resultaram alguns clássicos como “Correio do Sul” (1929), “Vôo Noturno” (1931) e “Piloto de Guerra” (1942). Também o póstumo “A Cidadela”, de 1948, considerado a sua obra-prima, é um hino em louvor à vida, num texto filosófico e filosofante imantado de intensa poesia.

Notáveis, e inseridos na história da aviação brasileira, foram os pousos e decolagens do poeta-aviador em Recife, mas sobretudo em Florianópolis, onde chegou a fazer inúmeros amigos. A famosa Campeche, uma das 44 praias da capital catarinense, deve seu nome ao ilustre visitante. Ali, durante a década de 20, o correio aéreo francês do qual Saint-Exupéry foi pioneiro, como piloto da célebre Sociêté Latécoère, instalou um campo de pouso para reabastecimento dos vôos entre Paris e Buenos Aires.

Diz a lenda local que Campeche deriva do apelido francês que “Saint-Ex” deu à praia –“Campo de pesca” ou “Champ de pêche”, isto é, por derivação, “Campeche”. Não sem razão, a principal rua do balneário foi nomeada avenida Pequeno Príncipe, numa homenagem dos moradores da região ao mais conhecido personagem do escritor francês.

Personagem que agora está de volta às gôndolas das livrarias brasileiras com uma “raspa de tacho” –nem por isso menos sensível e comovente–, que a editora Nova Fronteira, detentora dos direitos autorais do escritor no Brasil, acaba de publicar: “O Amor do Pequeno Príncipe - Cartas a Uma Desconhecida”. Com aquarelas e textos inéditos de Saint-Exupéry.

O título original é apenas “Lettres à L’Inconnue”, ou seja, “Cartas a uma Desconhecida”, coletânea arquivada no Museu de Cartas e Manuscritos de Paris. Ilustradas, algumas delas, com a figura do Pequeno Príncipe, autêntica logomarca de sucesso, outro “gancho” comercial que a editora não poderia deixar de lado, além, claro, da menção ao Pequeno Príncipe, que, a rigor, é quem, de certo modo, escreve as (poucas) missivas endereçadas a uma moça de 23 anos, que o escritor conheceu, em maio de 1943, numa viagem de trem de Oran a Argel.

Saint-Exupéry havia acabado de publicar a fábula do Pequeno Príncipe, com estrondoso sucesso, nos Estados Unidos, onde viveu dois anos, e voltava à Argélia, em maio de 1943, ao encontro do campo de ação militar de sua esquadrilha, o famoso grupo de reconhecimento aéreo 2/33 ao qual se engajara, logo no início da Segunda Guerra.

O pouco que se sabe da “desconhecida” é que, além de casada, um pequeno escândalo para o pundonoroso início da década de 40, era originária do leste da França, além de oficial e motorista de ambulância da Cruz Vermelha. A paixão foi à primeira vista, num arriscado investimento amoroso ao qual nosso poeta-aviador se atira com a mesma ousadia com que costumava realizar temerariamente a travessia atlântica a pilotar os monomotores da Aéropostale. Relação afetiva sob o signo, até hoje, de insondáveis turbulências...

São cartões-desenhos, cartas-aquarelas, alguns circunscritos somente a delicados balões (como os das histórias em quadrinhos) a expressarem o que sai da boca da figura do Pequeno Príncipe em frases de amor e enamoramento, quase sempre tímidas, como convém a um “petit prince” à altura da fábula e dos usos e costumes de uma época. Também os mesmos traços, a mesma cabeleira dourada, a mesma vestimenta e “perfil” impressos ao personagem concebido originalmente para o livro que notabilizou Saint-Exupéry aparecem e reaparecem nestas cartas de amor, às vezes limitadas a apenas uma frase.

Não são bem Saint-Exupéry nem a Desconhecida que parecem dialogar, senão um invariavelmente retraído principezinho imaginário e mitológico. Como, por exemplo, no primeiro bilhete em que, numa singela aquarela, sobre seu pequeno planeta, o indefectível cachecol a voar entre miríades de estrelinhas, ele reclama, em tom quase sempre ressentido:

“Ela nunca está em casa quando telefono... À noite também ainda não chegou... Não telefona... Estou muito zangado com ela!”.

Outras aquarelas e “falas” presas a balões, uma tendo como coadjuvante um passarinho; outra, minúscula flor brotada do pincel colorido, frágil haste com petalazinhas que conversam e às vezes parecem chorar. É o encantamento de um poeta de doçuras e que busca a contenção para não se derramar no amor mais piegas.

Nas cinco últimas cartas que compõem o volume os traços à aquarela do principezinho desaparecem. Ganham em texto e poesia os manuscritos fac-similados no original francês, bem como na tradução de Alcida Brant. Sem perder, contudo, a alma última e íntima da personagem, dentro da mesma “imanência” que fez o Pequeno Príncipe enamorar-se da Rosa no planetinha interestelar aonde caiu um dia. Ele, e não o autor propriamente dito, quem continua a subscrever os textos:

“Descubro com melancolia que meu egoísmo não é tão grande assim, pois dei ao outro o poder de me magoar. Menininha, foi com carinho que lhe dei esse poder. É com melancolia que a vejo usá-lo”.

Num dos trechos mais ternos –e esclarecedores– desse “Cartas a Uma Desconhecida”, o Pequeno Príncipe aproxima a fábula do “racconto d’amore”:

“Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda e diz: ‘Era só um conto de fadas...’. E a gente sorri de si mesma. Mas, no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida”.

E na derradeira carta onde, face à ambigüidade, ficamos desconhecendo se o texto sugere seja o fim de um romance, por motivos óbvios oculto a sete chaves, ou se já é a decisão radical de que –contra tudo e contra todos–, ele deva prosseguir, o “Pequeno Príncipe –Saint Ex” não trai o que sempre foi o seu modo de enxergar a (estuante) vida ao redor:

“Não quero mais brigar com você. Azar o meu se às vezes fico um pouco triste. Você tem razão em tantas coisas... Sem dúvida eu lhe farei mais mal do que bem. Sem dúvida, não, mas talvez. Então tomei grandes decisões, e você pode me tornar a ver. Sou seu amigo. Claro que a menor primavera enfraqueceria minhas decisões –mas azar se não há mais primavera”.

Nada diferente do que em sua partida do planetinha de três vulcões, na fábula eterna do Pequeno Príncipe –tão eterna, admitamos enfarados e não-enfarados, quanto a “Cigarra e a Formiga”, de La Fontaine, ou o “Chapeuzinho Vermelho”, dos Irmãos Grimm. Ali quando, ao chegar a hora da volta dele à Terra, a Raposa sabiamente ensina:

“ – “Ah! Eu vou chorar”. “ – A culpa é tua – disse o Principezinho. – Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...” “– Quis! – disse a Raposa.” E o Pequeno Príncipe foi se despedir da Rosa. (...) Ao voltar dirigiu-se à Raposa: “ – Adeus... – disse ele”. “ – Adeus – disse a Raposa. (...) O valor que tem a Rosa para ti, é o tempo que gastastes com ela. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Como se deu a despedida do então jovem piloto de guerra Antoine de Saint-Exupéry e da condutora de ambulância da Cruz Vermelha, ao final daquela sangrenta Guerra, ninguém sabe, ninguém viu. E nem estas cartas que a tiveram como destinatária esclarecem.

Só sabemos que no dia 31 de julho de 1944, às 8h45 da manhã, o poeta-aviador, íntimo de céus e de estrelas, decolou com seu pequeno avião, da base de Grenoble, para uma missão de reconhecimento no Mediterrâneo. Nunca mais retornou, e seu corpo igualmente jamais foi encontrado. Os destroços de seu avião foram localizados, cinco anos atrás, em 2004, a poucos quilômetros da costa de Marselha.


Publicado em 31/8/2009

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Wilson Bueno
É escritor, autor, entre outros livros, da novela "Meu Tio Roseno, a Cavalo" (Editora 34) e de "A Copista de Kafka" (Planeta).

 
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