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A mais admirável é a "Figura Feminina", pintada por Maliévitch ao final dos anos 1920. Trata-se de uma silhueta, longa e fina, que parece rasgar a tela pintada de branco, de alto a baixo. Pés, pernas, tronco e cabeça são negros. A saia longa e o pescoço, verdes. Tal figura, a exemplo de outras de igual período, não tem braços. Só é possível alcançar as formas mais exatas do quadro se nos aproximamos e notamos que, do lado direito e esquerdo da esguia figura, pintadas em um tom levemente distinto do fundo e com maior massa de tinta e sutil diferença de textura, destacam-se duas outras, pequenas, de silhueta semelhante à que divide ao meio o quadro.

Essa formação entre o que o artista mostra e o que ele deixa entrever (caso se preste a devida atenção) encaminha múltiplas interpretações. Em relação à construção dessa obra, pode-se observar que tal branco sobre fundo branco remete diretamente a outra de suas obras mais radicais: a tela "Branco sobre Branco" ou "Quadrado Branco Sobre Fundo Branco", de 1918, que não pertence à coleção exposta e sim ao Museu de Arte Moderna (MoMA), de Nova York.

Maliévitch e Tátlin emblematizam um dos possíveis diálogos a serem ouvidos no espaço expositivo, fértil por demonstrar a heterogeneidade das vanguardas russas, como anotam os curadores Ania Rodríguez Alonso e Rodolfo de Athayde: “A vanguarda russa traz em si várias das contradições fundamentais que acompanham a arte de vanguarda de um modo geral. Dentro do próprio campo vanguardista, se torna paradigmática a polêmica que mantém suprematistas e construtivistas: uns defendendo a 'pureza da arte' como campo autônomo e outros tentando expandir os limites da criação artística, até encostar em esferas mais prático-utilitárias da produção, da engenharia, do design, sem abandonar o compromisso com a experimentação formal”.

Essa nota também pode ser interpretada como um comentário à produção contemporânea. O pensamento hegemônico que, a partir do final do século XX, se impõe com força cada vez maior à medida em que é aceito, não apenas nas artes, mas em toda a esfera do conhecimento e da cultura, talvez possa aurir um pouco de ar fresco dessas múltiplas propostas no campo prático da liberdade.


A autora agradece a Anastassia Bitsenko, Elena Vássina e Noé Silva, pela colaboração com minhas pesquisas sobre arte e cultura eslava.


A exposição:

"Virada Russa: A Vanguarda na Coleção do Museu Estatal Russo de São Petersburgo". Curadoria: Yevgenia Petrova, Rodolfo Athayde, Joseph Kiblitsky, Ania Rodríguez Alonso. Em Brasília: de 7/4 a 7/6; no Rio de Janeiro: de 23/6 a 23/8; em São Paulo: 15/9 a 15/11.


Publicado em 16/8/2009

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Neide Jallageas
É doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, com tese sobre o cinema de Andriêi Tarkóvski, e professora do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. É também professora convidado do Departamento de Línguas Orientais - Russo, da FFLSCH/USP. Entre suas pesquisas, investiga diálogos e reverberações entre as artes russa e brasileira, principalmente conexões entre a produção de Hélio Oiticica e as vanguardas soviéticas , junto ao Grupo de Pesquisa HO e o Programa Ambiental, da Faculdade Santa Marcelina.

1 - Agradeço a Daniela Alves por me sugerir atenção especial à pintura sutil das duas figuras nessa tela.


2 - Alonso, Ania Rodríguez; Athayde, Rodolfo de. "Virada Russa: Revelações de Uma Arte em Transgressão. In "Virada Russa: A Vanguarda na Coleção do Museu Estatal Russo de São Petersburgo". Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo: CCBB, 2009, p. 13.

 
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