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entrevista
LITERATURA FRANCESA

Extraordinários seres comuns
Por Leneide Duarte-Plon

O escritor Emmanuel Carrère aborda pequenas e grandes tragédias, como a do tsunami, em "Outras Vidas Além da Minha"

Ele é escritor, cineasta e roteirista. Seu novo livro, “D’Autres Vies Que la Mienne” (Outras Vidas Além da Minha), elogiadíssimo pela crítica, de uma delicadeza extraordinária, luminoso, apesar de tratar de histórias trágicas, já é apontado como um dos livros do ano, sério candidato a um dos prêmios literários do outono francês.

Nele, Emmanuel Carrère, 51 anos, está presente como o narrador-escritor, como em seus dois livros anteriores ("L’Adversaire" e "Un Roman Russe"), mas o livro gira em torno de outros personagens. Na primeira parte, um casal de franceses que perde a filha de quatro anos no tsunami ocorrido no Sri Lanka, do qual o próprio autor foi testemunha, quando estava em férias com a mulher e os filhos em dezembro de 2004. Na segunda parte, os personagens são dois jovens juízes que travam uma batalha diária por pessoas humildes, vítimas de endividamento devido a falhas na lei, o que faz que muitas vezes a Justiça favoreça as empresas de crédito.

Etienne e Juliette são os dois juízes chamados de “vermelhos” pelos colegas conformistas por tomarem a defesa dos mais fracos. Etienne venceu a luta contra um câncer na adolescência, mas perdeu uma perna. Juliette sucumbe à doença. São as duas vidas que ocupam a segunda parte do livro.

“Mesmo se o livro trata de coisas dolorosas, difíceis, não o escrevi com dúvidas quanto à minha legitimidade, meu direito de escrever. No fundo, não é um livro escrito contra, é um livro desejado pelas pessoas envolvidas na história. Logo, mesmo se o que ele narra é duro, foi escrito num relativo conforto psicológico, o que era novo para mim”, diz Carrère, em entrevista a Tropico, em seu confortável apartamento parisiense.

A seguir, ele discute o termo "autoficção", usado por alguns autores franceses para definir relatos autobiográficos e diz que deseja ser lido pelo maior número possível de pessoas. "Tenho um desejo: que o que escrevo possa atingir leitores não necessariamente atentos à literatura", afirma.

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"Outras Vidas Além da Minha" foi escrito a partir de fatos reais trágicos, mas, apesar disso, o livro foi qualificado por um crítico como “surpreendentemente luminoso”. Ele fala de perdas, de doenças, mas também de uma tomada de consciência de que a felicidade existe e está ao nosso alcance, tratando de histórias reais. Você chegou a hesitar em escrevê-lo?

Emmanuel Carrère: Não, não cheguei a hesitar. O livro tem duas partes, uma mais longa que a outra. A primeira trata do tsunami, do qual fui testemunha há quatro anos. A segunda parte gira em torno de um drama mais pessoal e mais banal de certa forma: a morte de minha cunhada, Juliette, uma jovem de 33 anos, que tinha câncer. Sobre isso, não sei se eu teria pensado em escrever.

Mas, como conto no livro, houve esse encontro com o colega de Juliette, o juiz Etienne Rigal, que tinha tido um câncer também e no dia seguinte à morte nos falou dela de uma forma tal, por duas horas, que saí de sua casa totalmente fascinado por tudo o que ele havia contado, a tal ponto que disse a mim mesmo: “Tenho que escrever um livro, um relato para tentar passar a emoção que senti ao escutar Etienne”.

Foi apenas isso. E acho que o livro cumpre o programa que tracei. E o que demonstra que não hesitei muito é que, no fim dessa visita, esse homem que me conhecia como escritor se virou e me disse: “Essa história talvez seja para você”. Na mesma noite pensei: “Ele me encomendou um livro, tudo bem”.

Falei com minha companheira, que era uma das pessoas envolvidas na história, e depois do enterro voltei a falar com Etienne para lhe dizer que eu estava de acordo, que ia começar a ouvir o que ele tinha a contar, sem saber se daria um livro. Falamos muito, nos tornamos muito amigos e de certa maneira essa decisão foi rápida, enquanto que para outros livros foi complexa, longa, difícil, o contrário do que aconteceu com os dois outros livros meus, anteriores a esse ("L’Adversaire" e "Un Roman Russe").

Eles tratavam, ambos, de histórias reais com personagens reais. E eu estava muito atormentado pela pergunta seguinte: “Com que direito eu escrevo essa história?”. Mas, para esse livro, não tive essa dificuldade, porque eu tinha a impressão que esse direito me tinha sido dado primeiramente por Etienne, depois pelo marido de Juliette, Patrice.

Mesmo se o livro trata de coisas dolorosas, difíceis, não o escrevi com dúvidas quanto à minha legitimidade, meu direito de escrever. No fundo, não é um livro escrito contra, é um livro desejado pelas pessoas envolvidas na história. Logo, mesmo se o que ele narra é duro, ele foi escrito num relativo conforto psicológico, o que era novo para mim.


Seu livro trata tudo com uma delicadeza impressionante. Seus personagens seriam como heróis, mesmo não tendo realizado feitos heróicos?

Emmanuel Carrère : Concordo plenamente. E é por isso que a delicadeza que você atribui a esse livro não foi um grande esforço, porque eu tinha por essas pessoas um sentimento de simpatia, de amizade, de respeito e mesmo de admiração que fez com que se estabelecesse uma relação de confiança particular e muito grande.

Etienne veio me pedir para escrever, mas Patrice me demonstrou uma confiança extraordinária, e a minha preocupação maior era de não traí-lo, de ser digno dessa confiança, e acho que fui. Eu o conhecia muito pouco, ele tinha perdido sua mulher poucos meses antes e fui vê-lo para dizer: “Sabe, quero escrever um livro sobre sua mulher”. Outras pessoas teriam dito: “Não acho de muito bom gosto”.

O livro não foi escrito num espírito de contradição, de ambiguidade, de dificuldade, foi feito de maneira natural.


Você encontrou pessoas que viveram tragédias e tiveram força para superá-las. Por exemplo, os pais da pequena Juliette, morta no tsunami, e o juiz Etienne Rigal. Mas também a juíza Juliette, que assumiu todas as suas escolhas e teve a coragem e a sabedoria de construir sua felicidade contra todas as circunstâncias adversas. O que eles lhe acrescentaram?

Carrère: Muita coisa. Esse livro me transformou, mesmo eu não sendo o personagem principal, mas o narrador e uma testemunha muito presente. Tenho a impressão de que esse personagem, quer dizer, eu, mudou bastante entre o início e o fim do livro. A mudança se deu graças a esses encontros e à atenção recíproca. Fui durante quase toda a minha vida, o que testemunham os meus livros, alguém muito atormentado, muito dividido.

Fui poupado das grandes dores da vida: não conheci até hoje perdas importantes, não conheci a doença, não tive verdadeiras dificuldades materiais. Tive uma vida ao mesmo tempo muito protegida e difícil, porque muito neurótica. E, quando digo muito neurótica, não o digo com menosprezo, como se dissesse que há as verdadeiras misérias da vida e há as falsas.

Não penso que é uma infelicidade falsa. Penso que a neurose também é uma grande fonte de infelicidade. Mas tenho a impressão que essa espécie de confronto que se produziu, por acaso, com essas desgraças e a maneira como as pessoas que conheci as enfrentaram me deram de repente consciência da precariedade da vida e me revelaram uma disposição para a felicidade que eu não sabia que possuía. Esse livro foi para mim uma experiência muito decisiva e muito positiva.

Tenho a impressão que escrevê-lo me fez muito bem. Tem também uma coisa comum a todos os personagens do livro: eles são todos, sem exceção, capazes de amar, de amor muito grande, muito fiel, constante, feito de escolhas. E isso é um dado comum a todos, aos pais de Juliette, a Juliette e Patrice, a Etienne e sua mulher, e na amizade que liga Etienne e Juliette.

Com o distanciamento, percebi que é um livro sobre o casal e sobre o que pode ser a beleza e a força do casal. E eu escrevera muito sobre a dificuldade que havia para mim em fazer parte de um casal. Sei que a consciência da existência desses casais tornou a minha vida mais fácil.


Você disse que o livro não é autoficção uma vez que é 100% real, logo a ficção é reduzida a zero. A autoficção existe realmente?

Carrère: Sou reticente a respeito dessa palavra, não ao que ela pretende significar. Acho que existe hoje na França, e não somente na França, uma produção que não é romance no sentido estrito. Muitas vezes se escreve a palavra “romance”, e penso que é um certo abuso. Não é grave, não deve haver uma querela de palavras. Sei qual é a origem da palavra autoficção, inventada nos anos 80 pelo professor e escritor Serge Doubrovsky. Mas me parece uma palavra pouco feliz.


Essa palavra só é utilizada na França ou foi adotada no mundo todo ?

Carrère: Não sei se é somente na França. Pode ser que eu pense que há uma tendência generalizada quando se trata apenas de meu gosto particular, mas os livros que mais me agradaram nos últimos anos foram livros autobiográficos. Por exemplo, o livro de Daniel Mendelsohn, “Les Disparus” (Os Desaparecidos), que acho magnífico. Ou então o de Joan Didion, "The Year of Magical Thinking" (O Ano do Pensamento Mágico), no qual ela conta o luto por seu marido. São livros autobiográficos.

Mendelsohn é o narrador de seu livro, ele está presente, mas não fala de si mesmo, fala muito da história de sua família, da grande história. Quanto a mim, sou mais sensível a livros como esses do que à maioria dos romances clássicos. Mas não tenho nenhuma posição teórica contra o romance, nenhuma crítica a sua perda de influência...


Mas você não tem vontade de escrever romances?

Carrère: Talvez volte a fazê-lo um dia, não sei. Por enquanto, não tenho apetite pelo romance, nem como autor, nem como leitor. Tenho a impressão de que as coisas que mais me interessam estão nesse espaço que é muito amplo, pois inclui tanto narrativas autobiográficas e relatos que não são autobiográficos, mas relatos da vida de outra pessoa ou mesmo livros de pesquisas históricas. Pessoalmente, isso me atrai mais, atualmente.

Acho a palavra "autoficção" redutora, porque me leva a pensar na palavra "ficção" no sentido mais clássico, isto é, “relato de acontecimentos imaginários”. E a autoficção me parece ser algo que precisamente não é ficção. Portanto, acho a palavra inapropriada.

De qualquer forma, é por isso que tenho tendência a recusá-la para qualificar o que eu escrevo, pois não é ficção. Isso não impede que sejam livros que utilizam todos os recursos do romance, como o suspense, tudo o que é usado para manter a atenção do leitor, os flash-backs e outros recursos. Utilizo as técnicas do romance com o maior prazer, sem escrúpulos. Meus livros não são de forma alguma documentos brutos.


Existe a pena e a técnica do romancista, mas trata-se da vida verdadeira...

Emmanuel Carrère : Sim, mas isso tem um preço, que são pequenas inexatidões. Seria mais ou menos como quando fazemos um filme documentário e o montamos. Podemos aproximar dois momentos de uma conversa, que, na realidade, estavam separados por horas ou mesmo por dias. Existe uma construção, uma montagem, mas todo o material continua sendo autêntico. E, mesmo no trabalho de montagem, tenho a preocupação de ser fiel, de não trair.


Parece-me que, para a criação de seus livros, você realiza também um trabalho prévio muito próximo do jornalismo, entrevistando pessoas, apurando fatos etc. Estou correta?

Emmanuel Carrère : Exatamente. Durante mais de 15 anos escrevi romances. E há uns dez anos escrevo conforme esse modelo, que integra em grande parte um trabalho de jornalista. “L’Adversaire” foi o primeiro nesse gênero e foi muito influenciado por "A Sangue Frio", de Truman Capote, que é o grande protótipo desse tipo de livro.

Capote teorizou muito sobre o que ele chamou de “non-fiction novel”, que é uma expressão um tanto pesada, mas me parece mais apropriada que "autoficção". Isso corresponde ao que faço, é romance, mas não é ficção.

“L’Adversaire” parte de um crime e fiz um trabalho de investigação muito longo, complicado, não materialmente, mas sobretudo do ponto de vista psicológico, pois o contato muito próximo com um criminoso que cometeu atos terríveis é muito difícil. Isso implica problemas humanos, morais. O livro foi difícil de fazer. Mas tenho a impressão que qualquer coisa mudou em mim, como se fosse um caminho sem retorno. Mas, se amanhã tiver vontade de escrever um romance, não tenho nada contra. Eu o escreverei.


Você disse numa entrevista que a neurose protege da infelicidade verdadeira, pois ela faz a pessoa pensar que é imortal. No livro você diz que tem “boas razões de pensar que a vulgata psicanalítica sobre os benefícios da palavra contrariamente à devastação do silêncio é verdadeira”. Qual é o lugar que a psicanálise ocupa na sua vida?

 
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